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Mandetta: paga-se um preço por trocas na Saúde durante pandemia da covid-19

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta - Foto: Adriano Machado/Reuters
O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta Imagem: Foto: Adriano Machado/Reuters

Colaboração para o UOL

05/06/2020 15h24

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participou hoje do Programa Pânico, da Rádio Jovem Pan, e avaliou a situação da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Segundo ele, as trocas no comando do ministério têm influência no aumento de casos da Covid-19 e de mortes atribuídas à doença.

O país conta, no momento, com o seu terceiro Ministro da Saúde durante a pandemia. Mandetta, que iniciou o combate ao vírus, foi demitido em abril. Para o seu lugar, entrou Nelson Teich, que pediu demissão menos de um mês após assumir o cargo.

Atualmente, Eduardo Pazuello comanda a pasta interinamente: "A maneira como esse vírus foi apresentado para o mundo e como ele se comportou nas sociedades ocidentais vai ser motivo para muita discussão científica durante muitos anos. E o Brasil vai ser muito questionado sobre isso, por trocar ministros, trocar equipe toda. Lógico que, quando você tem uma interrupção, você paga um preço", disse Mandetta.

O ex-ministro usou novamente o termo "descompasso" para resumir as discordâncias entre ele e Teich com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto a medidas de combate ao coronavírus, como as ações de isolamento social e o uso da cloroquina para o tratamento e a prevenção.

De acordo com ele, o chefe do executivo sente-se melhor atualmente com Pazuello, general da ativa à frente da Saúde.

"Agora, acho que ele [Bolsonaro] está mais confortável com uma equipe de militares que não são médicos. Eles ficam mais confortáveis em dar essa linha de tocar a economia, parar com o foco da saúde, parar de falar de doença, parar de falar de óbito e tocar outra agenda. Talvez, para ele, seja mais apropriado", opinou.

Isolamento e retomada da economia

Durante a conversa, Mandetta avaliou como corretas as medidas de isolamento social sugeridas por sua equipe no início do combate ao coronavírus no Brasil. Para ele, a colaboração da população foi essencial naquele momento para que o sistema de saúde aumentasse sua capacidade de atendimento e evitasse números maiores de contágio e óbitos.

"Os governantes que viram o estrago que o vírus fez em sistemas de saúde do primeiro mundo tomaram cautelas e pediram isolamento corretamente. Tenho convicção de que, se não tivéssemos feito isso, teríamos assistido a uma tragédia de proporções inimagináveis".

"Sabendo de tudo que estava acontecendo no mundo, como eu ia não tentar ampliar o sistema de saúde, não tentar construir uma estratégia para ter uma coisa básica, que é cidadania. Nós íamos só assistir? Iríamos tocar as vidas, abrir as empresas, tocar os campeonatos, todo mundo trabalhar e se morrer é um detalhe? Para mim, isso não serve", disparou, ao rebater as críticas sobre o isolamento.

Ele acredita que a retomada dos setores da economia deve acontecer de forma regionalizada, ou seja, que cada cidade deve estudar a melhor forma do retorno às atividades, levando-se em consideração a curva de contágio, a capacidade de atendimento dos hospitais e as demandas dos diversos setores sociais.

"Deve haver um conselho com todos os setores. Tem que estar o empresário, a imprensa, os representantes das igrejas, o Ministério Público. Porque tem que ser uma tomada de decisão em conjunto para ser referendada por todos. Não pode ter ninguém de fora, que seja apenas objeto dessa ação. Para que todo mundo seja representado", afirmou.

Pós-pandemia

O ex-ministro disse que, por impedimento do Conselho de Ética da Presidência da República, não pode dar novas opiniões sobre a pandemia até outubro, pois correria o risco de divergir de dados oficiais do governo federal. Mas ele aposta que o país vive atualmente o platô, isto é, fase em que os casos atingiram um número máximo que se manterá estável por algum tempo. E que esse índice deve começar a cair em agosto.

Mas, independentemente de números, Mandetta espera que, quando a situação se normalizar, a sociedade tire lições do que aconteceu, especialmente no Brasil.

"A gente vai ter que se olhar e se perguntar por que isso aconteceu. São anos e anos que estamos negligenciando a educação. Negligenciando moradia, muita gente mora em favela e acham isso normal, gente falando que o morro é algo cultural e não é. A gente tem que enfrentar aquilo. A gente tem que melhorar saneamento, organizar o sistema de saúde, amparar mais a ciência brasileira para a gente analisar nossos erros e nossos acertos", concluiu.

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