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Coronavírus: Pacientes esperam por vagas em UTI ao lado de corpos no Amapá

O taxista Manoel Geraldo Chaves ao lado de um corpo no Hospital de Emergências de Macapá - Arquivo pessoal
O taxista Manoel Geraldo Chaves ao lado de um corpo no Hospital de Emergências de Macapá
Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Ponta Grossa (PR)

07/05/2020 14h12

O Hospital de Emergências de Macapá, o único pronto-socorro da cidade, abriga pacientes dividindo o mesmo espaço com os corpos de pessoas que morreram pela covid-19. A falta de estrutura para atender pacientes com suspeita ou confirmação da doença na pandemia do novo coronavírus foi constatada em fiscalização do Ministério Público do Amapá.

Uma imagem registrada pela família do taxista Manoel Geraldo Chaves, que morreu ontem aos 63 anos, mostra pelo menos dois corpos no mesmo espaço onde estavam pacientes e acompanhantes.

"É assustador. Morreram cinco ao nosso lado ao longo desses dias. Meu pai via aquela situação e se desesperava, ficando muito nervoso. Parecia que alguma uma hora seria a nossa vez", relatou o filho do taxista, José Chaves.

O Amapá é o estado com a maior incidência proporcional do novo coronavírus no país. Ao todo, são 2.046 confirmados e 56 óbitos, segundo o boletim de ontem do Ministério da Saúde.

Segundo a família de Manoel Chaves, o taxista deu entrada no Hospital de Emergências com prognóstico de covid-19. Mesmo ainda sem a confirmação da doença, como ele era um caso suspeito, entrou para uma lista de espera de transferências aos Centros de Tratamentos Covid, gerenciados pelo governo estadual. Os locais são específicos para tratar casos suspeitos e confirmados da doença no Amapá e possuem UTI com respiradores.

"Anunciam que tem leito, respiradores, remédios, centos de covid, mas não conseguimos em nenhum momento ter uma estrutura para meu pai ter mais chances de vida. Eles alegavam que estavam lotados, tanto que fomos para uma lista. Ele era o 35º da fila", contou o filho do taxista.

O UOL questionou o governo do Amapá sobre a falta de leitos e a presença de corpos nas enfermarias, mas ainda não obteve as respostas.

Cadáveres nas enfermarias

O técnico em enfermagem Jackson Gualberto atua no Hospital de Emergências e convive diariamente com a situação. Ele conta que os cadáveres chegam a ficar até seis horas aguardando a remoção ao lado dos pacientes nas enfermarias.

O servidor acredita que a situação ocorre porque o necrotério do Hospital de Emergências comporta apenas dois corpos. Como a unidade não atende apenas casos de coronavírus, também tem que suportar mortes por outras enfermidades.

Gualberto chegou a gravar um vídeo anteontem relatando a situação em uma das enfermarias do Hospital de Emergências. Nela, estava o taxista Manoel Chaves. Ao todo, dos 13 pacientes que esperavam uma vaga na UTI no dia da filmagem, cinco já morreram.

"Os corpos ali geralmente ficam entre quatro a seis horas. Isso complica mais no período da noite por questão burocrática. Naquele dia do vídeo, tinham 13 pacientes e hoje faleceu mais um, indo cinco a óbitos [somente na referida enfermaria]. O hospital tem um necrotério, mas a capacidade dele é para apenas dois cadáveres", disse Gualberto.

Para o técnico em enfermagem, é um abalo psicológico para o paciente que convive com um morto ao seu lado no mesmo espaço hospitalar.

"O principal problema de esses corpos estarem misturados com pacientes é o fator psicológico às pessoas ao verem cadáveres ao seu lado, além da possibilidade de aumentar a contaminação aos acompanhantes, que nem deveriam estar ali. A informação que temos é a de que a fila [de espera de pacientes] existe porque não existe leitos nos centros especializados e assim que surgissem vagas, esses pacientes seriam encaminhados para lá", explicou.

Ocupação de leitos é de 97%

No Painel Corona Amapá, base de dados alimentada pelo governo do Amapá, consta hoje que existe a ocupação de 97% dos leitos clínicos e 78% nos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) destinados para o novo coronavírus.

São 189 pacientes ocupando 197 leitos clínicos e 38 nos 54 de UTI. O painel, contudo, não informa se inclui somente as vagas da rede pública ou se soma com os da rede privada. Também não há informações sobre quando as informações no site foram atualizadas pela última vez.

Governo não entregou leitos anunciados, diz MP

A falta de leitos para tratar pacientes com suspeitas e confirmações de covid-19 resultou em uma ação judicial do Ministério Público do Amapá. A Promotoria de Justiça diz que até 1º de maio, quando o caso foi ingressado no judiciário, existiam 58 pessoas à espera de um lugar em um dos dois centros inaugurados.

Segundo o MP, no primeiro centro, dos 26 leitos de Unidade de Terapia Intensiva, 22 estavam funcionando. Já no segundo, existiam apenas 16 dos 58 anunciados.

Na ação, o Ministério Público pede que a Justiça obrigue com urgência o governo a transferir os pacientes para centros especializados, pois no Hospital de Emergências não tem estrutura, como respiradores, por exemplo.

O caso ainda não teve uma resolução da Justiça, que negou no sábado (2) o pedido de urgência para ouvir o governo antes de tomar uma decisão.

Sem uma posição do Judiciário, o MP emitiu ontem uma recomendação ao governo para que adote providências para construir um Hospital de Campanha. A alternativa sugerida é o uso da estrutura do Hospital Universitário da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), que ainda está em obras.

Por outro lado, o governo diz em seu site que entregou 15 novos leitos para pacientes com o novo coronavírus no centro de tratamento da Zona Norte de Macapá, passando a contar agora com 33 leitos na referida unidade. O estado não informou se existem UTI entre as novas vagas abertas.

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