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'Poderíamos ter tido um terço das mortes', diz professor da USP sobre covid

28.mai.2020 - Enterro de vítimas de coronavírus no Cemitério do Cajú (São Francisco Xavier) no Rio de Janeiro - SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
28.mai.2020 - Enterro de vítimas de coronavírus no Cemitério do Cajú (São Francisco Xavier) no Rio de Janeiro Imagem: SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Do UOL, em São Paulo

29/05/2020 07h39

O professor de epidemiologia da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Lotufo avalia que o Brasil poderia ter tido um terço das mortes e metade dos casos do novo coronavírus caso o distanciamento social tivesse sido adotado de maneira mais efetiva desde o início.

Dados divulgados ontem pelo ministério da Saúde mostram que o país registra 26.754 óbitos pela covid-19 e 438.238 diagnósticos da doença.

Em entrevista ao jornal O Globo, publicada hoje, Lotufo considerou que é cedo relaxar as medidas de distanciamento e disse que "estamos numa fase de total desconfiança". Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich deixaram o ministério da Saúde após discordâncias com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e a pasta é comandada interinamente por Eduardo Pazuello.

"Olha, nós estamos no pior dos momentos. No início da epidemia, quando estava a equipe do Mandetta, com o Wanderson (de Oliveira, secretário nacional de Vigilância do Ministério da Saúde), ou no período do Teich, era possível ter discordância da abordagem deles. Mas discordância é uma coisa diferente da desconfiança, que temos agora. Antes dava para ter confiança total no que estava saindo de informação. Agora, há uma semana, o Ministério da Saúde está sendo dirigido na prática pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação). Eles não destacam mais números de morte, mostram só os recuperados. Estamos numa fase de total desconfiança."

Mesmo assim, ele diz que é possível ter uma ideia do impacto da covid-19 na mortalidade, que ele classifica como "catastrófico". Ele comparou a situação com a da Argentina, onde o número de óbitos e casos é bem menor, e afirmou ser "chocante" que ninguém falou sobre a pandemia na reunião ministerial de 22 de abril.

"Se tivéssemos feito um controle adequado, como a Argentina fez, poderíamos ter tido um terço das mortes, metade dos casos. Com toda a propaganda contra (o isolamento social) e a atuação do Bolsonaro, a quantidade de mortos por causa disso foi imensa. Não foi só a propaganda, mas a demora no pagamento do auxílio emergencial, um atraso premeditado. A ação do governo federal, se qualificarmos em termos de mortes, foi muito grande. É chocante ver que na reunião ministerial de 22 de abril, quando tinha 3 mil mortos no Brasil, ninguém falou disso".

Na avaliação de Lotufo, ainda é muito cedo para se falar em reabertura. Na quarta-feira, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), divulgou um plano de reabertura das atividades no estado.

"Tudo virou eleitoral. O governador vai vendo onde estão os votos, os grupos de apoio e as pressões, para tomar suas decisões. É isso o que vem acontecendo em todos os lugares", afirmou.

"O Brasil teve a maior taxa até agora de mortes de enfermeiros e médicos do mundo. O que já morreu de motoristas de ônibus também é um absurdo. Mas a pressão de alguns setores da economia é tão grande, que o interesse, no fim, é romper mesmo com tudo e fingir que não existe covid-19", acrescentou.

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