Polícia catalã divide-se internamente entre obediência a Madri ou Barcelona

Da AFP, em Barcelona

  • Lluis Gene/AFP Photo

    Polícia da Catalunha age em frente de colégio eleitoral na cidade de Sarria de Ter para proibir votação em referendo

    Polícia da Catalunha age em frente de colégio eleitoral na cidade de Sarria de Ter para proibir votação em referendo

Obedecer ao Executivo espanhol ou continuar leal ao governo regional? A espiral independentista na Catalunha divide a força policial desta região da Espanha, cujo controle desejam tanto Barcelona quanto Madri para impor suas ordens.

"A tensão é máxima. Há muito medo e muita ansiedade em toda a corporação, para além de se querem a independência ou não a querem, como é o meu caso", explicou à AFP Vicente (nome fictício), agente em Barcelona dos Mossos d'Esquadra, a polícia regional catalã.

Esta corporação policial está no meio da queda de braço entre o governo espanhol e o destituído Executivo regional catalão, cujo Parlamento proclamou na sexta-feira a Constituição de uma República independente.

O Executivo espanhol de Mariano Rajoy reagiu rapidamente, destituindo o governo catalão de Carles Puigdemont, dissolvendo o Parlamento e destituindo também o diretor da Polícia e seu comandante máximo, Josep Lluís Trapero.

E agora, os cerca de 16.000 agentes desta corporação estão na expectativa de que ordens vão seguir: as recebidas de Madri ou as do hipotético governo da república catalã, proclamada na sexta-feira e não reconhecida por nenhum país.

Assim como na sociedade catalã, "a corporação está dividida em partes iguais: uns estão encantados de que Madri assuma o controle e outros o veem com inquietação e repúdio", explica Manel (nome fictício), com mais de dez anos de experiência na unidade de segurança cidadã.

"O clima é difícil. Há discussões, gritos, situações muito tensas entre companheiros", explica Vicente.

Esta corporação policial, cujas origens remontam ao século XVIII, foi refundada em 1983 em pleno processo de recuperação do autogoverno catalão, suprimido durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975) e é uma das joias da coroa da autonomia da região, com plenas competências em relação à ordem pública.

Controlá-la é vital para Madri, que conta com apenas 6.000 agentes de suas corporações policiais na Catalunha. Sua importância ficou patente no referendo inconstitucional de 1º de outubro, quando evitaram atacar os eleitores reunidos para as seções eleitorais.

A intervenção, algumas vezes violenta, finalmente ficou a cargo da Polícia Nacional e da Guarda Civil, subordinadas ao Ministério do Interior, que tinha enviado 10.000 efetivos como reforço.

"Fez-se um dispositivo fraudulento para que não pudéssemos fazer nosso trabalho. Muitos companheiros da tropa de choque tiveram dia livre", diz Vicente. "Muitos nos sentimos envergonhados", continua.

As principais críticas se dirigem ao ex-chefe dos Mossos, Josep Lluís Trapero, elogiado por sua gestão nos atentados de extremistas islâmicos em Barcelona e Cambrils, em agosto, mas acusado de ser próximo aos líderes políticos separatistas.

Investigado por sedição, foi destituído do cargo pelo ministério do Interior horas depois da intervenção da Catalunha, que também levou à destituição do diretor político da polícia catalã, Pere Soler.

Agora caberá ao ministério assumir a gestão da corporação e sua atuação nas próximas semanas, nas quais os separatistas pedem à resistência para defender a recém-proclamada república e para impedir o controle de Madri.

Em uma circular interna, os comandos policiais pedem neutralidade aos agentes e diante do imprevisível aumento de mobilizações, pedem-lhes que evitem a ocorrência de incidentes.

Mas entre os agentes da corporação cresce a preocupação de se verem obrigados a investir contra manifestantes, como aconteceu com os policiais nacionais e os guardas civis em 1º de outubro.

"Não afetará à maior parte dos agentes, mas quem vai notar mais o impacto serão os antidistúrbios [tropa de choque]. Na melhor das hipóteses, onde antes diziam 'aguentem', agora lhes dirão 'ataquem'", explicou um comandante intermediário sob condição de ter sua identidade preservada.

"Se começar a haver ordens extremas para a polícia enfrentar a população, muitos agentes terão dúvidas em aplicá-las ou não", explica Manel.

Mas isto pode implicar-lhes sanções salariais, inabilitações ou inclusive condenações criminais, razão pela qual o sindicato majoritário da corporação recomenda seguir as instruções recebidas.

"A desobediência às leis nunca é uma opção para a Polícia. Não temos margem para desobedecer às leis porque então não podemos exigir ao restante dos cidadãos que as cumpram", afirma Valentín Anadón, secretário-geral do sindicato SAP-FEPOL.

"No fim, os companheiros acatarão", assegura Vicente. "Inclusive os que são muito independentistas, se tocarem em seu salário ou seu trabalho, tem mulher e filhos, na hora da verdade não há outra opção que obedecer".

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