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Teich diz que país combate covid-19 com "incapacidade de enxergar" à frente

Houve pressão por parte de Bolsonaro para que Brasil autorizasse uso da cloroquina em pacientes com coronavírus no Brasil, mas ex-ministro Nelson Teich afirmou que medicamento era uma incerteza - AFP
Houve pressão por parte de Bolsonaro para que Brasil autorizasse uso da cloroquina em pacientes com coronavírus no Brasil, mas ex-ministro Nelson Teich afirmou que medicamento era uma incerteza Imagem: AFP

Ana Carolina Silva e Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

24/05/2020 19h44Atualizada em 24/05/2020 23h39

O ex-ministro da Saúde, Nelson Teich disse que o Brasil enfrenta a pandemia de covid-19 "em uma situação de absoluta incapacidade de enxergar o que vem pela frente". A declaração foi feita em entrevista à Globo News, em que ele tentou não criar divergências com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ainda assim, afirmou que não sabe o que vai acontecer.

"A gente navega hoje em uma situação de absoluta incapacidade de enxergar o que vem pela frente. Ter uma gestão com instabilidade, ansiedade, medo e polarização é muito difícil. A gente realmente não sabe o que vai acontecer. Como a covid vai evoluir, quanto tempo vai durar? A gente realmente não sabe".

Neste domingo, o país registrou 363.211 casos oficiais e 22.666 óbitos em decorrência da doença.

Teich afirmou que existia uma posição diferente entre ele e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre o uso da cloroquina. O ex-ministro afirmou que mantinha conversas com o governo federal sobre o assunto e que o presidente foi eleito pela população, que o escolheu para o cargo. Então, a pessoa que deveria sair é ele, Teich.

"O presidente é a pessoa escolhida, votada, é o representante; ele me colocou lá. Se eu escolho o caminho diferente do dele, quem tem de sair sou eu. Mas o fato de ter uma diferença não quer dizer que tem um conflito. Foi uma saída confortável."

Em outro ponto da entrevista, o ex-ministro afirmou que caberá a população avaliar a performance do presidente. "O povo vai dizer o que acha dele. Mas eu não vou julgar o presidente agora, não vou fazer isso."

Sobre a acusação feita por seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, de que Bolsonaro tentou alterar a bula da cloroquina por decreto, negou que pedido do tipo tenha sido feito a ele:

"Não. Simplesmente não. A resposta é não. Eu conversava com o presidente, por mais que tivesse problema com ele. Não tinha como ele me pressionar. Jamais seria eu pressionado, porque eu não ia aceitar. Ali era uma conversa, quem decidia era eu."

Teich esteve a frente do MInistério da Saúde menos de um mês. Quase no fim da conversa, que durou quase duas horas, foi questionado se havia algum arrependimento por ter aceitado o cargo.

"Nunca. De jeito nenhum, jamais. Jamais, jamais. Nunca."

Teich acredita que protocolo da cloroquina será revisto

O ex-ministro da Saúde afirmou que o debate a respeito do uso da cloroquina teve influência na decisão de deixar o cargo. Ele defendeu que deve existir uma regra sobre a aplicação do medicamento e que a decisão não pode ficar a cargo do médico que trata o paciente na ponta.

É óbvio que a opção por antecipar o uso teve peso, porque é uma escolha. O presidente achava melhor antecipar, e eu achava que não. Houve uma divergência. Como a gente não tem um dado efetivo... Se o Conselho autoriza, por que eu não posso autorizar? Por que você não pode autorizar, entendeu? As instituições têm de se posicionar forte. Não dá para delegar isso para o médico, a situação é muito intensa e complexa.

Na avaliação de Teich, o protocolo atual da cloroquina deve ser revisto. Ele inclusive acredita que isto deve acontecer e um futuro próximo, tão logo os estudos mais conclusivos sejam finalizados. "Esse estudo de sexta-feira muda um pouco, torna um pouco mais claro. Tem de rever tudo."

Se eu começo a aceitar que você possa prescrever remédio para doenças só porque tem um teste in vitro que sugere um benefício, isso começa a virar uma prática incontrolável. Se tem coisas que eu não sei se funcionam, eu não posso gastar dinheiro nisso. Porque eu tenho muito pouco dinheiro. Tenho de gastar dinheiro no que eu sei que funciona. Para mim, eu tinha de esperar para tomar alguma decisão. Essa decisão do papel da cloroquina vai sair com os estudos randomizados. Eu não me senti pressionado, não tinha pressão alguma.

O oncologista voltou a reforçar que queria "despolarizar" a cloroquina e reforçou sua postura de tratar as coisas que não conhece "com pesquisa" até como forma de justificar os investimentos de recursos.

Eu acredito que [o protocolo da cloroquina] vai ser revisto. A minha opção era por ensaio clínico, coletar informação. Imagina hoje, com todas as pessoas que usaram o remédio, se a gente tivesse os dados deles? Quando você não colhe o dado, fica mais difícil.

