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Internacional

Francês afirma sua inocência no primeiro julgamento #MeToo, na Suécia

19/09/2018 16h47

Estocolmo, 19 Set 2018 (AFP) - Um francês no banco dos réus do primeiro grande julgamento #MeToo, Jean-Claude Arnault, estrela em desgraça da elite cultural sueca, se declarou inocente nesta quarta-feira em Estocolmo na abertura de seu processo por estuprar uma jovem em 2011.

Este escândalo foi revelado em novembro de 2017, um mês depois das acusações de estupros e agressões sexuais contra o produtor de cinema americano Harvey Weinstein.

O escândalo provocou um terremoto na Academia Sueca, instituição com a qual Arnault, casado com uma de suas integrantes, mantinha estreitos vínculos artísticos e financeiros, e levou ao adiamento do anúncio do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 para 2019.

Com o rosto sombrio, Arnault não fez nenhuma declaração ao chegar ao tribunal.

"Ele rejeita as acusações", declarou seu advogado, Björn Hurtig, cujo cliente pode ser condenado a uma pena de entre dois e seis anos de prisão.

Como acontece com os casos de agressões sexuais, o tribunal determinou que a audiência aconteça a portas fechadas, sem a presença de jornalistas.

A vítima dos dois estupros, que não teve a identidade revelada, não compareceu e foi representada por Elisabeth Massi Fritz, advogada sueca especializada na defesa das mulheres.

"Estou satisfeita, não podemos sonhar com um depoimento melhor de uma parte civil", destacou ao final da audiência.

A audiência de quinta-feira será dedicada a ouvir declarações de testemunhas indiretas, que escutaram confidências da demandante.

"Sempre é difícil provar os fatos que ocorreram entre duas pessoas em um quarto fechado (...) e que nos contaram sete anos depois", advertiu a advogada.

- 'Medo intenso' -Jean-Claude Arnault, de 72 anos, era o diretor artístico do Foro, um clube muito seleto que ele criou em 1989, frequentado por editores, escritores, dramaturgos e músicos proeminentes, mas também mulheres jovens.

Em novembro de 2017, o jornal Dagens Nyheter publicou os depoimentos anônimos de 18 mulheres que afirmaram ter sido vítimas de agressão ou assédio por Arnault, cujo comportamento era bem conhecido.

Várias denúncias foram arquivadas por falta de provas ou por prescrição, mas a promotoria descobriu que tinha provas suficientes sobre um caso de 2011.

Em 5 de outubro de 2011, em um apartamento de Estocolmo, Arnault abusou de uma jovem quando ela se encontrava em "estado de vulnerabilidade e de medo intenso", o que a impediu de defender-se, afirma o documento de acusação consultado pela AFP.

Os atos teriam se repetido na madrugada de 2 para 3 de dezembro de 2011, no mesmo apartamento, quando a vítima dormia.

Mas vários especialistas sugeriram a hipótese de que o acusado seja absolvido pelo benefício da dúvida.

- Academia em ruínas -Uma investigação interna demonstrou que várias acadêmicas, ou esposas e filhas de acadêmicos, também sofreram com a "intimidade não desejada" e os comportamentos "inapropriados" do acusado.

De acordo com o jornal Svenska Dagbladet, Jean-Claude Arnault nasceu em 1946 em Marselha (sul da França), filho de refugiados russos. Ele teria se mudado para a Suécia nos anos 1960 para estudar Fotografia.

Arnault se gabava de ser o "19º membro" da Academia. De acordo com depoimentos, ele anunciava o nome dos futuros vencedores a seus amigos.

O caso revelou um funcionamento opaco da Academia - uma rica instituição privada fundada em 1786 com base no modelo da Academia francesa -, assim como seus conflitos de interesse, jogos de influência e a cultura do silêncio que reinava no local.

Oito acadêmicos renunciaram de forma definitiva ou temporária, incluindo a secretária perpétua, Sara Danius. A atribuição do Nobel de Literatura de 2018 foi adiada para 2019, enquanto a instituição, em ruínas, tenta uma difícil reconstrução.

A Academia deve escolher em breve os novos integrantes, que decidirão os vencedores do Nobel de 2018 e 2019.

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