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Reabertura trará "efeito bumerangue" de covid em capitais do NE, diz comitê

8.jun.2020 - Movimento em um shopping no bairro de São Gerardo, em Fortaleza, no primeiro dia de reabertura do comércio na cidade - DANIEL GALBER/UAI FOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
8.jun.2020 - Movimento em um shopping no bairro de São Gerardo, em Fortaleza, no primeiro dia de reabertura do comércio na cidade Imagem: DANIEL GALBER/UAI FOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

02/07/2020 20h28

O novo boletim divulgado hoje pelo comitê científico do Consórcio Nordeste, liderado pelos pesquisadores Miguel Nicolelis e Sergio Rezende, critica a reabertura econômica nos estados e alerta para a probabilidade disso causar um "efeito bumerangue" de casos de covid-19 nas capitais da região.

Ontem, o UOL mostrou que muitas cidades e até estados inteiros da região estavam iniciando planos de retomada longe ainda de critérios científicos.

"Este Comitê continua vendo com extrema preocupação qualquer iniciativa de relaxamento social, tanto no Nordeste como no Brasil, que não se baseie nos critérios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS)", diz o texto, citando apenas Fortaleza como "possível exceção" nesse contexto.

Para os cientistas, seria necessário um "inequívoco controle efetivo da propagação do coronavírus por um período de pelo menos de duas a três semanas)", somado a taxas controladas de ocupação de leitos de terapia intensiva para se pensar em reaberturas.

O relatório alerta ainda que há uma grande parcela da população suscetível ao vírus. "Uma análise preliminar dos resultados obtidos através de um inquérito de soroprevalência para o coronavírus em Fortaleza mostrou que a subnotificação de casos ainda pode ser extremamente alta (entre 4 e 19 vezes) no Nordeste. O mesmo estudo revelou que a fração média da população que desenvolveu anticorpos para o coronavírus ficou em apenas 14.2%. Resultados semelhantes em outros estados brasileiros, como São Paulo e Espírito Santo, confirmam que uma enorme fração da população nordestina e brasileira continua extremamente suscetível ao coronavírus."

Interiorização

No estágio atual da epidemia, o comitê destaca que o novo coronavírus está avançando para o interior da região. Diante disso, o comitê indica que "tanto a região Nordeste, bem como todo o Brasil, podem estar à beira de experimentar o que foi designado como 'efeito bumerangue'."

"Nesta condição, o aumento de casos no interior dos estados resulta num fluxo de pacientes em estado grave para as capitais dos estados, uma vez que estas são as únicas que dispõem da infraestrutura hospitalar adequada (como leitos de UTI) para tratar desses casos", diz o boletim.

Para reverter a possibilidade, os cientistas voltaram a defender medidas de isolamento mais rígida na região com a instituição "imediata de lockdown e/ou reversão de planos de afrouxamento do isolamento social de qualquer sorte, em capitais e municípios interioranos que estejam apresentando curvas crescentes ou em platô em altos patamares de casos e óbitos, com fator de reprodução acima de 1, e que tenham excedido a taxa de ocupação de 80% de leitos (enfermaria e/ou UTI), considerada como limite máximo de segurança por este comitê", diz.

Segundo levantamento do projeto Covid Analytics, apenas Maranhão e Ceará têm essa taxa de retransmissão (o chamado Rt) abaixo de um na região.

Outra medida importante para frear o vírus é a instituição de barreiras sanitárias ou, "se necessário, dado o grau de gravidade do processo de interiorização, bloqueios temporários de todo tráfego não essencial, de carros particulares e ônibus, pelos maiores entroncamentos rodoviários do Nordeste."

Além disso, é sugerido a criação de brigadas de saúde para monitorar os casos, com uso do aplicativo do comitê chamado "Monitora Covid" para informações e atendimentos em tempo real de pacientes com suspeita da doença.

Reabertura planejada

Para início da reabertura com segurança, o comitê avalia que é necessária a combinação de pelo menos três fatores:

  • Rt sensivelmente abaixo de 1
  • Curvas de casos e óbitos com quedas consistentes e de grande monta por mais de 14 dias
  • Taxa de ocupação de leitos (enfermaria e/ou UTI) até 70

Já a abertura, segundo o comitê, deve seguir uma ordem de setores —todos com limitações e uso de máscara. A lista sugerida é:

  1. Parques, pistas e calçadões em praias.
  2. Construção civil com redução de funcionários.
  3. Comércio em feiras ao ar livre e lojas de ruas.
  4. Treinamento de atletas profissionais.
  5. Concessionárias e locadoras de veículos.
  6. Serviços médicos, odontológicos e veterinários com agendamento.
  7. Escritórios de advocacia, contabilidade e outros.
  8. Shopping centers.
  9. Eventos esportivos em estádios abertos (com distância mínima de 2m entre torcedores).
  10. Academias.
  11. Museus, cinemas e teatros com assistência reduzida.
  12. Cultos etc. em templos religiosos.

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