"Marcha dos vovôs" desafia Maduro em protesto contra crise de saúde

Em Caracas

  • Francisco Bruzco/Xinhua

    Homem com bengala participa da "Marcha dos Vovôs" contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas, na Venezuela

    Homem com bengala participa da "Marcha dos Vovôs" contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas, na Venezuela

A passos lentos, com bengalas ou em cadeiras de rodas, 2.000 aposentados venezuelanos desafiaram nesta sexta-feira (12) as barreiras e o gás de pimenta da polícia em Caracas para exigir ao presidente Nicolás Maduro remédios e um "país melhor" para seus netos.

Convocada pela oposição, a "marcha dos avós", no leste de Caracas e outras cidades do país, tocou em um ponto sensível, a crise na saúde, um dia depois de a ministra Antonieta Caporale ser destituída ao divulgar preocupantes cifras oficiais sobre a piora nesta área.

"Não queremos ditadura, mas uma velhice digna, remédios, comida e liberdade", disse à AFP Lourdes Parra, de 77 anos, que levava uma bandeira venezuelana e um cartaz escrito: "está vovó está enojada e continua de pé por seu país".

A marcha foi bloqueada em uma estratégica avenida da cidade por oficiais com escudos, o que originou um confronto. Um idoso com gorro de Papai Noel gritava: "somos avós, nos deixem passar. Respeitem, caralho!".

Ariana Cubillos/AP
Homem participa da "Marcha dos Vovôs" em Caracas


Exaltados, alguns homens e mulheres mais velhos lançaram golpes e insultos. "Vai bater em seus pais? Somos um monte de velhos!", gritavam alguns aos policiais, que jogaram gás pimenta para fazer a multidão recuar.

Mas o governo realizava uma concentração de idosos no centro de Caracas, liderada por dirigentes do governo, gritando em apoio a Maduro e ao falecido presidente Hugo Chávez.

"Com Chávez e Maduro, os avós estão seguros", diziam em frente ao palácio presidencial de Miraflores.

O governo reivindica ter outorgado seis milhões de pensões, mas a oposição afirma que foram tomadas pela inflação, que segundo o FMI fecharia este ano em 720%.

Segundo pesquisas privadas, sete em cada 10 venezuelanos rechaçam a gestão de Maduro.

Christian Veron/Reuters
Homem e mulher participam da "Marcha dos Vovôs" com cartaz que diz "Não a mude, obedeça-a", sobre a Constituição, em Caracas

 

"Não tenho remédios"

Os aposentados insistiram em marchar até a sede da Defensoria Pública, mas os protestos opositores, que desde 1º de abril deixam 38 mortos, não conseguiram chegar ao coração da capital, onde está o palácio de Miraflores e as sedes dos poderes públicos.

"Isso é horrível, não têm compaixão nem com os velhinhos", declarou à AFP Sandra Franchi, de 65 anos, que limpava o rosto com um pano para retirar o resto do gás de pimenta.

Com caixas de remédio vazias, Carlos Rivas, de 67 anos, estava na linha de frente da marcha: "não tenho remédios e a aposentadoria não dá para nada", disse à AFP.

Segundo a Federação Médica Venezuelana, os hospitais estão funcionando com apenas 3% dos medicamentos e insumos necessários. A Federação Farmacêutica sustenta que a escassez de medicamentos chega a 85%.

O relatório que provocou a queda da ministra da Saúde revelou esta semana que a mortalidade infantil aumentou 30,12% e a materna 65%, enquanto retornam doenças como a malária.

Ariana Cubillos/AP
Mulher segura cartaz escrito "Maduro Assassino" na "Marcha dos Vovôs", em Caracas

"Um país livre"

Na cadeira de rodas, José Dacre, de 64 anos, disse ter ido ao protesto porque tem a obrigação de "deixar para as crianças um país livre".

Em confrontos cada vez mais duros, os policiais costumam lançar bombas de gás lacrimogêneo e jatos d'água nos jovens manifestantes, encapuzados e com escudos de madeira e metal, que respondem com pedras, coquetéis molotov, bombas de tinta e até de fezes.

Desde que começaram os protestos para exigir a saída de Maduro - eleito até 2019 -, os distúrbios já deixam centenas de feridos e presos, dos quais uma centena foi enviada para a penitenciária por ordem de tribunais militares.

As manifestações exigem eleições gerais e rechaçam uma Assembleia Nacional Constituinte convocada por Maduro em 1º de maio.

Maduro acusa a oposição de declarar uma "insurgência armada" para lhe dar um "golpe de Estado" e disse que para "alcançar a paz" e "derrotar os violentos" impulsiona uma Constituinte "popular", que a oposição considera uma "fraude" para evadir as eleições e se agarrar ao poder.

"Nada, nem ninguém vai nos deter, conseguiremos neutralizar esta emboscada. A Venezuela exige o fim dos protestos violentos, o chamado ao golpe de Estado", advertiu o presidente socialista.

O governo acusa os Estados Unidos e a Organização dos Estados Americanos (OEA) de "apoiar" os "atos de vandalismo da oposição".

A oposição mantém sua agenda de protestos e convocou para sábado caravanas de automóveis, bicicletas, motocicletas e até cavalos em todo o país, e para domingo uma manifestação pelo Dia das Mães.

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