Itália traça um retrato preocupante do poder da máfia

Milão, 24 Nov 2017 (AFP) - Uma semana depois da morte de Toto Riina, chefão histórico da Cosa Nostra, as autoridades italianas traçaram um retrato preocupante do poder da máfia, com seus tentáculos no sul da península, suas ramificações no norte e seu avanço no mundo virtual.

"A máfia não ganhou, mas também não perdeu", reconheceu o ministro da Justiça, Andrea Orlando, ao iniciar a reunião anual de dois dias com mais de 200 especialistas dedicada aos "estados gerais da luta contra a máfia" na Itália.

"Contamos há anos com a legislação antimáfia mais avançada (...), lutamos sem cessar contra a máfia há 25 anos, como é possível que as máfias ainda sejam tão poderosas?", questionou Franco Roberti, procurador nacional antimáfia até a semana passada.

Apesar dos milhares de mafiosos detidos, do confisco, em 20 anos, de cerca de 30 bilhões de euros, a 'Ndrangheta (Calábria), a Camorra (Nápoles), a Cosa Nostra (Sicília) e a Sacra Corona Unita (Puglia) continuam prosperando e se expandindo, tanto na Itália como no exterior.

"Multiplicam o dinheiro em proporções incríveis, e esse dinheiro acaba entrando na nossa economia, transformando-se em negócios, atividades econômicas, com frequência administradas por pessoas honestas e respeitáveis", disse Federico Cafiero De Raho, que substituiu Roberti.

"Chegam com seus negócios e acabam se apoderando do mercado, condicionando o setor. Isso acontece em todas as regiões do centro e norte da Itália. No sul, já ocuparam todo o território", resumiu.

A próspera província de Milão é a terceira região do país em que mais bens da máfia foram confiscados, atrás de Palermo e Nápoles.

"É provável que em pouco anos, Lombardia (região de Milão) e Lácio (região de Roma) ultrapassem a Calábria e Puglia e a infiltração da máfia chegue a níveis tão altos como na Sicília e na Campânia (a região de Nápoles)", segundo o relatório de um dos grupos de trabalho.

- A máfia do Bitcoin -Além do tráfico de drogas em grande escala, as máfias são donas de supermercados, restaurantes, empresas de construção, administram os setores agroalimentar e do esporte, o tráfico de migrantes e a gestão do lixo, sendo um poderosa organização econômica e criminosa.

Depois do período violento marcado por assassinatos sangrentos nos anos 1980 e 1990, agora as máfias matam muito menos e optam pela discrição, empregam ameaças e métodos mais sutis de pressão, como a corrupção, armas que se mostraram mais eficazes.

As máfias "pararam de falar com as armas e os explosivos" e agem de um forma "mais insidiosa", afirma Pietro Grasso, magistrado antimáfia e ex-presidente do Senado.

"A máfia resiste, não por acidente, mas por razões mais profundas, que refletem a crise social e política" da sociedade, indica Orlando.

"A máfia é um poder que (...) joga com o declínio dos Estados nacionais, o enfraquecimento dos corpos sociais e a dificuldade dos mecanismos de inclusão social. Infiltra-se pelas rachaduras e aproveita as mais mínimas fragilidades para se fortalecer", disse o ministro.

"Nossos inimigos são entidades reativas, dinâmicas e proteicas que sabem como se adaptar às mudanças da sociedade e da economia", concluiu.

Passaram de enviar "pizzini", ordens codificadas escritas pelo 'capo' em pequenos pedaços de papel, a usar os bitcoins, a moeda digital através da qual lavam grandes quantidades de dinheiro.

"O ciberespaço não conta com um sistema regulamentado nem de controles. Assistimos a formas ultrassofisticadas de crimes cibernéticos", advertiu Alessandro Pansa, ex-chefe da polícia italiana e atual responsável pelo setor de informação segura do governo.

"A 'máfia bitcoin' substituirá a que conhecemos, mas não deixará de ser uma máfia", indicou.

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