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Mortes por síndrome respiratória no Brasil aumentam 20 vezes na pandemia

Área destinada a sepultamentos de vítimas da covid-19 no cemitério São Francisco Xavier, na zona norte do Rio - Ellan Lustosa - 1º.jun.2020 /Código19/Estadão Conteúdo
Área destinada a sepultamentos de vítimas da covid-19 no cemitério São Francisco Xavier, na zona norte do Rio Imagem: Ellan Lustosa - 1º.jun.2020 /Código19/Estadão Conteúdo

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

04/06/2020 04h00

Em meio à pandemia do novo coronavírus, a quantidade de mortes por doenças respiratórias explodiu no Brasil. O número de óbitos em decorrência de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) no Brasil cresceu 20 vezes em relação ao ano passado, de acordo com as declarações de óbito registradas nos cartórios do país.

A comparação foi realizada no período de 16 de março —quando houve a primeira morte por covid-19 no Brasil— e 3 de junho. Em 2019, foram 349 óbitos que tiveram SRAG como causa registrada. Neste ano, já são mais de 20 vezes essa quantidade: 6.994 mortes.

Para especialistas consultados pelo UOL, este crescimento mostra que há um problema na classificação correta das mortes de causa respiratória durante a pandemia — algumas dessas mortes podem ter acontecido em razão do novo coronavírus, mas teriam sido registradas como SRAG. Com base nesses dados, eles avaliam que esse aumento de 1.904% tem relação direta com a covid-19.

Os números constam no Portal da Transparência da Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais). É preciso considerar, porém, que os cartórios têm até 13 dias para atualizar os dados. Dessa forma, os números ainda podem ser revistos.

Ontem, o Ministério da Saúde anunciou que o Brasil ultrapassou a marca de 31 mil mortes por covid-19. Os óbitos por SRAG não estão incluídos nesse balanço.

Altas nos estados

Entre as 27 unidades da federação, 26 registraram alta nessa comparação com 2019 — a exceção foi Mato Grosso, onde ocorreram quatro óbitos nos dois períodos analisados.

No Maranhão, não houve óbitos por SRAG no ano passado. Porém, o estado nordestino já registrou 460 em 2020.

O maior crescimento entre os estados ocorreu em Pernambuco: saltou de 14 óbitos para 2.274. Em São Paulo, estado com mais casos e mortes por covid-19 no país, os óbitos registrados com SRAG como causa aumentaram mais de 11 vezes (de 86 para 1.017).

As mortes por SRAG também tiveram alta na faixa etária de risco para o coronavírus e em grupos mais jovens, tanto do sexo masculino quanto do feminino, segundo o portal da Arpen.

Nos dois casos, as menores altas no número de óbitos ocorreram em pessoas com até nove anos de idade. Ainda assim, a menor delas foi de 29%, entre meninos.

SRAG é uma "forma grave ou mais severa que algumas doenças respiratórias podem assumir", explica o epidemiologista Fabrício Augusto Menegon, professor do Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Segundo os dados do portal da Arpen, além das mortes por SRAG, também aumentaram, no mesmo período, os óbitos por causa indefinida, um crescimento de 40%. Porém, outras causas de óbito por doença respiratória registraram queda, como pneumonia (baixa de 25,6%) e insuficiência respiratória (baixa de 5,89%).

Presença da covid-19

Para o epidemiologista Menegon, a alta nas mortes por SRAG mostra o peso que a covid-19 teve. "Sabemos que as mortes por SRAG podem ter como causa diferentes vírus respiratórios. O [coronavírus] SARS-CoV-2 é mais um dessa lista. Entretanto, olhando os números e as características entre um ano e outro, a única diferença plausível é a presença do novo coronavírus."

Mais uma razão para ligar a alta de mortes por SRAG à pandemia da covid-19 é que o aumento foi verificado antes do início do inverno. "Portanto, a única explicação que me convence é a relação entre o aumento da mortalidade por SRAG e a presença do SARS-CoV-2 entre nós", diz o professor da UFSC.

Dario Frederico Pasche, doutor em Saúde Coletiva e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), pondera que "em todo o mundo está se verificando excesso de mortes" durante a pandemia da covid-19.

"O que isso indica? Comparando dados em uma mesma série histórica, verifica-se um novo padrão de mortes, que só pode ser alterado com profundas mudanças no padrão de adoecimento, como guerras, epidemias, fome e desastres ambientais."

Na avaliação de Pasche, algumas mortes não foram atestadas como sendo por covid-19 em razão:

  • de falta ou demora dos testes;
  • da SRAG não ter sido associada à covid-19 no início da pandemia.

O professor da UFRGS observa que "os sistemas de vigilância epidemiológica vão, aos poucos, investigando mortes e corrigindo a base de dados. E parte das mortes pode, assim, ser corretamente atribuída à covid-19".

Assim, só teremos uma melhor noção do que está ocorrendo com o passar dos anos. E pode levar um bom tempo.
Dario Frederico Pasche, doutor em Saúde Coletiva e professor da UFRGS

Diretor da Sociedade Paulista de Infectologia, o infectologista Evaldo Stanislau diz que o "crescimento da SRAG é um marcador indireto e claro do impacto da covid-19", posição compartilhada pelo Ministério da Saúde, segundo a assessoria de imprensa da pasta.

A despeito disso, eu não tenho dúvidas que o aumento das SRAGs é por conta da covid-19. Afinal, é uma pandemia.
Evaldo Stanislau, infectologista e diretor da Sociedade Paulista de Infectologia

A assessoria do Ministério da Saúde diz que as informações sobre as mortes são encaminhadas pelas secretarias estaduais e municipais e aponta que não haveria subnotificação de óbitos, já que todo óbito deve ser declarado.

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