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Coronavírus

Chefe da OMS na Europa espera segunda onda mais mortal do novo coronavírus

16.abr.2020 - De avental e proteção no rosto, enfermeira atende paciente em Altrincham, no Reino Unido - Christopher Furlong/Getty Images
16.abr.2020 - De avental e proteção no rosto, enfermeira atende paciente em Altrincham, no Reino Unido Imagem: Christopher Furlong/Getty Images

Do UOL, em São Paulo

17/05/2020 14h12

O diretor da OMS (Organização Mundial de Saúde) na Europa, Hans Kluge, disse em entrevista ao The Telegraph que a região pode sofrer uma segunda onda - ainda mais mortal - de infecções pelo novo coronavírus, e ele faz um alerta para os países que começam a relaxar restrições para o convívio social. "Agora é hora de se preparar, não de celebrar", afirmou Kluge.

Kluge enfatizou que a queda no número de casos de covid-19 em lugares como Reino Unido, França e Itália não significava que a pandemia caminhava para um fim. O epicentro europeu das infecções está agora concentrado no leste do continente, com aumento de casos na Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e Bielorrússia.

Os países devem passar esse momento com sabedoria e começar a fortalecer os sistemas públicos de saúde, além de capacitar hospitais, unidades básicas de saúde e unidades de terapia intensiva, disse ele.

"Cingapura e Japão entenderam desde o início que este não é um momento de comemoração, é um momento de preparação. É o que os países escandinavos estão fazendo, eles não excluem uma segunda onda, mas esperam que ela seja localizada e que possam passar por ela rapidamente."

Coincidência com outras doenças

Kluge também alertou que uma segunda onda poderia coincidir com um surto de outras doenças infecciosas.

"Estou muito preocupado com uma onda dupla. No outono [do hemisfério norte], poderíamos ter uma segunda onda de covid-19 e outra de gripe ou sarampo sazonais. Dois anos atrás, tínhamos 500 mil crianças que não tomaram a primeira dose da vacina contra o sarampo", afirmou.

Muitos especialistas, incluindo o chefe do departamento médico da Inglaterra, o professor Chris Whitty, já alertaram que uma segunda onda da pandemia pode ser ainda mais fatal que a primeira, apontando como exemplo o caso da gripe espanhola, entre 1918 e 1920.

Quando a gripe espanhola surgiu pela primeira vez, em março de 1918, tinha as características da doença sazonal típica, mas depois voltou de uma forma ainda mais virulenta e mortal no outono, matando cerca de 50 milhões de pessoas.

Estima-se que os movimentos de tropas no final da Primeira Guerra Mundial aceleraram a propagação da doença, que também teve uma terceira e quarta ondas, embora estas não tenham sido tão devastadoras.

"Sabemos pela história que, em pandemias, os países que não foram atingidos no início podem ser atingidos em uma segunda onda", disse Kluge.

"O que vamos ver na África e na Europa Oriental? Eles estão atrás da curva, alguns países estão dizendo: 'Não somos como a Itália', e duas semanas depois, um boom. Infelizmente, eles podem ser atingidos por uma segunda onda, então temos que ter muito, muito cuidado."

Relaxamento de restrições

Nas últimas duas semanas, muitos países europeus começaram a desbloquear suas economias fechadas pela pandemia e a permitir alguma retomada da vida normal.

No início deste mês, a população espanhola foi autorizada a se exercitar ao ar livre pela primeira vez em sete semanas, e restaurantes em algumas áreas da Alemanha foram reabertos. Na França, as pessoas não precisam mais de permissões de trânsito para saíram de casa.

Na ausência de um tratamento eficaz para o vírus ou uma vacina, Kluge diz que qualquer bloqueio deveria ser acompanhado por rigorosas medidas de saúde pública, incluindo rastreamento e testes abrangentes de contato.

Um aplicativo piloto de rastreamento de contatos do NHS (o sistema público de saúde do Reino Unido) foi lançado na Ilha de Wight na semana passada, com o governo dizendo que seria lançado no resto do país até o final do mês, se for bem-sucedido.

O número de testes realizados vem crescendo lentamente, mas ainda não está no nível de 100 mil por dia prometido por Matt Hancock, Secretário de Saúde. Uma análise do Telegraph mostra que cerca de 80 mil testes por dia estão sendo realizados.

Kluge disse que a falta de tratamento ou vacina significava que qualquer afrouxamento dos bloqueios deveria ser feito de forma "gradual e cuidadosamente".

"As pessoas acham que o bloqueio está terminado. Nada mudou. O pacote completo de controle de doenças deve estar em vigor. Essa é a mensagem principal."

Ele disse que espera que a pandemia mostre que a saúde deve estar agora no topo da agenda política.

"Sempre pensamos que a saúde era o motor da prosperidade econômica, mas é pior. Onde não há saúde, não há economia", acrescentou. "Esta é uma lição que não pode ser esquecida".

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