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Coronavírus

Cartórios registram 5% mais mortes por covid-19 que Saúde segundo a pasta

Movimentação no cemitério Parque de Manaus, com coveiros colocando caixões dentro de vala aberta nesta segunda-feira (27) - Sandro Pereira/Fotoarena/Estadão ConteúdoO
Movimentação no cemitério Parque de Manaus, com coveiros colocando caixões dentro de vala aberta nesta segunda-feira (27) Imagem: Sandro Pereira/Fotoarena/Estadão ConteúdoO

Gabriela Sá Pessoa

Do UOL, em São Paulo

28/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Até domingo, cartórios contabilizaram 257 mortes a mais por covid-19 do que as notificadas pelo Ministério da Saúde
  • Para especialistas, houve melhoria dos laboratórios em processar os testes de casos suspeitos
  • Além da espera pelos resultados, forma como os casos são lançados nos sistemas pode contribuir para a demora
  • Números dos cartórios, porém, resultam de uma metodologia diferente dos fornecidos pelas secretarias de Saúde

Até domingo (26), cartórios contabilizaram 257 mortes a mais por covid-19 do que as notificadas oficialmente pelo Ministério da Saúde, segundo dados do último boletim epidemiológico da pasta, divulgados nesta segunda-feira (27).

Os números do CRC (Cartórios de Registro Civil) apontam 4.462 vítimas de coronavírus no país até domingo, enquanto estados e municípios tinham confirmado 4.205 casos fatais — uma diferença de 5,7%. Nesta segunda, o número de óbitos confirmados pelo Ministério da Saúde subiu para 4.543.

Wanderson Oliveira, secretário de Vigilância em Saúde, disse em entrevista coletiva ontem que essa proporção de subnotificação "não é tão elevada" e ponderou que, em algumas regiões do país, os dados de cemitérios e cartórios não estão totalmente atualizados.

"A transferência diária dos lotes do sistema de mortalidade vai nos conferir uma melhor precisão, precisamos ter uma semana de recebimento para avaliar esses dados", afirmou.

A diferença entre as mortes registradas em cartórios e as confirmadas pelos órgãos oficiais de saúde chegou a 48% no início de abril, segundo levantamento feito pelo UOL. A diminuição desse patamar para 5% pode refletir a melhoria dos laboratórios em processar os testes para o novo coronavírus, avalia o infectologista Evaldo Stanislau, diretor da Sociedade Paulista de Infectologia.

Na última quarta-feira (22), o governo de São Paulo anunciou que tinha zerado a fila de exames para covid-19.

"Acho louvável que tenha zerado a fila, foi um grande esforço das autoridades. A próxima etapa que precisamos ver funcionando é o exame em tempo real, em 24, 48 horas, que é um tempo razoável para ter o resultado. O sistema de saúde vai atender melhor e aí, sim, vamos poder sonhar com a tão desejada reabertura", diz Stanislau.

O infectologista conta que, mesmo com a fila zerada, os resultados ainda chegam tarde demais para as autoridades de saúde.

"Para você ter ideia — e não vou citar nomes —, numa das cidades em que trabalho, recebemos hoje um lote de quase 40 exames represados. Tinha 11 pacientes que vieram positivos, pacientes que a gente nem lembrava mais. Se [um exame] já confirma ou descarta, com agilidade, a gente pode tomar outras decisões, como tirar o paciente de um leito de isolamento por covid-19. A falta desse exame em tempo ágil atrapalha em demasia a assistência", ele afirma.

Stanislau diz acreditar que os diagnósticos que recebeu hoje contêm exames feitos "seguramente há bem mais de 30 dias". A demora em poder cravar que um caso é ou não de coronavírus justifica a demora dos dados do Ministério da Saúde, que tem notificado mortes com semanas de diferença. Na última semana, o número de óbitos confirmados pela pasta trazia casos que haviam ocorrido em 21 de março.

Alessandro Farias, coordenador da frente de diagnósticos da força-tarefa da Unicamp de enfrentamento ao covid-19, explica que, além da espera pelos resultados de exames, a forma como os casos são lançados nos sistemas de notificação também pode contribuir para a demora nas confirmações.

"É normal os funcionários preencherem o cadastro [do paciente] à mão e depois passar para o computador. No momento de pandemia é complexo, pode demorar mais porque há muito trabalho a fazer", afirma.

Vice-presidente da Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), Luis Carlos Vendramin Júnior, ressalta que os números dos cartórios resultam de uma metodologia diferente dos fornecidos pelas secretarias de Saúde.

O banco de dados dos registros civis são coletados a partir dos atestados de óbito, com base na busca em todos os arquivos pela expressão "covid-19". As 257 mortes a mais que as registradas pelo Ministério da Saúde, portanto, podem incluir pacientes que morreram com suspeita do novo coronavírus, porém foram diagnosticados como negativos para a doença depois de os exames ficarem prontos.

"O atestado de óbito até pode ser alterado depois por retificação, mas é muito raro", afirma Vendramin.

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