Topo

Esse conteúdo é antigo

De saída, Mandetta tenta amenizar rixa com Bolsonaro e elogia governadores

Do UOL, em São Paulo

16/04/2020 17h16Atualizada em 16/04/2020 19h53

Luiz Henrique Mandetta, após anunciar sua demissão do cargo de ministro da Saúde, adotou tom conciliatório hoje ao abordar seu encontro com Jair Bolsonaro (sem partido), classificado como "amistoso". Os dois se reuniram nesta tarde no Palácio do Planalto, onde foi acertada a saída.

A conversa, anunciada como "de comum acordo", contudo, aconteceu apenas depois de uma longa reunião entre o presidente e o novo ministro, o oncologista Nelson Teich.

O médico anunciou pelo Twitter a demissão e, na sequência, concedeu entrevista coletiva para detalhar a situação.

"Agradeço muito ao presidente. Foi uma conversa amistosa, agradável, embora o que eu posso entregar agora sobre a condução do ministério... É melhor que ele organize a equipe que possa construir outro olhar e que isso possa ser feito com base na ciência. Sei do peso da responsabilidade dele, do peso de cuidar da economia. O presidente é extremamente humanista e pensa também nesse momento todo pós-corona", afirmou Mandetta.

A relação entre Bolsonaro e ele foi sempre marcada por poucos acordos no que se refere ao combate da pandemia do novo coronavírus. E muitos desses pontos ficaram claros no discurso do agora ex-ministro, que disse que a demissão era "insignificante".

Em mais de uma ocasião, acordos entre os dois eram rapidamente descumpridos pelo presidente, que desafiava o isolamento social, protagonizava aglomerações e defendia o uso da cloroquina mesmo quando o então ministro se mostrava reticente sobre seu uso no tratamento de pacientes diagnosticados.

No último final de semana, o presidente havia dito que a crise do coronavírus "parece que começa a ir embora". Hoje, Mandetta ressaltou: "Não pensem que estamos livres do pico dessa doença. O sistema de saúde ainda não está preparado para uma marcha acelerada".

Defensor do isolamento social, o médico mais uma vez desautorizou o presidente em sua orientação, e elogiou prefeitos e governadores pela adoção das medidas no combate à covid-19.

Eles têm sido há semanas alvo preferencial do presidente, que se queixa de não ter sido ouvido para a tomada das decisões dos estados, apesar de decisão do STF que garante sua autonomia.

Sigam as orientações das pessoas mais próximas que estão em contato mais próximo com os problemas: prefeitos, governadores e Ministério da Saúde"
Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde

Na condução da crise, Mandetta reiterava diariamente ser um homem da ciência e, assim, entrava em embates diretos com o superior, que reclamava de não ser ouvido por ele. Aos colegas de pasta, aconselhou que "não façam um milímetro diferente do que sabem fazer".

"Não tenham medo", afirmou. "Fiquem nesses três pulares que deles vocês conquistarão tudo: A ciência é a luz, é o iluminismo. Apostem todas as suas energias através da ciência."

O agora ex-ministro também agradeceu aos servidores que atuaram com ele na pasta e pediu que auxiliem a nova equipe no processo de transição. Ele mencionou diversos secretários e assessores que deixarão os respectivos cargos e elogiou os secretários Wanderson de Oliveira (secretário de Vigilância em Saúde) e João Gabbardo (secretário-executivo do Ministério da Saúde), que estiveram ao seu lado durante as entrevistas coletivas.

"Estamos começando o século 21 e com ele, muitas verdades que eram absolutas virarão pó. O modo de viver será diferente", disse ele, após declarar que a batalha contra o vírus está "só no começo".

"Ficarei nas minhas orações sempre, pensando no que de melhor energia eu posso mandar para vocês. Tenho certeza de que minha devoção inabalável à Nossa Senhora Aparecida vai acompanhar vocês", finalizou.

O ex-ministro também aproveitou a ocasião para agradecer ao Congresso Nacional, o Tribunal de Contra da União, o Ministério Público Federal, a iniciativa privada.

"Agradeço aqui a todos os poderes. Tanto o Congresso [...], que ainda ontem fizemos uma reunião com parlamentares de todos os partidos. Agradeço ao Senado na pessoa do senador Davi Alcolumbre, que esteve sempre ao nosso lado", disse, acrescentando que visitou o presidente do Senado quando foi diagnosticado com covid-19.

