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Coronavírus

Doria diz que Pazuello sofreu 'humilhação' e que Bolsonaro discrimina China

Allan Brito, Felipe Pereira e Rafael Bragança

Do UOL, em São Paulo, e Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/10/2020 13h48Atualizada em 23/10/2020 19h00

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, foi humilhado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao desautorizado um dia após anunciar a intenção de compra das primeiras 46 milhões de doses da CoronaVac, vacina contra a covid-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

"Em relação ao governo federal, sempre mantivemos diálogo com o ministro [Pazuello], mas ficamos surpresos, frustrados e entristecidos. Não só São Paulo, tinha 24 governadores na reunião de terça em Brasília, promovida pelo ministro, com base no diálogo. Infelizmente em menos de 12 horas o presidente desautorizou. Submeteu o ministro a uma humilhação", comentou Doria durante entrevista coletiva na tarde de hoje no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

Na terça-feira, Pazuello anunciou um protocolo de intenções para comprar 46 milhões de dose da CoronaVac. No dia seguinte, Bolsonaro desautorizou a compra e afirmou que não seria distribuído o imunizante aos brasileiros. Na quinta-feira, Pazuello participou de um vídeo ao lado do presidente e indicou que seguirá a decisão de Bolsonaro, afirmando que "um manda e o outro obedece".

Doria afirmou que prefere guardar a imagem de Pazuello na terça-feira do que a exibida no vídeo ao lado do presidente. "Pela defesa da vacina e do Butantan, prefiro guardar a lembrança do Pazuello perante 24 líderes de Estados e de três líderes do Congresso Nacional, como ministro da saúde, do que a cena que assisti ontem ao lado do presidente Bolsonaro", avaliou.

Bolsonaro e a "vacina chinesa"

O governador paulista também classificou como "discriminação" a atitude de Bolsonaro de chamar a CoronaVac de "vacina chinesa" e usar isso como argumento para cancelar a possível distribuição do imunizante pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

"Talvez Bolsonaro não saiba. Mas se ele se informar, saberá. Deve saber ou poderá ser informado que a maior parte dos insumos da vacina inglesa é chinesa. Portanto a discriminação em relação aos produtos chineses, aos chineses em geral, que o Bolsonaro insiste em pontuar, não é a posição do estado de São Paulo", comentou Doria.

O governador lembrou outra vacina candidata a ser uma das primeiras a serem aprovadas contra a covid-19. A vacina de Oxford é desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório Astrazeneca, e deve receber um investimento de quase R$ 2 bilhões por parte do governo federal, mas também não tem comprovação de sua eficácia, assim como a CoronaVac.

Participante da entrevista, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ressaltou a importância da parceria com a China. "É parceira fundamental do nosso país. Eu entendo que nessa questão das relações internacionais, o importante é que a gente aproveite nas relações com os outros países aquilo que melhor interessa ao nosso país", acrescentou.

"Sem dúvida nenhuma, a China, como os Estados Unidos, são parceiros estratégicos. Respeitando a posição de cada um, eu entendo que a relação e a parceria com a China é muito importante para o Brasil em várias áreas, começando pelo agronegócio, que tem uma bancada enorme no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados principalmente, e que certamente tem uma ótima relação com a China", afirmou.

Sem citar o nome da empresa, Maia relembrou o caso da Huawei, empresa chinesa que está desenvolvendo a tecnologia 5G, mas enfrenta proibições dos EUA e críticas do governo Bolsonaro. "(A China está) caminhando com tecnologia 5G, que Brasil deve abrir com melhor preço para todos. Não vejo problema com a China, respeitando a posição do presidente. O Brasil tem boa parceria e importante no setor de negócios", disse.

De acordo com dados do Ministério da Economia, de janeiro a setembro deste ano, o Brasil exportou mais de US$ 53 bilhões à China, aumento de 14% na comparação com o mesmo período de 2019. O saldo comercial do país com os chineses foi superavitário em US$ 28,8 bilhões.

Em comparação, os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial do Brasil, receberam US$ 15 bilhões de exportações brasileiras nos primeiros nove meses do ano e, no mesmo período, o Brasil registrou déficit comercial com os norte-americanos de US$ 3,1 bilhões.

* Com informações da Reuters

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