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Análise: Sem lockdown e em colapso, Brasil ainda sobe a ladeira das mortes

Caixões com corpos de vítimas da covid-19 chegam ao cemitério da Vila Formosa, em São Paulo - Jose Antonio de Moraes/Anadolu Agency via Getty Images
Caixões com corpos de vítimas da covid-19 chegam ao cemitério da Vila Formosa, em São Paulo Imagem: Jose Antonio de Moraes/Anadolu Agency via Getty Images

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

16/03/2021 22h35

O Brasil bateu hoje —novamente— o recorde de mortes em 24 horas pela covid-19. Ao alcançar a impressionante marca de uma morte quase a cada 30 segundos, especialistas ouvidos pelo UOL são unânimes em apontar um cenário pessimista para o país, ao menos a curto prazo.

Todos defendem medidas urgentes de isolamento social para ajudar o país a enfrentar o colapso na rede hospitalar visto em quase todos os estados.

"Sem medidas restritivas significativas, que sejam de fato seguidas, não consigo prever qual é o 'teto' de mortes e qual será a duração", afirma o pesquisador e doutorando da Universidade de Oxford (Reino Unido) Ricardo Parolin.

Depois de prever, no mês passado, que Brasil alcançaria o patamar 3.000 mortes ao dia, o neurocientista Miguel Nicolelis diz agora que a tendência é de uma alta ainda maior.

A tendência é de alta explosiva neste momento com colapso de Rio Grande do Sul, Minas e São Paulo. São Paulo, por exemplo, deve chegar perto de mil mortes por dia, e Minas deve ter cruzado 300 óbitos --apesar de hoje ter reportado 28. O Brasil já colapsou.
Miguel Nicolelis, neurocientista

Ele afirma que não há outra solução que não a adoção geral de medidas de isolamento social. "Tem de ser um lockdown nacional urgente e feito corretamente", pontua, apostando que a medida —já descartada pelo novo ministro da Saúde— não será adotada. "O problema é a inércia dos governantes. Quando a política tenta bater de frente com a biologia, ela sempre perde de goleada", diz.

Para a infectologista, professora e pesquisadora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Vera Magalhães, a curva não só é ascendente, como ainda tem dados imprecisos. "Esse número de mortes é subestimado. Há um atraso na liberação dos resultados de exames e muitos casos não são diagnosticados", explica.

Epidemiologista com pós-doutorado na Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard (EUA), o cearense Antônio Lima Neto afirma que a tendência é que o Brasil atinja um patamar entre 3.000 e 4.000 mortes por dia nas próximas semanas, visto o colapso na saúde.

"Isso ocorrerá, muito provavelmente, pelo grande número de pessoas que já estão internadas", afirma, citando que a falta de leitos para paciente ajuda a ampliar a mortalidade da covid-19.

"Essa pressão assistencial imensa ocorre em todo o país. Eu não acredito que esse número caia rapidamente porque há uma transmissão comunitária elevada em praticamente todo o Brasil, e nós não temos uma coordenação nacional que possa construir critérios para medidas de isolamento tão necessárias neste momento. Quando começar a queda, será lenta", diz.

Projeções pessimistas

O UOL também ouviu dois especialistas que fazem projeções da covid-19 no país. Ambos afirmam que a curva não deve parar de crescer rapidamente.

O alerta de aceleração pandêmica se mantém válido, infelizmente. Não temos evidências que apontem uma redução, nem da propagação, nem da mortalidade. Acredito que teremos uma estabilidade de alguns dias em um patamar mais alto.
André Maranhão, pesquisador do projeto Covid Analytics, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio

A alta já era esperada. "Emitimos o alerta, nada foi imprevisto."

A curva de mortes no país é tão alta que até projeções estão comprometidas.

"Nós temos uma subida nunca antes vista na série de óbitos do Brasil. Existe uma rapidez com que essa curva sobe; ela é tão íngreme que os modelos ficam um pouco perdidos para saber o que exatamente vai acontecer", diz o pesquisador José Dias Nascimento, do Departamento de Física da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

"Tem de haver uma ação imediata de enfrentamento, com tudo o que sabemos: distanciamento físico, restrição de mobilidade, restrição de contato pessoa a pessoa, medidas nos transportes públicos, testagem, vigilância epidemiológica, medidas de proteção individual e coletiva e vacina para todos", finaliza a sanitarista Bernadete Perez, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).

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