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Coronavírus: franceses de origem asiática criam a hashtag "eu não sou um vírus" para protestar contra preconceito

PHILIP FONG
Imagem: PHILIP FONG

29/01/2020 16h41

"As agressões racistas contra asiáticos aumentaram com a propagação da epidemia do novo coronavírus", relatam dezenas de internautas de origem asiática que vivem na França. Sob a hashtag #JeNeSuisPasUnVirus (eu não sou um vírus, em francês), eles protestam contra a discriminação. A França registrou hoje o quarto caso de contaminação pelo novo vírus.

Este também é o sentimento do estudante francês de origem chinesa Son Lam, ele mesmo vítima de racismo. "As pessoas dizem: 'Eu peguei um vírus porque eu fiquei ao lado de um chinês no metrô'. Quando a gente passa, eles tampam o nariz. Depois que o vírus se propagou no mundo, os piores clichês sobre os asiáticos, como aqueles sobre condições de higiene ou sobre comidas exóticas, voltaram aqui na França", constata Son.

"Eu nasci aqui, mas, como eu sou filho de asiáticos, eu sou sistematicamente lembrado das minhas origens. Não há um dia em que eu não sinta o racismo, e com o coronavírus isso aumentou", afirma.

Mesmo antes da epidemia, Son já tinha prestado queixa contra um político que o havia insultado publicamente. Eddy Denis era vereador do partido de direita Os Republicanos e foi condenado por racismo a três meses de prisão com sursis e multa de 8.000 euros. O vereador pediu demissão de seu cargo, mas recorreu na Justiça e um novo julgamento acontecerá em fevereiro.

"Nós podemos curar um vírus, mas não sabemos como curar um nazista", escreve o internauta Jay S. Ha sobre o racismo e a estigmatização contra os chineses, usando a nova hashtag que já está rodando o mundo.

Pretexto

Outro caso recente foi o do professor de história Kevin Bossuet, colunista do jornal Valeurs Actuelles, que escreveu no Facebook: "Estou com dor de cabeça, dor de garganta e nariz entupido. Eu tenho vários alunos de origem asiática... eu tenho o coronavírus". Son e outros internautas de origem chinesa reagiram. Um escreveu: "Imagine se ele dissesse que tem ebola ou aids porque cruzou com negros soropositivos. Seria um escândalo".

Soc Lam é advogado de Son e está acostumado a pegar processos sobre discriminação e violência contra as comunidades chinesa e asiática na França. "Eu acho que há um preconceito real contra os asiáticos na França e este fenômeno recente [do coronavírus] o amplificou. É um pretexto", afirma.

"A gente sinaliza os deslizes, alerta os jornalistas que usam uma linguagem preconceituosa, na internet, a gente pede que retifiquem", diz, sobre as medidas tomadas para combater o preconceito.

"Recentemente, uma jovem de origem asiática me contou que foi retirada de um elevador cheio por causa de sua origem", conta. Isso aconteceu, segundo ele, faz dois dias.

Médica chinesa fala que não há razão para pânico

Para a médica chinesa Na Na, que trabalha na emergência do hospital parisiense Pitié Salpêtrière e é responsável pela interface médica entre os chineses e os médicos franceses na França, não há razão para pânico.

Ela foi contatada pelos primeiros pacientes confirmados com coronavírus em Paris e fez a mediação com o Samu para ajudar no diagnóstico dos pacientes, que não falam francês.

"Eu ouvi falar do aumento do preconceito, mas não faz sentido algum. Para pegar o coronavírus, é preciso viajar a Wuhan. A China é muito, muito grande. Se você vem de outro lugar da China, não há razão para ter medo. O único lugar onde tem epidemia neste momento é em Wuhan e algumas cidades próximas", afirma.

"Os chineses que moram na França, que não voltaram de lá recentemente, não oferecem risco. Não tem por que ter medo deles", acrescenta.

Comunidade chinesa em Paris se mobiliza

Na estudou medicina em Wuhan e mora há nove anos em Paris. Ela fala sistematicamente com os colegas médicos que permaneceram na cidade, berço do novo vírus.

"As condições de trabalho são muito duras. Tem muitos pacientes que chegam com febre e dificuldades respiratórias, que são também sintomas da gripe. E, com o novo vírus, o trabalho se multiplicou", conta.

"No hospital onde um colega trabalha atualmente, eles têm apenas seis salas de exame e nove médicos que se revezam e precisam examinar mil pacientes por dia. Cada paciente espera de seis a dez horas para ser examinado. A carga de trabalho é enorme. E há também uma enorme falta de material, principalmente de máscaras", lamenta.

Segundo ela, a comunidade chinesa de Paris, por meio de associações, já comprou 100 mil máscaras para enviar a Wuhan. "A gente mora em Paris, mas a comunidade faz o que pode para comprar e enviar estas máscaras a Wuhan".

Na concorda com o fato de a OMS não ter decretado emergência internacional por conta desta epidemia. "O vírus não está propagado em toda a China. Eu acho que ele está sob controle, concentrado em Wuhan."

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