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Deslocados pelo conflito na Colômbia agora enfrentam violência do narcotráfico

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Jovem caminha na City 2000
Imagem: Raul Arboleda/ AFP

Florence Panoussian

Em Tumaco (Colômbia)

23/11/2017 04h00

Em Tumaco, os tiros entram zunindo nas casas simples. As tábulas, perfuradas por projéteis, lembram aos deslocados do conflito que a violência e o terror permanecem, pelo menos neste porto situado no Pacífico colombiano.

Uma vez mais os que fugiram para salvar suas vidas se veem em meio ao fogo cruzado. As quadrilhas de narcotraficantes disputam o território que antes era controlado pela guerrilha das Farc, que há um ano assinou a paz com o governo e agora é um partido político.

"Nos jogamos no chão, o bebê gritava de pânico", lembra Marcia Perea, de 47 anos. Os tiros destruíram as cadeiras de plástico e algumas ficaram no batente da porta que separa a sala do quarto.

Assim como os demais moradores da Cidade 2000, esta avó de 50 anos balbucia ao falar dos tiroteios que semeiam o pânico em vários setores de Tumaco, município de 208.000 habitantes castigado pelo desemprego.

A maioria dos vizinhos encontrou refúgio neste bairro, após fugir do confronto que, por meio século, dessangrou a Colômbia, e que deixa sete milhões de deslocados.

Interligadas por um enxame de pontes igualmente precárias, suas casas se erguem sobre as águas putrefatas do lamaçal.

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Moradora em sua casa na City 2000, uma favela que é lar de pessoas deslocadas, em Tumaco
Imagem: Raul Arboleda/ AFP

"Tumaco é um dos epicentros do conflito que persiste na Colômbia", disse Christian Visnes, diretor do Centro Norueguês para os Refugiados (NRC), uma ONG que trabalha na Colômbia desde 1991.

Fronteiriço com o Equador, este porto do departamento de Nariño é uma das rotas mais cobiçadas pelo narcotráfico. Dali saem os carregamentos de drogas para a América Central e os Estados Unidos em lanchas rápidas ou submersíveis artesanais.

A mata fechada e os manguezais dificultam o controle das autoridades, que no final de outubro anunciaram uma mobilização de 9.000 efetivos militares e policiais para combater dissidentes das Farc, entre outros grupos.

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Criança sentada em banco em City 2000, em Tumaco, Colômbia
Imagem: Raul Arboleda/ AFP

Mortes em alta

Tumaco não é só um corredor estratégico de máfias, mas também concentra a maior superfície de hectares cultivadas com a coca, matéria-prima da cocaína, da qual a Colômbia é o maior provedor mundial. Neste ponto se encadeia todo o negócio do narcotráfico.

A paz com as Farc significou uma "diminuição dos ataques com granada", característicos da época em que esta guerrilha atuava na região, admite Jenny López, representante da Defensoria do Povo, entidade que zela pelos direitos humanos.

No entanto, a tranquilidade durou menos que o esperado. Agora, "o que nos preocupa muito é o aumento dos homicídios", enfatiza. Após a saída dos rebeldes, chegaram outras organizações ilegais que estão gerando violência.

O diretor da ONG norueguesa avalia que no dia de hoje operam "até 15 grupos".

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Mulher carrega um coelho em City 2000
Imagem: Raul Arboleda/ AFP

Entre outras atrocidades, López lembra o recente assassinato de um homem em Tumaco. "Cortaram sua cabeça, seus braços, praticamente o esquartejaram e o deixaram jogado".

Neste litoral e suas duas pequenas ilhas existem "fronteiras invisíveis", territórios demarcados pelos grupos armados. Depois de certa hora, ninguém se atreve a circular por certos bairros.

Em Cidade 2000, por exemplo, estourou em outubro um enfrentamento entre dois bandos que durou todo o fim de semana e deslocou 320 famílias, segundo a defensora.

No muro de outra casa, próxima ao local poeirento onde as crianças brincam, ficaram as marcas da troca de tiros.

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Mulher observa movimento da janela de casa
Imagem: Raul Arboleda/ AFP

Detonador trágico

Entre janeiro e outubro, pelo menos 2.665 pessoas foram forçadas a fugir de casa em Tumaco, informou a ONG norueguesa.

Sem um refúgio adequado, estes deslocados, alguns de zonas rurais e outros de um bairro a outro, chegam a "setores de invasão, onde também há agentes armados", comenta a defensora local do povo. O medo não os deixa.

Arnulfo Mina, vigário da diocese a que Tumaco pertence, denuncia dezenas de mortos no correr do ano. Só no ano passado, o número de homicídios em Tumaco triplicou com relação à média nacional: 152 vítimas, que representam uma taxa de 74,5 por 100.000 habitantes.

"A coca é o detonador de toda essa problemática", sustenta o religioso, reforçando que o Pacífico historicamente é uma "região marginalizada" do resto do país.

E antecipa "novas dificuldades se o governo não tiver um plano agressivo de investimento social" em Tumaco, onde quase a metade da população está na pobreza e muitos nem sequer contam com água potável.

Conhecida como a "pérola do Pacífico" por suas praias de areia escura e deslumbrantes paisagens costeiras, Tumaco parece um paraíso às portas do inferno. Ou talvez seja o contrário.

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