Brasil protesta contra decisão que abre porta à 'cura gay'

São Paulo/Río de Janeiro, 23 Set 2017 (AFP) - Milhares de pessoas se manifestaram nesta sexta-feira em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país contra uma liminar que abriu a possibilidade de tratar a homossexualidade como uma doença.

Com cartazes que proclamavam "Cure os preconceitos!" e bandeiras de arco-íris do movimento LGBT, as marchas se estenderam ao longo da Avenida Paulista, em São Paulo, e da Avenida Rio Branco até a Cinelândia, no Rio, de acordo com jornalistas da AFP.

"Já temos que lutar contra muito preconceito para ter que lidar com esses psicólogos que fazem pseudociência", disse o professor de história Leo Rosetti, de 38 anos, que participava do protesto no Rio.

Em São Paulo, houve confrontos entre manifestantes e policiais, que terminaram com dois detidos.

"Já temos que lutar contra muito preconceito para ter que lidar com esses psicólogos que fazem pseudociência. Isso abre um filão grave", disse à AFP Cintia Rosini, uma atriz de 33 anos que participou da marcha em São Paulo.

O juiz Waldemar de Carvalho, de Brasília, ordenou, na última segunda-feira, ao Conselho Federal de Psicologia (CFP) que deixe de proibir as terapias de reversão sexual.

A medida foi solicitada por um grupo de psicólogos. Até então, essa prática podia levar à suspensão da licença profissional.

O CFP apresentou imediatamente um recurso judicial advertindo que a decisão "abre a perigosa possibilidade de uso de terapias de (re)orientação sexual", que representam "uma violação dos direitos humanos e não tem qualquer embasamento científico".

"Se eu reoriento, eu faço isso a partir de uma visão de que há um desvio que precisa ser reorientado. Então, tirando todos os eufemismos, tirando todos os sofismas, o que diz essa resolução é que as sexualidades não heteronormativas são desviadas, portanto são uma patologia que deve ser tratada", disse Rogério Gianinni, presidente do CFP, em uma coletiva de imprensa em Brasília.

- "Momento conservador" -"A ação de um juiz é muito representativa do momento conservador que estamos vivendo no Brasil, de muitas derrotas sociais. Para mim quase chegou como uma graça, porque tenho um bom suporte familiar e de amigos. Mas e os que não têm? É simplesmente absurdo", disse no protesto no Rio Matheus Foster, promotor cultural de 30 anos.

A controversa sentença do juiz Carvalho ocorre em um contexto de fortes questionamentos à agenda de novos direitos impulsionados pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda) entre 2002 e 2016, até a destituição da presidente Dilma Rousseff por manipular as contas públicas.

A posse de Michel Temer, ex-aliado de Dilma, trouxe ao centro do poder político poderosas correntes de pensamento de orientação conservadora.

A sentença do juiz Carvalho não suspende os efeitos da resolução do CFP, mas ordena que este deixe de interpretá-la "de modo que impeça os psicólogos de promoverem os estudos ou o atendimento profissional, de forma reservada, pertinente" da (re)orientação sexual.

Segundo o Conselho, essa interpretação vai contra o posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), que definiu a homossexualidade como uma variação natural da sexualidade humana.

Conhecido no mundo inteiro pela sensualidade do carnaval e de suas praias, o Brasil tem uma vibrante comunidade homossexual que convive com uma profunda influência religiosa e grupos que atacam de forma verbal e fisicamente a comunidade LGBT.

Somente em 2016 o Brasil registrou 343 pessoas LGBT assassinadas em crimes relacionados à chamada LGBTfobia, o que faz do país o primeiro em quantidade de homicídios de homossexuais do mundo.

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