Mandetta não abriu espaço para as perguntas dos jornalistas e ainda brincou com os presentes que não divulgaria hoje "análises da cloroquina". Ele também reiterou a defesa ao SUS (Sistema Único de Saúde) e repetiu que a pasta deve se guiar pela ciência. Ele será sucedido pelo oncologista Nelson Teich, que se pronunciou já nesta tarde após anúncio oficial feito pelo presidente.


Saída prevista

Hoje mais cedo, Mandetta revelou em um debate online que a troca na pasta aconteceria entre "hoje e amanhã". "Eu sou a peça menor dessa engrenagem, eu escolhi muito bem a minha equipe", afirmou pela manhã ao explicar, em tom de despedida, que o trabalho de combate continuará independentemente de quem assumir o seu cargo.

Ontem, o ministro já tinha admitido em entrevista para o site da revista Veja que ia sair do ministério. Ele declarou que estava cansado de medir palavras com o presidente: "Você vai, conversa, parece que está tudo acertado e, em seguida, o camarada muda o discurso de novo. Já chega, né? Já ajudamos bastante".

trio - José Dias/PR - José Dias/PR
O secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira; o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; e o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo
Imagem: José Dias/PR

Secretário pediu demissão e Mandetta negou: 'Sairemos juntos'

O secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, justificou ontem, em coletiva de imprensa, por que decidiu pedir demissão da pasta. Segundo ele, esse processo vem já há algum tempo e que a mensagem era se preparar para sair junto com o ministro Luiz Henrique Mandetta.

"Estamos cansados. Eu não pedi demissão. A mensagem é: vamos nos preparar para sair junto com o ministro Mandetta. Esse processo vem sendo discutido há algumas semanas. Chega a um ponto em que estamos entendendo que um dos processos está adiantado. O ministro citou o laboratório, a informação. E essa etapa é mais da assistência do que da vigilância. Mas estamos juntos. Não teve um motivo específico. Nós estamos cansados", explicou o secretário.

Mandetta chegou a abrir a entrevista coletiva de ontem afirmando que Wanderson só deixaria a pasta quando ele saísse. O mesmo foi dito pelo secretário-executivo João Gabbardo.

Choque de ideias com Bolsonaro

A demissão de Mandetta coloca fim em uma gestão marcada pelo embate com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre o combate à pandemia do novo coronavírus.

A retirada de Mandetta do governo, consumada hoje, já era esperada desde o início da semana passada. O protagonismo que Mandetta ganhou por liderar a atuação contra a covid-19 foi um dos pontos que incomodou Bolsonaro. A aprovação do Ministério da Saúde sob seu comando era maior que a do presidente, segundo pesquisa Datafolha.

O apoio público do presidente para o uso da cloroquina contra o novo coronavírus, apesar de ainda não haver comprovação científica sobre a eficácia, foi outro fator de faísca.

Mas, mais do que isso, a defesa do agora ex-ministro para que o país siga as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) para brecar a proliferação da doença no país gerou atrito com Bolsonaro.

O presidente é a favor da tese de que a economia não pode parar e que apenas uma parcela da população deveria ficar em isolamento.

Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante evento em Brasília - ADRIANO MACHADO - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante evento em Brasília
Imagem: ADRIANO MACHADO

Mandetta, por sua vez, segue a ideia de restrição de circulação de toda a população, o que, segundo a OMS e especialistas do mundo, ajuda a diminuir a quantidade de contaminados, dando fôlego ao sistema de saúde para tratar os doentes por coronavírus.

Diante dos embates de Bolsonaro com os estados que adotaram medidas de restrição de circulação, Mandetta chegou a recomendar que a população desse ouvidos aos governadores.

Mandetta sempre sustentou que não sairia do ministério por conta própria, mas apenas demitido. "Médico não abandona paciente", costumava a a dizer em suas entrevistas coletivas.

Respaldado pela ala militar do governo em meio às crises com Bolsonaro, Mandetta viu seu apoio cair dentro do governo depois de, no último domingo (12), dar declarações em que fez críticas ao presidente durante uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo.

Foi a gota d'água em uma relação que levou a atenção da população para questões políticas em meio a uma pandemia que, apenas em seu início, já matou mais de 1.500 pessoas no país, com mais 25 mil casos registrados.

*Com informações da agência Reuters