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Coronavírus

Covid: 63% de mortes no país em janeiro foram de idosos com 70 anos ou mais

REUTERS/Eric Gaillard/File Photo
Imagem: REUTERS/Eric Gaillard/File Photo

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

08/02/2022 04h00

Em janeiro de 2022, 63,3% das mortes causadas pela covid-19 no Brasil foram de idosos com 70 anos ou mais, o maior percentual mensal desde o início da pandemia, em março de 2020, segundo dados dos cartórios de registro civil.

Das 12.452 mortes pela doença, ao menos 7.882 foram de idosos nessa faixa etária, segundo dados registrados até a tarde da última sexta-feira no portal da transparência da Arpen-Brasil (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais).

O número de óbitos ainda é parcial e deve crescer nos próximos dias, já que há um prazo de até 15 dias para inserção dos dados.

A covid-19 sempre afetou com mais gravidade as pessoas idosas, especialmente com 70 anos ou mais. Entretanto, como eles foram os primeiros a serem vacinados (junto com profissionais de saúde e indígenas aldeados), o percentual de morte deles foi caindo em relação ao total a partir de março até junho de 2021.

A partir dali, com o avanço da vacinação em outras faixas etárias, esse percentual foi novamente crescendo, até atingir seu maior patamar em janeiro.

"Não é exatamente o coronavírus"

Segundo o geriatra Marco Polo Dias Freitas, doutor em saúde coletiva pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e membro da Comissão de Políticas Públicas da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), a interpretação desses percentuais deve levar em conta algumas variáveis. "A primeira coisa a considerar é que os idosos sempre foram parte dessa população que acaba complicando mais", diz.

"Esse problema [de mais mortes] ocorre porque o idoso teve uma infecção aguda. Os idosos que estão se complicando agora são aqueles que iriam complicar se tivesse um resfriado, uma Influenza, uma infecção de vias aéreas mais fortes. Não é exatamente o coronavírus", diz.

Ele afirma que isso ocorre porque a onda da ômicron tem se mostrado menos grave do que outras variantes por conta da proteção das vacinas. "O coronavírus não é mais aquele grande vilão causador da insuficiência respiratória, mas sim um agente que vai descompensar outros problemas. Isso não é só com os idosos, mas com adultos que tenham uma comorbidade, uma criança com uma doença cerebral. Essas pessoas têm uma fragilidade e estão em um ponto de equilíbrio tênue da saúde", fala.

Polo pondera, nesse sentido, que a faixa etária mais velha possui um maior percentual de pessoas com fragilidade. "Temos um percentual de 20% dos idosos que é mais frágil, e que qualquer adversidade que tiver, qualquer mudança no estado de saúde, pode fazer uma complicação", explica.

Nesse caso, ele acredita que a chegada da variante ômicron e sua alta taxa de transmissibilidade fizeram com que mais pessoas se contaminassem —entre elas, algumas mais vulneráveis que não tinham tido ainda contato com o vírus e que agora enfrentam problemas mais sérios.

Em meio a esse cenário, ele afirma que as vacinas têm se mostrado extremamente eficazes e está evitando a morte de idosos imunizados, mesmo em casos graves.

São os idosos não vacinados que desenvolvem a forma grave, em sua grande maioria. Os vacinados que evoluem para forma grave estão se recuperando".
Marco Polo, SBGG

Ele alerta, porém, que a vacina protege, mas não é um "escudo que transforme o idoso em invulnerável." "É como um time de futebol: por mais que o goleiro seja bom, o time vai tomar gol. Vamos ter, sim, aqueles que vão evoluir para o óbito, mas a probabilidade maior é que não ocorrerá da mesma forma. Por isso é importante que as pessoas mantenham as medidas de proteção, porque você pode ser vetor para uma pessoa frágil", diz.

05.jun.2021 - Idoso com dificuldade para sair é vacinado em casa em São Paulo - Governo do Estado de São Paulo - Governo do Estado de São Paulo
05.jun.2021 - Idoso com dificuldade para sair é vacinado em casa em São Paulo
Imagem: Governo do Estado de São Paulo

A infectologista e professora de doenças tropicais da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Vera Magalhães, assegura que a proteção dos idosos vacinados apenas parcialmente é bem menor, o que eleva o risco de eles desenvolverem a forma grave da covid. "Apesar de poder contrair a infecção, um vacinado dificilmente terá um desfecho óbito", diz.

A vacinação da dose de reforço ainda engatinha no país. Segundo o portal de monitoramento de dados da empresa Lagom Data, mesmo entre idosos a partir de 70 anos ou mais, os percentuais de cobertura de dose de reforço não chegam a 70% em nenhum grupo etário. Veja por idade:

Mapa de reforço por idade - Lagom Data - Lagom Data
Imagem: Lagom Data

O levantamento leva em conta a projeção da população por faixa etária anunciada pelo IBGE em 2019, antes da covid.

Vera Magalhães diz que nesse grupo etário de idosos, pessoas que só têm uma ou duas doses da vacina não estão devidamente protegidas e pede para que todos tomem a terceira dose.

"O que se observa no mundo inteiro é que de 80% a 90% das pessoas que estão em UTI e vão a óbito são não vacinadas ou que estão com vacinação incompleta. Isso é mais grave, claro, para aquelas que não estão vacinadas. Mas como os que têm mais comorbidade geralmente são os idosos, eles acabam tendo maior risco de morte", completa.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, das 12.452 mortes pela covid, ao menos 7.882 foram de idosos. O texto foi corrigido.

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