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Preso em operação da PF é pai de gêmeas que furaram fila da vacinação no AM

Irmas Lins comemoram vacina contra covid-19 - Reprodução
Irmas Lins comemoram vacina contra covid-19 Imagem: Reprodução

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São paulo

02/06/2021 12h48

O empresário Nilton Costa Lins Júnior, preso hoje pela Policia Federal por suspeita de desviar dinheiro para combater a covid-19 no Amazonas, é pai das duas médicas que no começo do ano furaram a fila da vacinação em Manaus.

Quando tentava prender Nilton Lins, a PF foi recebida a tiros que podem ter sido disparados por um "filho" do empresário, segundo disse a subprocuradora-geral Lindôra Araújo ao STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Além de dono Hospital Nilton Lins —alugado pelo governo estadual para funcionar como hospital de campanha—, o empresário é dono da Universidade e das Escolas Nilton Lins, onde estudaram duas de suas filhas, acusadas de furarem a fila da vacina.

As duas médicas receberam o imunizante contra a covid-19 logo após serem nomeadas para trabalhar na área administrativa de uma UBS (Unidade Básica de Saúde) em Manaus.

Formadas em medicina no ano passado, as irmãs Gabrielle e Isabelle Lins publicaram sobre a imunização em suas redes sociais em 22 de janeiro, logo depois que o Amazonas recebeu as primeiras doses da vacina.

Gabrielle havia sido nomeada quatro dias antes —no dia 18, quando as vacinas foram enviadas à cidade— como gerente de projeto, com salário de R$ 8.000. Ela se registrou no Creman (Conselho Regional de Medicina do Amazonas) em 21 de maio do ano passado. Isabelle, no dia 22 de dezembro.

Elas afirmaram na época que atuavam na linha de frente da UBS Nilton Lins, unidade batizada pela prefeitura com o nome do empresário.

"Vacinada sim!", escreveu Isabelle em sua rede social. "Nunca tomei uma vacina tão feliz", postou Gabrielle.

As duas passaram a ser acusadas de furar a fila da vacinação em razão do sobrenome. A juíza Jaiza Pinto Fraxe chegou a fazer "um apelo" no Twitter: "Não furem a fila da vacina. Não deixem ninguém furar".

O governo estadual se defendeu dizendo que "apenas distribui as vacinas, mas a aplicação delas é feita pelas prefeituras".

Em resposta, a Prefeitura de Manaus afirmou que as duas estão entre os dez médicos recém-nomeados para gerenciar projetos, mas que, diante da necessidade, foram remanejados para a linha de frente.

"Nada houve de ilegal, pois fazem parte do grupo preferencial e estavam no exercício de suas funções", diz a nota.

"Eu sou médica sim"

"Realmente eu sou médica sim, formada em maio de 2020, durante o primeiro pico da pandemia", escreveu Gabrielle em resposta a uma publicação que a acusava.

"Desde a semana passada fui convidada para atuar na atenção primeira à covid, na nova UBS da prefeitura. E hoje durante meu plantão fui convidada a me vacinar juntamente com os demais médicos e enfermeiros das unidades. Realmente não propague fake news, isso é triste!", diz o texto.

Prisão de Nilton Lins

A ação que hoje prendeu Nilton Lins ainda incluiu busca e apreensão contra o governador do estado, Wilson Lima (PSC). O secretário de Saúde, Marcellus Campêlo, foi alvo de mandado de prisão.

O advogado do empresário, João Carlos Cavalcante, disse ao UOL que, "na verdade, não teve troca de tiros".

A procuradora Lindôra disse que, em 30 anos de carreira, nunca se deparou com essa situação. "Como foi uma situação muito sui generis, uma situação dessas, nunca tinha visto acontecer..."

Teve um incidente bastante sério. Foi uma situação bastante constrangedora e perigosa lá em Manaus
Lindôra Araújo, procuradora do Ministério Público

Essa foi a quarta fase da operação que apura desvios no estado. O governador já foi denunciado ao STJ duas vezes.

As quebras dos sigilos bancário e fiscal atingiram 27 pessoas e empresas e 12 pessoas tiveram seus bens confiscados. O objetivo é bloquear mais de R$ 22 milhões em bens.

Em nota, o governo do Amazonas disse que "Lima reitera que, desde o início da pandemia de covid-19, sua gestão está voltada a preservar a saúde do povo do Amazonas e a salvar vidas". "Desta forma, todos os investimentos feitos pelo estado no enfrentamento da pandemia têm obedecido os trâmites legais de contratação de bens e serviços." Segundo o comunicado, Lima "reitera que está convicto de que não cometeu qualquer ilegalidade e que confia na Justiça".

Campêlo não foi encontrado por que estava em viagem, segundo a secretaria de Saúde do estado. Em nota, ela disse que o secretário "retornou a Manaus logo que tomou conhecimento da operação para se apresentar à Polícia Federal e prestar todos os esclarecimentos necessários". "O secretário sempre esteve à disposição da Justiça, tem convicção de que sua administração tem atuado de forma correta, dentro da legalidade e da transparência."

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