Teich diz que aprovou entrada de Pazuello

A entrada do Eduardo Pazuello, que tem carreira militar, como assessor de Teich levantou a suspeita de que ele era um ministro fantoche e não comandava de fato o Ministério da Saúde. O ex-ministro refutou esta avaliação e disse que o histórico nas Olimpíadas, Venezuela e outras qualidades fizeram entender que Pazuello era uma boa indicação.

Eu achei que era uma pessoa que, neste momento, poderia ajudar muito. Eu achava que ele tinha experiência em conduzir situações difíceis. Se eu não tivesse concordado com ele, se eu não tivesse visto nele uma pessoa certa para aquela posição, um dos dois não ficaria. Ou eu, ou ele. Se ele ficou, foi porque eu concordei.

Teich ainda acrescentou que ouviu de Pazuello que a intenção dele é permanecer a frente do Ministério da Saúde de forma temporária. Tanto dele, como de outros militares que estão na pasta.

Ele é o ministro interino, não sei exatamente como ele vai conversar. O próprio Eduardo tem a proposta... Depois dessa pandemia, eles voltariam e seriam substituídos pouco a pouco. Ele [presidente] trazer o time dele para um momento de crise desse é a coisa mais natural que possa existir.

O ex-ministro elogiou a atuação do atual interino quando trabalharam juntos. "Eu achava que ele tinha experiência em conduzir situações difíceis. Se eu não tivesse concordado com ele, se eu não tivesse visto nele uma pessoa certa para aquela posição, um dos dois não ficaria. Ou eu, ou ele. Se ele ficou, foi porque eu concordei."

Ex-ministro nega interferência de Bolsonaro

Várias vezes durante a entrevista à Globo News, o ex-ministro ressaltou que não desejava politizar a situação de sua saída. Houve um momento em que ele falou não ter intenção de criar uma disputa com o presidente. "Esquece o presidente, eu vim discutir a saúde e a estratégia", disse.

"Não vou entrar em discussão contra o presidente, não vai ser uma disputa Teich x Bolsonaro. Vou te dizer o que eu fiz, e que nunca teve interferência do presidente."

Em relação ao distanciamento, existe sempre o discurso do presidente em relação a ter uma expectativa de retomada da economia, mas ele está preocupado com as pessoas. É que a forma de comunicar é ruim, entendeu? Mas quando se fala em economia, você está falando em gente também, não em dinheiro.

Mesmo com esta postura, Teich declarou que o isolamento social é necessário no enfrentamento à covid-19. Em relação ao isolamento vertical, ele entende que a decisão cabe aos prefeitos.

A decisão do que fazer cabe às cidades, existe hoje essa definição. O que eu considero, o que eu faria até nesse programa da matriz de risco, é que a gente caminhasse para um isolamento seletivo, nem horizontal, nem vertical. Que você mapeasse as pessoas, isolar essas pessoas e os contatos. Se você retomar numa fábrica, todo mundo que chegar na fábrica pode ter a temperatura checada. Você monitora essa pessoa todo dia.

Ele afirmou que o caminho não é nem isolamento vertical, nem horizontal. Na avaliação de Teich, o melhor meio para enfrentar a pandemia é testar as pessoas. "Os testes fariam diferença. Hoje, a maior parte dos municípios já tem casos da covid. Não adianta só ver a percentual de municípios, tem de ver percentual da população. Você pode ter 60% dos municípios e 90% da população".

O plano não saiu não por ser ruim, foi avaliado inclusive pelo Conass e Conasems. O que foi discutido é que talvez não fosse a hora de apresentar o programa, mas ele nunca foi criticado por ser ruim. Eu particularmente discuti isso com o secretário no dia, mas houve uma colocação dele que ele achava que aquele não era o momento. Eu discordo disso, mas, naquele momento, eu tinha de tomar uma decisão. Como isso tem de ser trabalhado em consenso, e houve uma posição do Conass de questionar aquilo. O plano nunca foi colocado como ruim, o argumento foi de que não era a hora certa. Que eu, particularmente, discordo.

Teich aprova novo protocolo usado no Rio

O governo do Rio de Janeiro passou a adotar um novo protocolo no tratamento da covid-19 que antecipa as medidas de combate a doença. Ao invés de mandar pessoas com sintomas leves para casa, ela receberá atendimento de forma precoce.

A iniciativa foi aprovada pelo ex-ministro da Saúde que considera que o novo protocolo pode fazer que menos leitos de UTI sejam necessários. A falta de vagas de terapia intensiva é o principal gargalo do sistema de saúde no tratamento da covid-19.

"Se a gente conseguir trazer essa curva para doenças menos graves, primeiro eu preciso de menos UTI. O profissional não precisa ser tão especializado quanto o de UTI. A gente teria, talvez, uma chance de fazer isso".

