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"Troca no ministério deve se concretizar hoje ou amanhã", diz Mandetta

Do UOL, em São Paulo

16/04/2020 11h20Atualizada em 16/04/2020 15h27

Resumo da notícia

  • Em debate, ministro afirmou se considerar "a peça menor da engrenagem" da equipe
  • Mandetta voltou a criticar fim imediato do isolamento: "Vai colocar todo mundo doente. Não vai ter comida nem hospital"
  • Também citou impacto na economia e brincou que seu próximo passo talvez seja "uma entrevista de emprego"
  • Titular da Saúde atacou ainda a apropriação de discussões técnicas por quem não entende do assunto

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse hoje que a pasta deve ter mudanças nas próximas horas. "Devemos ter uma situação de troca no ministério que deve se concretizar hoje ou amanhã", afirmou ele durante um debate online com especialistas da área de saúde sobre a covid-19. Desde o início da semana fala-se na saída do ministro do cargo devido ao desgaste na relação com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

"Eu sou a peça menor dessa engrenagem, eu escolhi muito bem a minha equipe", afirmou ao explicar, em tom de despedida, que o trabalho de combate continuará independentemente de quem assumir o seu cargo.

As declarações foram feitas durante um debate online promovido pela Iniciativa FIS (Fórum Inovação Saúde), que reúne lideranças da Secretaria de Estado da Saúde do Rio de Janeiro, Fiocruz, UFF, UFRJ, Academia Nacional de Medicina, entre outras entidades. O debate reuniu André Medici, economista de saúde; Denise Santos, CEO do hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo; Henrique Salvador, presidente da Rede Mater Dei de Saúde; e Margareth Dalcolmo, pneumologista docente da Fiocruz.

Questionado sobre impactos permanentes da pandemia e sobre os planos para o futuro, Mandetta disse que o país terá dificuldades econômicas e, no âmbito pessoal, brincou: "Talvez começar com uma entrevista de emprego".

Vamos ter muito desemprego, vamos ter impacto social. Desligar um país como foi desligado e ligar é muito complexo
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde

Sobre seu virtual substituto, ainda indefinido, disse que quer garantir que quem assuma "tenha o mínimo de condições de trabalhar. O que eu puder ajudar eu vou ajudar e depois vou fazer um distanciamento. Por que aqui é muito complicado. Um dia uma coisa é certeza, depois a certeza virou pó, virou dúvida e já é outra coisa".

Em diversos momentos d debate, Mandetta fez referências às divergências com o presidente Bolsonaro. "O mundo terá que ter grandes cabeças que vão ter que encontrar um equilíbrio. Fazer um novo mapeamento das dependências que nós criamos dos sistemas de saúde. Quem olha o vírus sozinho vai errar porque ele ataca a educação, a economia, a Olimpíada, porque ele se impõe. (...) Mas nós não sabemos ainda todos os efeitos. Não sabemos nem quem será o ministro da Saúde amanhã", disse Mandetta.

Ele criticou as notícias falsas sobre tratamentos para o novo coronavírus e o uso político da comunicação. "Quanto mais baixa a formação, mais terreno fértil pela má comunicação, mas isso é diferente da má comunicação política, onde aquele que não concorda com a opinião é massacrado", disse o ministro.

Mandetta ainda mostrou descontentamento com o fato de discussões técnicas estarem ocorrendo com integrantes do governo que não entendem do assunto citando "uma reunião com ministros falando sobre remédios para o coronavírus e todos leigos tentando convencer outros leigos, quando deveria ser discutido com integrantes do Conselho Federal de Medicina, por exemplo".

Ao responder uma pergunta de uma internauta sobre o fim da quarentena e volta ao trabalho, Mandetta reforçou que é preciso um trabalho de várias áreas do governo.

No curto prazo, soltar todo mundo para buscar comida vai colocar todo mundo doente. Não vai ter nem a comida, nem o hospital.
Mandetta

Segundo o ministro, é necessário que o Estado estenda a mão rapidamente a que precisa. "Dá para fazer isso a vida inteira? Não. Mas depois que passar essa epidemia, muita gente terá a doença e não sentirá nada."

O ministro destacou que a ciência ainda está entendendo e estudando o vírus e que cada cidade precisará avaliar seu contexto para ver quais medidas são mais apropriadas. Para ele, apesar da crise, a pandemia pode abrir uma oportunidade positiva para o SUS (Sistema Único de Saúde). "O SUS ganha importância política no Senado e na Câmara para ter orçamentos mais próximos de um país que tem muitas doenças negligenciadas, como tuberculose, convivendo com a necessidade de leitos de alta complexidade. Teremos uma voz mais forte sobre isso".

Ministro se diz cansado

Ontem, Mandetta desabafou em entrevista ao site da revista Veja sobre os desgastes vividos com Bolsonaro durante o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus e admitiu que deixará a pasta. O presidente é contrário às recomendações do Ministério da Saúde, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de especialistas sobre a eficácia da quarentena para reduzir o número de casos da covid-19. Mandetta se disse cansado após dois meses de trabalho.

"Sessenta dias tendo de medir palavras. Você conversa hoje, a pessoa entende, diz que concorda, depois muda de ideia e fala tudo diferente. Você vai, conversa, parece que está tudo acertado e, em seguida, o camarada muda o discurso de novo. Já chega, né? Já ajudamos bastante", afirmou ele.

Mandetta já havia criticado Bolsonaro em uma entrevista ao Fantástico no último domingo, quando disse que o brasileiro não sabe se escuta ele ou o presidente e previu momentos difíceis em maio.

Ainda ontem, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, chegou a anunciar sua demissão do Ministério da Saúde —- depois rejeitada por Mandetta. Segundo Oliveira, esse processo vem já há algum tempo e que a mensagem era se preparar para sair junto com o ministro.

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