Dissidência cubana deixa cadeira vaga com prêmio para chefe da OEA

Washington, 23 Fev 2017 (AFP) - O Prêmio Oswaldo Payá para o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) ficou sobre uma cadeira com seu nome, depois que Havana impediu o diplomata uruguaio Luis Almagro de entrar na ilha para receber a homenagem oferecida pelos dissidentes por seu apoio à democracia.

Rosa María Payá organizou a premiação em memória de seu pai, um líder da oposição falecido em um acidente de trânsito em 2012. A cerimônia foi realizada na sala de sua casa, no bairro El Cerro, de Havana.

As duas pequenas placas com a silhueta de Oswaldo Payá, reservadas para Almagro e para a ex-ministra chilena Mariana Aylwin, ficaram sobre duas cadeiras.

"Vamos pôr sobre essas duas cadeiras vazias, que permanecerão vazias até que possam aterrissar em Havana... o dia que puderem compartilhar conosco, com a sociedade civil cubana, nossa libertação", disse Rosa María.

Mais cedo, nesta quarta-feira (22), Almagro denunciou que as autoridades cubanas lhe negaram o visto para uma visita, na qual receberia o prêmio da organização Rede Latino-Americana de Jovens pela Democracia, ligada à dissidência cubana.

O que seria uma homenagem acabou se transformando em um incidente diplomático.

"Minha solicitação de visto para o passaporte oficial da OEA foi negada pelo Consulado de Cuba em Washington", sustentou Almagro em uma carta à organizadora da premiação, Rosa María Payá.

Em sua carta, o secretário-geral assinalou que as autoridades consulares cubanas lhe informaram que sua entrada em Cuba seria "negada", mesmo que viajasse com passaporte diplomático uruguaio.

Essas mesmas autoridades teriam comunicado a um funcionário da OEA que consideravam o motivo da viagem uma "provocação inaceitável" e expressaram seu "espanto" com o "envolvimento da OEA em atividades anticubanas".

"Não é do meu interesse avaliar a situação política interna de Cuba, nem suas diferentes tendências políticas. E não me compete opinar sobre isso", assinalou Almagro em sua carta.

O diplomata explicou a Payá que sua equipe solicitou às autoridades consulares uma revisão da decisão, alegando que a viagem não era diferente de "outros eventos similares que ocorrem em outros países da região e dos quais participou".

"Naturalmente, desejo continuar trabalhando na cooperação estabelecida entre a Rede Latino-Americana de Jovens pela Democracia e a OEA", apontou em sua carta.

Em separado, em uma mensagem publicada no Twitter, Almagro assinalou que sua "preocupação é que não exista qualquer repressão, ou represália aos organizadores do evento".

Outras duas pessoas que pretendiam participar da cerimônia de premiação - o ex-presidente mexicano Felipe Calderón e a ex-ministra chilena Mariana Aylwin - também denunciaram que tiveram seus vistos negados.

Em um comunicado, o governo de Raúl Castro defendeu a decisão contra Almagro, alegando se tratar de um plano para "gerar instabilidade interna", prejudicar a imagem internacional do país e "afetar a boa marcha das relações diplomáticas" com outros Estados.

Em santiago, a representação diplomática cubana emitiu uma nota nesta quarta, na qual considerou a cerimônia de premiação uma "grave provocação internacional" contra o governo "gestada por um grupo ilegal anticubano".

Filha do ex-presidente chileno Patricio Aylwin, Mariana estava prestes a embarcar para Cuba, mas, no aeroporto de Santiago, foi informada de que havia sido declarada "inadmissível".

Apesar da tensão, as autoridades não reprimiram a oposição, nem impediram a cerimônia de cerca de meia hora, que transcorreu sem incidentes.

"Estamos felizes de fazer isso com aqueles que conseguiram chegar até aqui", disse Rosa.

"Esperamos que essa agressão, essa grosseria do governo cubano com nossos convidados (...) encontre resposta entre os membros da OEA e outros governos democráticos", afirmou.

Durante o ato, o opositor cubano Iván Hernández afirmou que "cerca de 100" de ativistas foram detidos, ou forçados a permanecer em suas casas pela Polícia, para evitar seu comparecimento.

Nenhuma das figuras mais visíveis da dissidência cubana esteve presente.

Depois da cerimônia, Payá descartou que esteja buscando incitar o governo de Donald Trump a agir contra Cuba. A ilha normalizou suas relações diplomáticas com os Estados Unidos em 2015.

"Mas, sim, esperamos um apoio coerente de todas as democracias do mundo ao direito dos cubanos de decidir e, sim, esperamos demonstrações e reações e respostas diante dessa agressão do governo cubano aos nossos convidados internacionais", acrescentou.

Vivendo entre Miami e Havana, Payá promove um plebiscito em Cuba a favor de uma transição democrática.

- Mal-estar diplomáticoChile e México reagiram com mal-estar.

Na terça-feira (21), o Ministério chileno das Relações Exteriores emitiu uma nota oficial para assinalar que lamentava "profundamente" a situação, e que convocaria para consultas seu embaixador em Havana.

Da mesma forma, o chanceler do México, Luis Videgaray, lamentou no Twitter o episódio com o ex-presidente Calderón.

"A presença de Felipe Calderón em Cuba não afeta em nada o povo e o governo cubanos. Lamentamos a decisão", tuitou Videgaray.

Cuba foi suspensa da OEA em 1962, no auge da Guerra Fria e de seu confronto ideológico com os Estados Unidos. A organização retirou a suspensão de Cuba em 2009, mas o governo deixou claro que, por enquanto, não tem a intenção de se reincorporar.

Desde que Cuba foi excluída da OEA, o único secretário-geral da entidade que visitou a ilha foi o chileno José Miguel Insulza. Ele esteve em Havana, em 2014, participando da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

Desde que Almagro se tornou secretário-geral da OEA, já enfrentou, porém, diversas questões com o governo da Venezuela - um aliado fundamental para Cuba.

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