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Saúde

Com aumento de casos, Serrana (SP) alerta para futuro da pandemia no Brasil

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

28/11/2021 04h00

Enquanto o Brasil engatinhava no calendário da vacinação contra a covid-19, no primeiro semestre deste ano, a cidade de Serrana, no interior de São Paulo, era palco de um projeto científico que, entre fevereiro e abril, vacinou em massa sua população e mostrou que a vacina CoronaVac —produzida pelo Instituto Butantan e desenvolvida em parceria com o laboratório chinês Sinovac— diminui a transmissão e as mortes pela doença.

Com o avanço na vacinação nos estados brasileiros ao longo do ano, essa redução dos indicadores pode ser vista em todo o país. Mas, em Serrana, apesar dos índices de internações e mortes permanecerem baixos, houve um salto nos números de novos casos —antecipando o cenário nacional daqui a alguns meses, segundo avaliam cientistas ouvidos pelo UOL.

A previsão já era preocupante antes mesmo da notícia da nova variante ômicron, que surgiu na África do Sul e já circula em alguns países da Europa.

Dados levantados a pedido da reportagem pelo Infotracker, instituto de monitoramento de dados da USP e Unesp, apontam um aumento de 300% na média móvel de novos casos em Serrana desde o começo do ano: eram oito novos casos diários, em média, em 1º de janeiro de 2021, pouco antes do início da campanha de vacinação no Brasil, contra 32 no último dia 19. A cidade tem 46 mil habitantes.

No gráfico abaixo, é possível visualizar a variação de casos desde o início deste ano. Os casos diminuem a partir de abril, quando Serrana vacinou quase que totalmente sua população, e há um salto no número de diagnósticos a partir de outubro, quando a imunização completou seis meses.

Os dados de internações também caíram a partir de abril e chegaram a subir novamente, mas permanecem em patamares relativamente baixos até hoje.

É possível ver cenário semelhante de queda em relação aos números absolutos de mortes por covid. Hoje, Serrana mantém números de mortes diárias próximos do que tinha em março de 2020, quando o vírus chegou ao Brasil.

O fato de a vacina não evitar que uma pessoa infectada transmita o vírus já era esperado pelos cientistas. No começo deste mês, um estudo publicado na revista científica Science concluiu que a efetividade das vacinas da Pfizer e Janssen caem pela metade após um semestre da aplicação.

Serrana sugere o mesmo efeito para CoronaVac, já que a maioria da população recebeu o imunizante produzido pelo Instituto Butantan, explica o infectologista da USP Benedito Lopes da Fonseca, que também integra o núcleo de cientistas que coordenam os estudos em Serrana.

O que era esperado?

"Era esperado que teríamos esse aumento de casos, mas o corpo ainda mantém as células de memória que permitem à pessoa infectada rapidamente produzir uma proteção. Isso faz com que a doença seja de menor gravidade", afirma Fonseca. "Os casos de maior gravidade no hospital de Serrana geralmente são de pessoas que não se vacinaram", completa.

Pedro Garibaldi, médico hematologista do Hospital Estadual de Serrana e um dos coordenadores do plano de vacinação em massa na cidade —conhecido como Projeto S—, concorda com Fonseca e nega que houve frustração pela queda da proteção da vacina.

Mesmo que a vacina não controle a transmissão e infecção de casos leves, ela freia internações e óbitos, que é o que precisamos: reduzir o estresse no sistema de saúde. Nos frustramos, como todos, de ver os casos subindo. Mas só de o hospital não estar tomado por pacientes com covid isso traz um ânimo. Caso estejamos diante de uma terceira onda, ela deve vir como uma marolinha."
Pedro Garibaldi, médico hematologista e um dos coordenadores do Projeto S

Espelho do Brasil

Como Serrana vacinou sua população com bastante antecedência, os cientistas analisam que o comportamento do vírus na cidade, hoje, é uma previsão do que deve acontecer no país. Pedro Garibaldi afirma: "Temos em Serrana um espelho do Brasil".

Benedito Fonseca corrobora. "É bem provável que o cenário de Serrana seja um exemplo do que será o Brasil daqui a alguns meses. Essa terceira dose, no entanto, vai ajudar muito no sentido de dar um 'boost' na resposta imune e, com isso, causar uma incidência de novos casos bem menor", diz.

Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência ao Coronavírus, que assessora o governo de São Paulo no monitoramento da pandemia no estado, também supõe que o Brasil deve enfrentar uma alta de casos em breve, mas ressalta que a cobertura vacinal trará um cenário menos grave do que o enfrentado em alguns países europeus.

"Estamos vendo esse movimento da pandemia na Europa. Nós temos uma vantagem em relação à Europa que é o fato de termos conseguido uma cobertura vacinal maior, pelo menos no estado de São Paulo. Nos próximos meses teremos ótima cobertura de terceira dose", diz Menezes.

Para saber se há um aumento de casos, é preciso testar. Mas, no Brasil, não há política de testagem para monitoramento. O país ocupa a 125º posição quando se trata da proporção de testes por milhão de habitantes, segundo o site Worldometers.

Outro problema é a ausência de uma coleta de dados confiável pelo Ministério da Saúde. As plataformas de monitoramento do governo federal, utilizadas pelos estados, estão com dados defasados há pelo menos dois meses. Há duas semanas, o UOL procurou o Ministério da Saúde para questionar o sistema e não recebeu retorno.

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