A dor dos cristãos egípcios ao enterrar seus mortos

Deir El jernous, Egypte, 27 Mai 2017 (AFP) - Na igreja de um povoado do centro do Egito a liturgia em língua copta se mescla ao choro e aos gritos de raiva, enquanto uma multidão de cristãos assiste ao funeral das vítimas de mais um ataque contra sua comunidade.

Nesta sexta-feira, ao menos 28 pessoas, incluindo várias crianças, foram mortas por homens armados que atacaram um ônibus que seguia para um mosteiro na província de Minya, 200 km ao sul do Cairo.

Na igreja de Deir El Jernous repleta, oito caixões de madeira repousam diante do altar sobriamente decorados com uma cruz dourada.

Os familiares das vítimas seguem inclinados sobre o caixão, adiando o momento da despedida final.

As liturgias em línguas coptas se sucedem. Rezam o Pai Nosso em árabe enquanto as mulheres choram de dor.

No pátio da Igreja a ira é clara. "Com nossa alma, com nosso sangue, nos sacrificamos pela cruz", grita a multidão no local, decorado com um mosaico da viagem da santa família pelo Egito.

- 'Não há segurança' -A opinião geral é que apesar dos atentados que têm atingido os coptos nos últimos meses, o governo do presidente Abdel Fatah Al Sissi nada faz para proteger esta comunidade cristã, que representa quase 10% dos quase 90 milhões de egípcios.

No início de abril, os atentados suicidas contra duas igrejas coptas - em Tanta e Alexandria - reivindicados pelo grupo jihadista Estado Islâmico mataram 45 pessoas no norte do Cairo.

"Digo ao presidente Sissi, vai ter que prestar contas no céu", declarou Reda Makari, um sexagenário que perdeu seu sobrinho Nasef, um operário de 28 anos que seguia para o mosteiro. "Evidentemente, não há segurança. Se houvesse, não seriam assassinados".

"Enquanto as forças de segurança não fizerem seu trabalho isto seguirá assim, até que sejamos todos mortos", disse Samuel Shalabi, 49 anos, que perdeu o irmão mais velho no ataque.

"Isto é sempre assim. Ficaremos tristes um tempo, terão pena de nós, mas voltará a acontecer".

Em torno de Shalabi, as pessoas exibem smartphones com vídeos gravados no local do ataque: homens caídos no chão, alguns com a cabeça destroçada.

"Há um posto de controle da polícia próximo ao mosteiro, como podem circular homens armados por lá?" - questionou Hakim Hana, um jovem de 25 anos que perdeu seu primo. "É a maior prova de que há falhas de segurança e não há segurança para os cristãos".

Quando os caixões saem da pequena igreja de paredes ocres, a histeria explode. Os gritos das mulheres são ensurdecedores, a multidão tenta se aproximar para tocar pela última vez os "mártires", transportados em procissão pelas ruas do povoado.

"Agora compartilhamos verdadeiramente a dor dos nossos irmãos de Tanta e Alexandria", suspira Romany, um carpinteiro de 26 anos, em meio ao toque do sino da igreja.

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