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Coronavírus

Quem não usa máscara é assassino, diz professora que perdeu pais pela covid

Os sintomas da covid-19 ficaram mais fortes em Valmir no dia em que ele poderia ser vacinado contra a doença; sua esposa, Helena, contraiu o vírus depois - Arquivo Pessoal
Os sintomas da covid-19 ficaram mais fortes em Valmir no dia em que ele poderia ser vacinado contra a doença; sua esposa, Helena, contraiu o vírus depois Imagem: Arquivo Pessoal

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

14/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Helena e Valmir não resistiram às consequências da covid em abril
  • Mestre de obras apresentou sintomas no dia em que seria vacinado

A professora Danuzia dos Anjos Pereira, 31, perdeu os pais em decorrência da covid-19 em um intervalo de pouco menos de três semanas no mês passado.

O início da batalha contra o novo coronavírus começou em 15 de março, dia em que o mestre de obras Valmir Pereira da Silva, 76, poderia receber a primeira dose da vacina. Não deu tempo. Foi nessa data que os sintomas se apresentaram de maneira mais forte nele. Dias depois, a doença também se manifestou na diarista Helena Maria dos Anjos da Silva, 64.

Hoje, Danuzia ainda busca se recuperar de perdas que poderiam ter sido evitadas se o governo federal não tivesse rejeitado a compra de vacinas no ano passado. "Não era a hora deles." Leia o depoimento dela para o UOL:

"A vacina para o meu pai era para começar no dia 15 de março. E foi no dia 15 que ele caiu doente.

Na sexta [12 de março], começou a falar que estava 'meio que com uma energia baixa', falando que achava que 'ia gripar'. No sábado e no domingo, ele estava meio borocoxô. Ficou bastante deitado. E, na segunda-feira, ficou bem mau. Era o dia que o meu irmão [Eladio] iria levá-lo para a vacinação.

Mais cedo, meu pai levou minha mãe ao trabalho de carro. Voltou e deitou. Minha mãe estava preocupada e pediu para o meu marido, Andrey, que é médico, examinar. Quando chegou lá, ele falou que já estava ouvindo ar saindo sem controle, como se fosse asma. 'Só estou meio cansado, dormindo bastante', dizia meu pai. Com 76 anos, ele não conseguia identificar falta de ar.

O Andrey pediu um raio-x, que acusou o comprometimento do pulmão. Meu marido falou: 'Está muito rápido, muito esquisito'. 'Pode ser uma pneumonia, mas pode ser outra coisa. Pode ser covid.'

E a gente não estava querendo acreditar porque a gente se cuidou tanto. Foi máscara, álcool, evitar saída. A gente não viu parentes, amigos durante um ano.

A gente descobriu a covid na terça [16 de março]. O teste da minha mãe deu resultado negativo para covid. O do meu pai, positivo. Depois, acabei pegando do meu pai. A minha mãe também.

Quando foi chegando a quarta-feira, eu e minha mãe já estávamos sentindo sintoma. Mas, para o meu pai, a gente não falou nada. Porque ele iria se sentir culpado. Ele não queria nem que tocasse nele porque tinha medo de passar para a gente.

valmir e Helena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A professora Danuzia dos Anjos Pereira em foto com a mãe, Helena, o pai, Valmir, e o irmão, Eladio
Imagem: Arquivo pessoal

"Foi tão bruto"

Na sexta, ele acordou com confusão mental. A temperatura estava boa, mas a oxigenação havia caído muito rápido. Ele chegou a 80 de saturação, sendo que, para internar, é 92. Falei com meu marido, e ele disse: 'É hospital'.

O hospital estava completamente lotado. Gente desmaiando na porta, pedindo ar. Não tinha cilindro de oxigênio para colocar as pessoas.

Depois de exames, a médica viu a saturação do meu pai e perguntou: 'Quanto tempo de oxigênio ele fez?'. Falei: 'Não fez porque não tem cilindro para fazer'. 'Então ele vai ser internado agora.'

