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A esquerda que seduz na Colômbia, da praça pública às redes

24/05/2018 16h16

Bogotá, 24 Mai 2018 (AFP) - Gustavo Petro discursa há três horas e a praça é um silêncio só. A promessa de mudança é onipresente. Nunca antes um ex-guerrilheiro havia seduzido tanto na Colômbia, um país governado historicamente pela direita.

Ex-prefeito de Bogotá, ex-rebelde dos "mocinhos", daqueles que falam mais e atiram menos, Petro conseguiu o que parecia impensável: que a esquerda chegasse a uma eleição com chances de governar este país de 49 milhões de habitantes e tradicional aliado dos Estados Unidos.

Foi um "péssimo guerrilheiro em armas, mas um bom guerrilheiro político", afirmou Juan Montaña, de 70 anos, em conversa com a AFP.

"Juancho" acompanhou o candidato do movimento Colômbia Humana em sua aventura insurgente nos anos oitenta.

Na quinta-feira, 17 de maio, agitou-se com a multidão com as promessas de reforma profunda e equidade de Petro no palco instalado na Praça de Bolívar, em Bogotá.

Aos 58 anos, o leitor voraz da obra de Gabriel García Márquez e também ex-senador, aparece em segundo nas intenções de voto para o primeiro turno no domingo.

Se as pesquisas não errarem, disputará o segundo turno em 17 de junho com o direitista Iván Duque, apadrinhado pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010).

Em um dos três países mais desiguais da América, o discurso antissistema de Petro e seu posicionamento em favor dos pobres fala alto depois do histórico acordo de paz que desarmou e transformou em partido a ex-guerrilha das FARC.

- "Sem terror" - Dias antes de lotar a praça, Petro defendeu sua proposta de mudança em uma reunião incomum com a imprensa. "A sociedade se livrou do medo que a violência e o terror produzem, e sua expressão política é o que vemos hoje, que preenche praças e reúne multidões", disse ele à AFP.

Petro, que cresceu no Caribe colombiano, gosta de conversar, raramente perde a paciência em público e quase sempre usa jeans e camisas largas, embora não rejeite a gravata.

Montaña lembra "Gustavo" como o homem das ideias. "Nós éramos os filhos da puta que atiravam e ele fazia o que era importante".

Com 17 anos, Petro entrou para o Movimento 19 de Abril (M-19). Por coincidência, esse economista nasceu no mesmo dia e mês, mas em 1960.

O M-19 surgiu como um grupo rebelde nacionalista. Naquela época, jovens esquerdistas de classe média urbana que questionavam o marxismo pegaram em armas depois de denunciar a fraude eleitoral de 1970 em favor do tradicional Partido Conservador.

Vinte anos depois, assinou a paz, depôs os fuzis e ajudou a redigir a Constituição de princípios liberais que existe desde 1991.

Hoje, Petro resgata o fantasma de supostas fraudes nas eleições de domingo.

- Amar e odiar Petro -O aspirante do Colômbia Humana, que promove a política do amor contra o ódio da violência, polariza.

Seus oponentes lhe acusam de um "castrochavismo" que ele nega. Com este jogo de palavras, alertam para o "risco" de que, sob Petro, a Colômbia se transforme na Venezuela vizinha. Outros o acusam de incitar um conflito de classes anacrônico.

Mesmo assim, Petro, que teve uma passagem controversa pela prefeitura de Bogotá (2012-2015), onde ganhou a reputação de mau administrador e autoritário, é uma opção para jovens e classes populares.

Atraiu os primeiros com iniciativas como substituir os combustíveis fósseis por limpos, não aprisionar os usuários de drogas, mas oferecer tratamento, e apoiar a adoção de casais homossexuais.

"Estamos com ele por convicção, não queremos repetir o que nossos pais viveram: violência e desigualdade", diz John Durán, um comunicador social de 27 anos que o ouve atentamente na praça.

Para alguns jovens, Petro é a melhor alternativa dentro de uma faixa que vai da direita de Duque ao liberalismo do ex-negociador da paz Humberto De La Calle, passando pelo centro com o matemático e ex-governador Sergio Fajardo.

Dos seis candidatos, o esquerdista é quem mais tem seguidores no Facebook e no Twitter, e o que melhor combina as antigas artes da oratória com a gestão das redes sociais.

Robert Karl, acadêmico de Princeton e autor do livro "Paz Esquecida", acredita que o fenômeno de Petro é único em comparação com o destino de Timochenko, o líder das FARC que desistiu de sua campanha presidencial antes do ressonante resultados obtidos pelo partido agora de esquerda nas eleições legislativas de março.

"Seria impossível imaginar Timochenko, um guerrilheiro rural, enchendo as praças como Petro. Ele é um ex-guerrilheiro, mas também é ex-prefeito de Bogotá", ressalta à AFP.

No entanto, o esquerdista alimenta dúvidas, mesmo entre os seguidores.

"Ele é brilhante com a palavra. Lota as praças, mas seu problema é que não escuta, e fraco diante da lisonja. Tem o ego como o de Uribe", diz seu ex-parceiro de armas.

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