Topo

Ucrânia sob pressão para justificar falso assassinato de jornalista russo

Vasily Maximov/AFP Photo
30.mai.2018 - Homenagem em Moscou ao jornalista russo Arakady Babchenko que teve a morte forjada na Ucrânia Imagem: Vasily Maximov/AFP Photo

Em Kiev

31/05/2018 10h55

Após o alívio, as perguntas. As autoridades ucranianas eram alvos de questionamentos e ceticismo após a encenação do assassinato do jornalista russo Arkadi Babchenko, um crítico do Kremlin.

O ressurgimento na quarta-feira, durante uma entrevista coletiva-espetáculo, do experiente repórter de guerra, que na terça-feira havia sido considerado morto por três tiros nas costas na entrada de sua casa em Kiev, onde vive exilado, foi inicialmente recebido com alegria por seus colegas reunidos na praça central da capital ucraniana.

Mas provocou a revolta imediata do governo da Rússia, que havia sido acusado pelas autoridades ucranianas, e que rapidamente denunciou uma "provocação". Organizações internacionais de proteção aos jornalistas criticaram o método usado.

Arkadi Babchenko explicou na quarta-feira à imprensa que preparou durante semanas com o serviço especial ucraniano a encenação, com o objetivo de desbaratar uma tentativa de assassinato. E nesta quinta-feira o jornalista rebateu as críticas.

"Desejo a todos os defensores da grande moral que se coloquem em tal situação, respeitando a moral mas morrendo com a cabeça erguida por não terem enganado a imprensa", escreveu em sua página do Facebook.

Um conselheiro do ministro do Interior, o deputado Anton Guerachenko, afirmou que a encenação era necessária "para remontar e documentar toda a cadeia, do assassino contratado até os que o contrataram", ao persuadi-los que "o contrato havia sido cumprido".

Veja também: 


"Sherlock Holmes utilizou com sucesso o método da encenação de sua própria morte para elucidar de modo eficaz crimes complicados", completou.

O presidente ucraniano Petro Poroshenko se reuniu durante a noite com Babchenko e o agradeceu por "ter impedido, com os serviços de segurança ucranianos, um cenário com o objetivo de desestabilizar a situação na Ucrânia", de acordo com um vídeo divulgado pelo governo.

O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) afirmou que a família estava a par da operação.

Manobra necessária?

O diretor do SBU, Vassyl Grytsak, afirmou que um ucraniano recrutado pelos serviços de segurança da Rússia foi detido e apresentado como o "organizador". Mas as autoridades não divulgaram sua identidade.

O homem deveria planejar depois os assassinatos de outras 30 pessoas, essencialmente russos exilados na Ucrânia, de acordo com Grytsak.

Babchenko participou nas duas guerras da Chechênia como soldado, antes de virar um jornalista muito crítico ao Kremlin. Ele contou suas experiências nos conflitos nesta república russa do Cáucaso no livro "A cor da guerra".

Depois de viajar ao leste da Ucrânia, onde o conflito entre o exército ucraniano e os separatistas pró-Rússia provocou mais de 10.000 mortes em quatro anos, denunciou o papel de Moscou na guerra, apoiando a tese de Kiev e dos ocidentais de que Moscou apoia militarmente os rebeldes, o que a Rússia nega.

Babchenko deixou a Rússia em fevereiro de 2017 denunciando uma "campanha espantosa" de "assédio". A princípio viveu na República Tcheca e em Israel, antes de se instalar em Kiev, onde participa em um programa de televisão.

O anúncio da falsa morte aconteceu menos de dois anos depois do assassinato do jornalista russo-bielorrusso Pavel Cheremet, cujo automóvel explodiu em pleno centro de Kiev.

Em março de 2017, um ex-deputado russo refugiado na Ucrânia foi morto em pleno centro da capital ucraniana.

Babchenko se dizia ameaçado pela Rússia por ter denunciado o papel de Moscou no conflito do leste da Ucrânia.

A União Europeia (UE) se mostrou aliviada, mas afirmou que espera mais detalhes sobre a operação.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) condenou uma simulação "lamentável" e uma "nova etapa na guerra de informação entre Kiev e Moscou.

"Era necessário recorrer a tal manobra? Nada justifica encenar a morte de um jornalista", criticou o secretário-geral da organização, Christophe Deloire.