No domingo, avisaram que ele deu entrada na UTI [Unidade de Terapia Intensiva], já para ser intubado. Sempre falavam que era um caso grave.

Foi tão bruto, tão bruto, com meu pai de repente na UTI, que a minha mãe estava desesperada.

Depois que meu pai foi internado, a gente começou a sentir muito os sintomas. Eu estava um pouco melhor. A minha mãe não estava bem, mas ela conseguia levantar. Convenci ela a ficar deitada, descansando, em repouso absoluto. Mas a saturação dela foi caindo, caindo.

A gente internou a minha mãe no dia 24 de março. Na vez dela, o pronto-socorro já estava numa situação um pouco melhor. Mas, como com meu pai teve todo aquele problema, com a minha mãe, quando ela chegou a 92 [de saturação], eu falei para uma amiga médica: 'Estou com medo de levar a minha mãe para o hospital'. Ela falou: 'Leva porque você vê que a situação piora muito rápido'.

Ela sempre foi uma pessoa muito saudável. Não tinha nada: pressão alta, diabetes, nada. Não tomava remédio nenhum.

Na quarta 31 de março, fiquei sabendo que ela tinha ido para a UTI porque a saturação tinha caído muito rápido. Muito rápido mesmo. No último boletim, no sábado [3 de abril], a médica me disse de que ela precisava melhorar, que ela estava no pico da gravidade.

Aí, no domingo de Páscoa, de madrugada, eles pediram para eu ir lá com o documento da minha mãe. Meu marido só falou: 'Olha, boa coisa não é'. Mas a gente tem esperança, que [o chamado] seria para pedir permissão para algum procedimento. Cheguei e só me deram a notícia. Eles tentaram sustentá-la, mas ela não respondeu a nada. Só se foi.

A minha mãe foi embora primeiro. E você meio que se apega... Meu pai estava melhorando. Por sorte, a última coisa que minha mãe me ouviu falando, em conversa por telefone, foi que meu pai estava ficando melhor.

danuzia e pais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Danuzia deu a notícia da morte dos pais para o irmão: "Acaba com seu coração"
Imagem: Arquivo pessoal

"De novo, não"

Quando foi dia 12 de abril, me ligaram e pediram para eu ir lá dar um termo de compromisso para a traqueostomia dele. Eles iam fazer o procedimento na sexta-feira 16, mas o centro cirúrgico estava lotado. Aí iam fazer no dia 19. Também não conseguiram centro cirúrgico. Fizeram no dia 21, que foi o dia em que ele faleceu.

Ele saiu bem da cirurgia, de manhã. Aí, por volta do meio-dia, a pressão dele foi lá para baixo, coração parou. Tentaram ressuscitá-lo por muito tempo. Muito tempo. A doutora Lorena... ela me falou: desculpa, a gente ficou 20 minutos tentando trazer ele de volta. Depois tirei a dúvida com meu marido: '20 minutos é o quê?'. 'É quatro vezes mais do que o recomendado.'

No dia 12, da permissão da traqueostomia, eu fui para a sala em que recebi a notícia sobre a minha mãe. Só lembranças daquele dia horrível ao assinar a traqueostomia do meu pai. E, no dia 21, na mesma sala, eu recebi a notícia sobre ele.

Chegando no hospital, eu falei: 'Não, de novo, não'. Duas vezes tive de dar a notícia para o meu irmão. Foi horrível, cortou meu coração demais.

Você perde duas pessoas que você mais ama no mundo. E, depois, você ter que contar para essa outra pessoa que você mais ama no mundo que as duas foram embora... Acaba com o seu coração isso.

Você ainda tem que manejar esse sentimento para conseguir falar. E aí você vê a outra pessoa caindo no choro com você. Parece que, quando você conta a notícia, só se repete para você.

