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Vídeo mostra risco de contágio em ala para covid-19 de hospital do RJ

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

21/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Imagens foram anexadas a ação do MPT-RJ, que pede melhorias
  • Prefeitura do Rio terá até dez dias úteis para se manifestar
  • MPT-RJ exige EPIs e qualificação para lidar com a covid
  • A Prefeitura do Rio diz fazer todos esforços para aprimorar o atendimento

Um vídeo obtido pelo UOL mostra uma ala para pacientes com covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, sem banheiro próprio, sem lençóis suficientes e com risco de contágio. As imagens, gravadas no começo deste mês no Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, zona sul do Rio, expõem falhas e carências da rede de saúde pública em meio à pandemia.

O vídeo integra ação civil pública movida pelo MPT-RJ (Ministério Público do Trabalho), que exige melhorias no setor, capacitação para profissionais e fornecimento de EPIs (equipamento de proteção individual) adequados. Três profissionais de saúde do hospital já morreram em decorrência da pandemia.

Nas imagens, narradas por uma enfermeira do hospital, é possível ver uma distância inferior a 2 m entre os leitos, o que é indicado em meio à pandemia.

A enfermeira começa falando sobre a falta de um banheiro exclusivo para os pacientes com o vírus, o que minimizaria os riscos de proliferação da doença dentro do hospital. "O único banheiro que tem é o banheiro lá de fora. Entendeu?", diz.

Em seguida, ela revela a situação vivida por uma mulher, que não teve os lençóis trocados à noite. "Uma das pacientes que está aqui internada apresentou queixa de que, à noite, não trocaram a roupa [de cama] dela. Porque só tinham duas mudas de roupa para o setor todo."

20.mai.2020 - Leitos de pacientes têm distância inferior ao ideal, denuncia ação civil pública do MPT-RJ, que revela situação do hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro - Arquivo - Arquivo
20.mai.2020 - Leitos de pacientes têm distância inferior ao ideal, denuncia ação civil pública do MPT-RJ, que revela situação do hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro
Imagem: Arquivo

Nas imagens, é possível ver que a ala apresenta falta de equipamentos e apenas três pacientes, apesar da falta de vagas na rede pública. Isso indica, segundo a ação movida pelo MPT-RJ, que há espaços vagos na unidade, para onde poderiam ser remanejados outros pacientes com covid-19.

20.mai.2020 - Distância entre beliches usados em descanso para profissionais de saúde do municipal Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, não respeita as recomendações de distanciamento social, aponta ação civil pública movida pelo MPT-RJ - Arquivo - Arquivo
20.mai.2020 - Distância entre beliches usados em descanso para profissionais de saúde do municipal Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, não respeita as recomendações de distanciamento social, aponta ação civil pública movida pelo MPT-RJ
Imagem: Arquivo

"Tem mais cama vazia. E aqui também tem disponibilidade de um respirador, um espaço com respirador. E os isolamentos são assim, sem absolutamente nada", critica a enfermeira, no vídeo.

A procuradora Guadalupe Turos Couto critica as medidas adotadas no local, que deveria garantir o isolamento aos pacientes com covid-19. "A covid está por todo o hospital. Não tem isolamento nenhum. O médico que atende o paciente infectado sai de lá com o mesmo avental e anda pelo mesmo espaço para atender os outros pacientes", relata.

O MPT-RJ também reforça a importância de fornecer atendimento psicossocial aos profissionais de saúde.

É impossível passar uma mensagem de esperança quando o próprio profissional de saúde trabalha sem EPI adequado, contra um inimigo invisível. Ele está inseguro, porque pode pegar a doença e morrer

Guadalupe Turos Couto, procuradora

O MPT-RJ cita ainda a presença de profissionais terceirizados que circulam livremente pelo hospital com máscaras caseiras, como o maqueiro e os profissionais da Comlurb, responsáveis pela limpeza.

20.mai.2020 - Profissional de saúde usa máscara caseira e EPI (equipamento de profissional) incompatível com os riscos dentro do hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, diz ação civil pública movida pelo MPT-RJ - Arquivo - Arquivo
20.mai.2020 - Profissional de saúde usa máscara caseira e EPI (equipamento de profissional) incompatível com os riscos dentro do hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, diz ação civil pública movida pelo MPT-RJ
Imagem: Arquivo

Há outras situações de risco que constam na ação, como a distância de menos de 2 m insuficiente entre os beliches usados no descanso pelos profissionais de saúde ou entre os leitos. O MPT-RJ também revela aglomeração no refeitório, registrada em fotos anexadas na ação.

Banheiro para evitar contágio, diz infectologista

A pedido do UOL, as imagens foram analisadas pelo infectologista Edimilson Migowski. A reportagem, contudo, não revelou a origem do vídeo, para evitar conflito de interesses.

Ele disse que a ausência de banheiro na ala para covid-19 pode aumentar os riscos de contaminação. "Numa ala de covid, é importante ter um banheiro para que o paciente possa se locomover em área de isolamento. O ideal é que tenha banheiro próximo, para que não contamine pessoas fora daquele local", analisa.

20.mai.2020 - Refeitório do hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, apresenta condições insuficientes para garantir a proteção de funcionários, aponta ação civil pública movida pelo MPT-RJ - Arquivo - Arquivo
20.mai.2020 - Refeitório do hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, apresenta condições insuficientes para garantir a proteção de funcionários, aponta ação civil pública movida pelo MPT-RJ
Imagem: Arquivo

Ele também avaliou as observações feitas pela enfermeira, que disse que uma paciente não teve as roupas de cama trocadas. "Geralmente, esses locais são climatizados. Então, é importante que os pacientes possam se cobrir à noite, porque são pessoas que podem ter febre ou uma indisposição", explica.

O que diz a Prefeitura do Rio

Em nota, a PGM (Procuradoria Geral do Município) disse que a Secretaria Municipal de Saúde faz todos esforços para aprimorar o atendimento à população.

"A Prefeitura do Rio reitera, ainda, que vem cumprindo com todas as medidas necessárias ao atendimento da população e à proteção dos profissionais de saúde da unidade", informou o texto.

As questões apontadas na ação civil pública não foram respondidas pela prefeitura.

Na ação, também há informações repassadas pelo Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) e pelo Coren-RJ (Conselho Regional de Enfermagem do Rio). A Prefeitura do Rio tem até dez dias úteis para se manifestar.

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