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Irmãs sauditas em Hong Kong denunciam violência de homens em sua família

23/02/2019 18h08

Hong Kong, 23 Fev 2019 (AFP) - Duas jovens irmãs sauditas escondidas em Hong Kong alegaram ter sido espancadas por seu pai e irmãos no reino, então decidiram fugir, embora tenham medo de serem devolvidas à força para seu país.

As duas, com 18 e 20 anos, chegaram em Hong Kong em setembro 2018 depois que deixaram a família que passava férias no Sri Lanka. O plano era embarcar num voo para a Austrália.

As irmãs, que adotaram o pseudônimo de Reem e Rawan, anunciaram em um comunicado divulgado por seu advogado que decidiram renunciar ao Islã, e, portanto, temem ser submetidas à pena de morte se forem forçadas a voltar para a Arábia Saudita.

"Meus irmãos começaram a me bater [...] Meu pai não os impediu, ele acredita que é isso que faz deles homens", contou Reem à AFP.

Até um irmão de 10 anos participou das agressões e começou a monitorá-las para que se vestissem adequadamente.

"Ele era apenas um menino, mas ele aprendeu tudo isso com seus irmãos e seu pai, assim como com todos os homens a sua volta. É assim que eles pensam que um homem devem se comportar em relação a uma mulher", diz Reem.

As duas irmãs planejaram sua fuga por dois anos e esperaram que Rawan completasse 18 anos de idade, a partir do qual ela poderia pedir um visto de turista na Austrália.

A oportunidade foi apresentada por ocasião da viagem da família em setembro passado ao Sri Lanka. Enquanto seus pais dormiam, as irmãs pegaram seus passaportes e embarcaram em um vôo em Colombo com destino a Hong Kong.

No entanto, autoridades sauditas as interceptaram no aeroporto, o que fez com que elas tivessem que se esconder por toda Hong Kong.

As duas irmãs suspeitam que seu pai tenha rastreado seus movimentos usando o Absher, um aplicativo polêmico usado pelos serviços sauditas, mas que também permite que homens controlem parentes do sexo feminino.

Elas acreditam que um tio, com contatos com o governo, poderia ter ajudado a mobilizar o pessoal consular saudita em Hong Kong para deter o voo.

A polícia de Hong Kong tentou colocá-las em contato com as autoridades da embaixada saudita ou parentes do sexo masculino. Por isso, tiveram que mudar seu esconderijo 13 vezes nos últimos meses.

As autoridades de imigração de Hong Kong disseram que "não comentam casos individuais".

O consulado saudita em Hong Kong também não respondeu ao pedido para comentar o caso.

"Abandonamos o nosso lar para garantir a nossa segurança. Esperamos receber asilo em um país que reconheça os direitos das mulheres e que nos trate como iguais", observaram as irmãs no comunicado divulgado pelo advogado Michael Vidler.

Este novo caso surge um mês após a saga e dramática fuga da jovem saudita Rafah Mohammed al Qunun, que alegava ser vítima de uma família abusiva e que recebeu o status de refugiada no Canadá.

No caso das irmãs Rawan e Reem, o Justice Centre Hong Kong, um grupo que defende os direitos dos migrantes, apontou que elas também tentam escapar da "violência de gênero".

De acordo com seu testemunho, as duas foram interceptadas por um saudita desconhecido no aeroporto de Hong Kong, que levou seus passaportes e tentou persuadi-las a embarcar de volta para a Arábia Saudita.

Investigações subsequentes revelaram que o homem que as interceptou é o cônsul geral da Arábia Saudita em Hong Kong. Segundo o advogado, o voo que as irmãs embarcariam para a Austrália foi cancelado.

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