Valmir, pai de Danuzia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Danuzia acredita que, se a vacinação tivesse começado mais cedo, seu pai, Valmir, não teria contraído o novo coronavírus
Imagem: Arquivo Pessoal

Altos e baixos

Agora é um momento de altos e baixos. Os altos não são tão altos. E os baixos são muito baixos.

Depois da minha mãe, eu comecei a ficar muito apática.

Antes, eu tinha muita tristeza, muita revolta quando eu via 500 mortos [pela covid-19] em um dia. Eu ficava triste, chorava, eu rezava pelas pessoas. Dois dias depois da minha mãe, foram 4.000. E eu não liguei, não dei a mínima para aquilo.

Aí eu fui melhorando um pouco. Depois do meu pai, essa apatia voltou. Eu via o número e aquilo não me dizia mais nada. Nada.

Antes, eu via uma pessoa sem máscara, e pensava: 'Olha que babaca. Não é para fazer isso'.

Hoje em dia, as minhas reações são muito viscerais nesse sentido. Penso: 'Olha que assassino'. Para mim, todo mundo que não usa máscara agora é um assassino em potencial

Quando vejo uma pessoa sem máscara perto de outras, eu não consigo deixar de pensar que aquela pessoa não esteja matando pelo menos uma outra ali.

família Danuzia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Andrey (primeiro à direita na foto), marido de Danuzia e médico, acompanhou a situação de Valmir no início dos sintomas
Imagem: Arquivo Pessoal

É muito triste porque meu pai caiu doente no dia em que ele seria vacinado. Se fosse três semanas antes, não teria acontecido nesse nível. Ele poderia não ter pegado. Ou poderia ter pegado uma forma mais leve. A carga viral seria menor. Poderia ser que a minha mãe nem pegasse.

A questão da vacina dá mais raiva. Porque, de uma pessoa que não usa máscara, você não sabe o que tem por trás. Ela pode ter, por exemplo, uma educação muito falha. Ou a comunicação da importância da máscara não chegou a essa pessoa. Agora... vacina... 70 milhões de doses que não foram compradas, doses que poderiam ter imunizado os prioritários.

"Ainda não tenho muito futuro"

No momento, eu ainda não tenho muito futuro. Porque todas as coisas para a frente, os planos, os projetos que eu tinha, incluíam os meus pais de alguma forma.

alice - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Foto mostra Helena brincando com sua neta, Alice; "meus pais amavam ela", conta Danuzia
Imagem: Arquivo Pessoal

Já estava com festa de casamento marcada. Eles que queriam o casamento, mais do que eu até. Um dia antes de começar a pandemia, saí com a minha mãe para comprar grinalda.

Seria uma festona para a família toda. Agora eles não vão poder estar lá. É muito esse sentimento da falta. Tudo o que eu penso em fazer tem menos graça. Porque, 'ah, se eu vou casar, fazer uma festa quando for seguro de novo, eles não vão estar lá'.

Eu quero ter filhos, mas não é só ter filho. Eu nunca vou ver meus pais brincando com o neto.

O meu irmão já tinha uma filhinha, a Alice. Ela está com três anos e pouco. Meus pais amavam ela. E é triste porque ela é muito pequena. Eu acho que ela não vai ter memória deles.

Uma das coisas que mais entristece é que eles sempre foram pessoas muito dignas. Contribuíram muito para sociedade. A sociedade deve muito a eles. Quando meu pai estava com saco de cimento na cabeça, ele não tinha nem resfriado. Quando minha mãe estava lavando privada dos outros, ela não tinha nem dor no ombro. Tinham muito o que viver. Eles estavam começando a aproveitar todo o sacrifício que fizeram a vida inteira.

Quando precisaram, a sociedade não deu a dignidade para eles. Não pude nem segurar na mão deles. Eles não mereciam isso de forma alguma. E não precisava. Não era hora deles. É cruel demais."

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