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Pesquisadores culpam Bolsonaro por crise na covid e dizem ser 'ignorados'

O presidente Jair Bolsonaro foi criticado por pesquisadores em artigo da Nature - Ueslei Marcelino/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro foi criticado por pesquisadores em artigo da Nature Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Colaboração para o UOL

27/04/2021 13h27

Pesquisadores brasileiros culparam o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pelo caos vivido pelo país em meio a um cenário de agravamento da pandemia do novo coronavírus.

À Nature, uma das revistas mais conceituadas do mundo na área científica, os estudiosos dizem que o fracasso do governo em seguir as orientações baseadas na ciência para responder à pandemia agravou ainda mais a crise, e relatam que a sensação é de "desamparo" e de estarem sendo "ignorados".

"Ser cientista no Brasil é muito triste e frustrante", contou à revista Jesem Orellana, epidemiologista do centro da Fundação Oswaldo Cruz em Manaus. "Infelizmente, no século XXI, estamos falhando em nível nacional para incorporar ferramentas antigas e eficazes que poderiam salvar dezenas de milhares de vidas", completou.

A revista destaca que os pesquisadores brasileiros já tinham conhecimento da "postura anticientífica" de Bolsonaro, e lembra que, em 2019, o governo cortou fundos para as universidades brasileiras e os ministérios da Ciência e da Educação.

À publicação, a microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência de São Paulo, Natalia Pasternak, disse acreditar "que nenhum de nós poderia prever (que o governo Bolsonaro) seria tão ruim".

Nature destaca falas polêmicas de Bolsonaro

No artigo divulgado hoje, a revista também pontuou algumas falas polêmicas do presidente desde que a pandemia chegou ao Brasil, em março do ano passado. Para a publicação, Bolsonaro é "uma figura polarizadora" que já foi comparado ao ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, e que "vem contradizendo a opinião científica desde o início da pandemia, quando chamou a covid-19 de 'gripezinha'".

Ainda, a Nature lembrou a ocasião em que o presidente deu a entender que as vacinas contra o coronavírus poderiam ser perigosas e "transformar em um jacaré" aqueles que recebessem o imunizante, e também a insistência de Jair Bolsonaro no uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19, como a cloroquina e a ivermectina, além do posicionamento dúbio do chefe do Executivo Federal em relação ao uso de máscaras.

"Apesar da pesquisa mostrar que as máscaras podem reduzir as chances de transmitir e pegar o SARS-CoV-2, Bolsonaro enfraqueceu um decreto federal que exigia o uso de máscaras em julho passado. Ele também se recusou a uma máscara facial, mesmo após o teste positivo para a covid-19, dizendo que são para 'maricas'", diz a publicação.

Gabriela Lota, que estuda administração pública e governo na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, contou à reportagem que "o governo tem negado a pandemia". "Nega que seja grava, nega que precise de intervenção e nega as medidas necessárias defendidas pela ciência para enfrentá-lo".

Virologista da faculdade de medicina da FAMERP em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Mauricio Nogueira atribuiu ao presidente a dificuldade para estudar as variantes do coronavírus no país por causa dos cortes de investimentos feitos pelo governo.

"Não temos recursos para fazer pesquisas básicas, como entender como as variantes são mais ou menos virulentas. Não temos equipamento de laboratório ou reagentes para isso", contou o pesquisador, ressaltando que a política brasileiro deixou os cientistas "desamparados".

"Temos as ferramentas ou pelo menos a capacidade de ajudar o país, mas estamos sendo ignorados e não apoiados pelos líderes do país", desabafou o virologista.

Atualmente, o Brasil contabiliza 392 mil mortos por causa do coronavírus, o que representa 13% da mortalidade mundial, embora o país tenha menos de 3% da população global.

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