Leia outros destaques da entrevista:

Atitudes de Bolsonaro

O presidente faz as escolhas dele, eu não vou julgar o presidente. Vou deixar isso bem claro, senão vou estar polarizando e fazendo tudo o que falei para não fazer. O presidente tem as escolhas dele, o comportamento dele, e isso de alguma forma vai ser, lá na frente, não sei se a próxima eleição... O povo vai dizer o que acha dele. Mas eu não vou julgar o presidente agora, não vou fazer isso.

O que eu achei que foi um erro foi se tratar economia como se fosse dinheiro, e não como vida. Entendeu? Quando você diz que há economia e há saúde, parece que está tratando dinheiro versus vida. Não existe isso. Quando eu digo que estou alinhado, é porque trato economia como gente também, não trato economia como dinheiro. Não é o bem contra o mal.

Quem vai julgar o presidente é o futuro, não sou eu. O meu papel era traçar um caminho. Eu dirigi aquilo e cheguei à conclusão de que tínhamos posições diferentes, mas eu não vou julgar ninguém aqui.

Medidas de restrição nos estados

Se o estado de São Paulo, na situação atual, tiver dentro daquilo que a gente colocaria como situação mais crítica, as medidas de distanciamento estão corretas. Eu não defendo ninguém a não ser a sociedade. Tem de deixar isso muito claro. Eu defendo os pacientes, as pessoas e a sociedade. Eu não tenho lado, não tenho polarização. Tudo que eu falo é por elas. Eu não tenho lado. Qualquer coisa que eu te disser aqui é porque estou preocupado com a sociedade, eu não defendo pessoas isoladas.

Decretos de prefeitos e governadores

Eu não sabia mesmo. Mas no dia seguinte, quando fui conversar com as pessoas, a pessoa que tinha liberado o documento me pediu desculpa. Disse que estava uma correria, não lembrou que eu estava na coletiva e podia ter me ligado.

Aquilo aconteceria com recomendações do Ministério da Saúde, então, de qualquer forma, passaria pela Saúde. Tem algumas definições que têm de ser muito claras: serviços essenciais. Não dá para perguntar para cada um o que é serviço essencial, tem de ter uma regra. O que caracteriza serviço essencial? Se você não fizer isso, começa a ser uma discussão de opiniões pessoais. E não pode, tem de ter critério.

É essencial para a pessoa que trabalha e não está conseguindo ganhar o dinheiro dela para sobreviver? É essencial para quem? Saúde é absolutamente essencial, mais ou menos; estética é essencial? Não sei

Essa evolução da doença independe do que você falou sobre o governo federal. As decisões feitas pelos prefeitos vão ser as mais importantes realmente para definir como isso vai evoluir. Honestamente, eu não acredito que uma fala seja mais importante do que uma fala local. O prefeito pode também divulgar. Uma fala do ministério ou do governo federal não vão mudar a história.

Informações sobre a covid-19 no país

Uma das grande dificuldades que se tem hoje para navegar neste mundo é a falta de informação de qualidade. Quanto menos informação, mais difícil é para entender uma situação e caminhar nela. Hoje, a gente não entende bem da doença. A informação que vem da estrutura de atendimento não é ideal.

Quando você joga para a ponta e diversifica, sem uma coordenação maior, isso fica menos eficiente. Quando você tem uma sobrecarga como a covid, isso vira um caos. Um projeto fundamental de longo prazo do governo é informação. A coisa mais importante que o governo tem de fazer hoje é trabalhar um programa de informação forte para o longo prazo. Para o curto prazo, é tratar do sistema. Da covid, principalmente.

Combate ao novo coronavírus

A nossa visita a Manaus foi muito importante. Lá, a gente percebeu que a doença começou pelas classes mais simples, não pelas classes maiores. Uma das discussões que a gente tinha é que não dá para tratar o Brasil como uma coisa só. O número de mortes, de casos, é um número médio, mas não pode ser solução para o Brasil. Tem de trabalhar cidade a cidade, região a região. Não tem como ser diferente disso.

Qual era a sugestão nossa? Você começar a tratar mais cedo. Nessas pessoas com essa dificuldade, se eu não tenho como isolá-las, o que tenho de fazer é cuidar melhor delas.

Um dos problemas que a gente tem hoje é recursos humanos. Quando a gente começou, a gente só focava em UTI, em respirador. Agora, o que você tem de fazer é tratar essa doença como uma linha de cuidado desde o começo dela até a UTI. A pessoa tem qualquer sinal? Faz oxímetro, faz a tomografia. Tudo isso foi desenhado. Essa pessoa tem critérios? Trata dela cedo, faz oxigênio em amplo fluxo e tenta evitar que essa pessoa vá ao respirador.

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