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Sem isolamento, mais de 5 mil pacientes podem ficar sem leito de UTI em SP

Leitos e UTI sendo preparados no Complexo Hospitalar dos Estivadores, em Santos - Marcelo Martins/ Prefeitura de Santos
Leitos e UTI sendo preparados no Complexo Hospitalar dos Estivadores, em Santos Imagem: Marcelo Martins/ Prefeitura de Santos

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

08/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Estudo do Instituto Butantan traça cenários da pandemia em SP
  • Sem isolamento, 5,7 mil pacientes podem ficar sem leito de UTI
  • Estado deve registrar 1,3 mil mortes pela doença até o próximo dia 13

Um estudo produzido pelo Instituto Butantan, com o auxílio da Universidade de Brasília e do Centro de Contingência para o Coronavírus de São Paulo, traçou cenários preocupantes caso o isolamento social não persista nos próximos dois meses. Anteontem, o governador João Doria (PSDB) anunciou que as medidas restritivas no estado devem durar até o dia 22 de abril, mas a tendência é que permaneçam por mais tempo.

Caso o isolamento social seja suspenso, ideia defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e por parte de seus ministros, haverá déficit de 3,7 mil leitos de terapia intensiva, utilizados para tratar pacientes com sintomas graves, nos próximos 30 dias.

Em dois meses, esse número saltaria para mais de 5,7 mil — ou seja, quase seis mil pessoas podem ficar sem tratamento intensivo. As projeções impressionam, pois o estado é um dos mais bem equipados do país, com 12,5 mil leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Nos outros dois cenários apresentados pela pesquisa, com isolamentos "médio" (como estamos hoje) e "intenso" (isolamento mais profundo), não haverá sobrecarga nos leitos. O estudo também mostrou que faltarão leitos de enfermaria com a supressão do isolamento.

Previsão de mais de 100 mil pacientes

Em um mês, sem as medidas de restrição, os pesquisadores preveem que 110 mil pacientes ocupem leitos no estado, que só possui 28,3 mil dessas estruturas. Em suma, mais de 81 mil pessoas vão se contaminar pelo novo coronavírus e correm o risco de não ter a possibilidade de tratamento.

Ainda segundo o estudo, o estado de São Paulo pode registrar 5 mil mortes por covid-19 até o próximo dia 13; com as medidas de restrição, esse número deve ser de 1,3 mil vítimas da doença.

"A ocupação dos leitos de UTI já está em 50%, ou seja, já temos 6 mil leitos ocupados. (...) Sem nenhuma medida [de isolamento], nós teríamos, no dia 13 de abril, quase 150 mil casos confirmados de coronavírus. Com as medidas, vamos chegar a essa data com 20 mil, 25 mil casos", disse na última segunda-feira o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas.

O estado de São Paulo continua concentrando a maior parte dos casos confirmados e das mortes no país. Até ontem, eram 5.682 casos da doença e 371 vítimas, de acordo com dados oficiais do governo estadual. Mais de 100 municípios já registraram pelo menos uma confirmação para covid-19.

Leitos em SP

Dados de 2018 compilados pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) indicam que São Paulo está entre as unidades federativas com melhores índices de leitos de terapia intensiva. São 2,63 leitos para cada 10 mil habitantes, perdendo apenas para Rio de Janeiro (3,79), Distrito Federal (3,39) e Espírito Santo (2,72).

Se levarmos em consideração apenas os leitos controlados pelo SUS (Sistema Único de Saúde), todavia, esse número cai para 1,19 para cada 10 mil habitantes.

Hoje, há uma oferta de 55.101 leitos de terapia intensiva no Brasil, sendo que 27.445 (49,8%) são do SUS. Segundo o ministério da Saúde, outros 3 mil leitos de UTIs volantes de instalação rápida foram alugados. Pelo menos sete em cada dez brasileiros dependem exclusivamente do SUS.

Simulações produzidas por pesquisadores de Harvard, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), divulgadas na semana passada, mostram que os leitos de UTI podem ficar escassos já neste mês.

No caso de São Paulo, o levantamento "Demanda por serviços de internação de pacientes com Covid-19 no Brasil" aponta para uma sobrecarga nos leitos de baixa complexidade entre os dias 12 e 19 de abril. Em relação às UTIs, o déficit já ocorrerá entre 5 e 19 de abril. Dessa forma, segundo as projeções, locais no estado já sofrem com a falta de leitos de UTI.

O governo federal foi procurado pelo UOL, na última semana, para esclarecer qual é o planejamento para amenizar o déficit de leitos. Apesar de estados e municípios terem prerrogativa para adquirir essas estruturas, eles dependem de verbas do Ministério da Saúde, já que enfrentam situações econômicas problemáticas.

O ministério não informou se há um plano para conter a escassez de leitos. Uma possibilidade, garantida pela lei de quarentena, seria a utilização das estruturas dos hospitais privados, mas ainda não houve nenhuma movimentação nesse sentido.

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