Elementos cruciais do segundo turno da Colômbia

Bogotá, 28 Mai 2018 (AFP) - Pela primeira vez, a Colômbia deverá eleger um presidente em um segundo turno de direita contra esquerda.

A três semanas da crucial definição, estes serão os fatores que entrarão em jogo, após a votação de domingo (27) que teve como vencedores o candidato da direita, Iván Duque (39,1%), e o ex-guerrilheiro Gustavo Petro (25%).

1. O poder de Uribe O ex-presidente Álvaro Uribe (2002-10) voltou a demonstrar seu poder e popularidade no país que ajudou a pacificar com linha-dura, apesar das investigações preliminares que ele enfrenta por corrupção, interceptação ilegal de comunicações, vínculos com paramilitares, ou manipulação de testemunhas.

Seu herdeiro político, um ex-senador de 41 anos sem uma grande trajetória pública, obteve uma importante vantagem sobre Petro, mas poucos questionam que se tratou de uma nova vitória de Uribe.

O resultado "mostra a vigência que o uribismo ainda tem", disse Andrés Macías, da Universidade Externado.

Senador mais votado nas últimas duas eleições legislativas, Uribe conseguiu estar novamente no centro do debate presidencial.

Em 2010, apoiou o eleito Juan Manuel Santos, mas depois se tornou seu maior adversário por conta de sua política de paz. Quatro anos mais tarde, ganhou o primeiro turno com Óscar Iván Zuluaga, mas caiu no segundo contra Santos.

Agora, está a poucos dias de seu afilhado político retomar o poder para a direita conservadora contrária ao pacto de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

2. Desafio para a esquerdaPetro conseguiu colocar a esquerda em uma briga que, historicamente, tem sido entre direitas.

De 58 anos, o ex-guerrilheiro do dissolvido M-19, conseguiu 4,8 milhões de votos (25%). Até o domingo, a maior votação de um esquerdista havia sido a do falecido Carlos Gaviria, em 2006 (2,6 milhões). Nessa eleição, Uribe venceu no primeiro turno.

"Na última etapa da campanha, houve forças que apostaram no (ex-governador de centro Sergio) Fajardo para manchar a candidatura de Petro e, se essa postura anti-Petro se mantiver, a esquerda não tem nada a fazer", afirmou Medófilo Medina, da Universidad Nacional.

Petro conseguiu se destacar na disputa, após o acordo com a ex-guerrilha Farc, cuja frustrada e violenta luta desacreditou a esquerda por décadas.

O ex-guerrilheiro ganhou em regiões de maioria negra e indígena.

Petro arrasta, porém, uma imagem negativa por suas simpatias do passado com o chavismo, impopular na Colômbia. Nesta campanha, manteve-se afastado do governo de Nicolás Maduro.

"Tem gente que tem um ódio muito real dele. Petro tem 44% de opinião negativa, enquanto Duque tem apenas 28% de imagem desfavorável", disse Nicolás Liendo, da Universidade Sergio Arboleda.

3. Leilão de aliançasPara 17 de junho, as alianças ganharão protagonismo.

Duque se impôs com sua vice, a ex-ministra conservadora Marta Lucía Ramírez, e graças ao apoio de partidos evangélicos e um setor ultraconservador.

Duque abriu a coalizão para a chegada de Germán Vargas Lleras, ex-vice-presidente de Santos e quarto lugar na corrida presidencial, com 7,2% dos votos. Seu partido Mudança Radical ficou como a segunda força parlamentar, após as legislativas de março.

O medo provocado por Petro deve atrair para a candidatura uribista setores conservadores e liberais, enquanto o ex-guerrilheiro espera ficar com o dividido centro.

Nem Fajardo (em terceiro, com 23,7%) nem o ex-negociador de paz Humberto de la Calle (2,6%) garantiram seu apoio ao ex-guerrilheiro. Antes do primeiro turno, ambos não se mostraram favoráveis a uma união.

"A aliança que Duque vai buscar muito rapidamente vai ser a de Vargas Lleras, enquanto Fajardo e De la Calle serão difíceis de reunir", avalia Sebastián Bitar, da Universidade de Los Andes.

Petro também pode convocar os abstencionistas, que caíram de 59% para 46% em relação ao primeiro turno presidencial de 2014.

"É preciso ver se é ainda possível mover esse voto de abstenção" para Petro, completa Medina.

4. O fator pazA implementação da paz com as Farc ainda é um ponto em aberto. E não apenas pelas denúncias dos ex-guerrilheiros sobre descumprimentos do governo, mas também pela firme intenção de Duque de modificar o que foi firmado em 2016.

Sua promessa encontra eco na insatisfação exposta no plebiscito desse ano, quando o "não" venceu por estreita margem na consulta popular sobre o pacto.

Santos inseriu mudanças e também levou adiante os compromissos que permitiram o desarmamento de cerca de 7.000 combatentes e evitaram pelo menos 3.000 mortes ao ano.

Duque quer que os rebeldes envolvidos em crimes atrozes passem algum tempo na prisão e sejam considerados inabilitados politicamente. O que "ele propõe modificar (é) uma base substancial do acordo de paz", ressalta Liendo.

Para isso, o Congresso será fundamental. Na Casa, com os votos direitistas, Duque teria esse apoio praticamente garantido.

O Parlamento ainda deve regulamentar o sistema que julgará guerrilheiros e militares responsáveis por crimes cometidos durante o conflito, e promover reformas rurais, consideradas o cerne do acordo.

Duque também advertiu que condicionará os diálogos com o Exército de Libertação Nacional (ELN) - última guerrilha do país - a que aconteçam em Cuba.

Já Petro disse que honrará os compromissos que vão garantir que os ex-guerrilheiros que indenizarem as vítimas recebam penas alternativas de prisão e possam, inclusive, chegar ao Congresso.

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