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Trump ignora ameaça de impeachment para receber presidente turco na Casa Branca

O presidente Donald Trump, ao lado do presidente turco Tayyp Erdogan, em Washington -  MANDEL NGAN / AFP
O presidente Donald Trump, ao lado do presidente turco Tayyp Erdogan, em Washington Imagem: MANDEL NGAN / AFP

13/11/2019 18h42

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu nesta quarta-feira (13), na Casa Branca, seu contraparte turco, Recep Tayyip Erdogan, uma visita que coincide com o início das audiências abertas e televisionadas da investigação com vistas a submeter o republicano a um processo de impeachment.

Trump disse ser um "grande admirador" de Erdogan, apesar da oposição de muitos no Congresso americano a recebê-lo.

"A Turquia, como todos sabem, é um aliado da Otan e um parceiro estratégico dos Estados Unidos", disse Trump no início de uma coletiva de imprensa conjunta, celebrada após a reunião. "Sou um grande admirador do presidente" turco, acrescentou.

Antes do encontro com Erdogan, que tinha na agenda temas como a Síria, o destino dos prisioneiros jihadistas e inclusive da Otan, o presidente americano disse estar "ocupado demais" para acompanhar a transmissão do que ocorre no Capitólio, sede do Legislativo nos Estados Unidos. "É uma caça às bruxas", acrescentou.

Ao lado de Erdogan no Salão Oval, Trump disse que ele e o líder turco são "amigos há muito tempo", uma declaração que contrasta com o tratamento que tem lhe dispensado nas últimas semanas e que tem sido, no mínimo, caótico, suscitando questionamentos sobre a estratégia dos Estados Unidos na Síria.

Após o anúncio de Trump sobre a retirada das tropas americanas mobilizadas no noroeste sírio, Ancara lançou em 9 de outubro uma ofensiva contra as forças curdas, aliadas da coalizão internacional que luta contra o jihadismo.

"Não seja um cara duro, não seja bobo", recomendou Trump em uma carta surpreendente ao colega turco, após o lançamento da operação.

Fortemente criticado, inclusive em seu próprio campo, endureceu em seguida sua posição e ameaçou "destruir" a economia turca, autorizando sanções contra Ancara, que foram suspensas após um acordo alcançado em meados de outubro.

Mas o abandono das forças curdas e o espaço deixado para a Rússia no conflito sírio causaram indignação em muitos legisladores, tanto democratas quanto republicanos.

"Pensamos que particularmente é um mau momento para receber o presidente Erdogan nos Estados Unidos, o exortamos a retirar o convite", escreveram congressistas dos dois lados em carta publicada nesta segunda.

"Devemos falar com a Turquia sobre a Síria", respondeu um alto funcionário do Departamento de Estado sob a condição do anonimato. "Não é necessário ver estas visitas como recompensas, mas como ferramentas diplomáticas".

As reticências de Trump e a ofensiva turca geraram também tensões dentro da Otan - da qual a Turquia é membro -, que teme um ressurgimento do grupo jihadista Estado Islâmico.

O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou inclusive a avaliar que a Otan se encontra em estado de "morte cerebral", pela falta de coordenação entre Europa e Estados Unidos e devido às ações agressivas na Síria por parte da Turquia - declarações que Erdogan considerou "inaceitáveis" nesta quarta.

- Mísseis russos -O encontro entre os dois dirigentes ocorre na véspera de uma reunião em Washington de ministros da coalizão internacional antijihadista, solicitada em caráter de urgência por Paris após o anúncio de retirada dos soldados americanos.

Mas para além do tema sírio, as fontes de atrito são muitas.

Apesar das reivindicações de Washington, a Turquia comprou sistemas de mísseis antiaéreos S-400 da Rússia. Em resposta, os Estados Unidos afastaram a Turquia do programa de desenvolvimento do avião de combate americano F-35, apesar dos importantes investimentos de Ancara nesse projeto.

"Estamos muito incomodados", afirmou no domingo à rede CBS o conselheiro de segurança nacional de Trump, Robert O'Brien. "Não há lugar dentro da Otan para compras importantes de armamento da Rússia".

Ancara, por sua vez, deixou claro sua inconformidade após a votação no fim de outubro de um texto na Câmara de Representantes dos Estados Unidos, que qualificou de "genocídio" o massacre de centenas de milhares de armênios, um termo rechaçado pela Turquia.

A última visita de Erdogan a Washington, em maio de 2017, tinha sido marcada por violentos confrontos entre seus serviços de segurança e manifestantes pró-curdos em um bairro de Washington, em frente à residência do embaixador da Turquia.

A legisladora republicana Liz Cheney dirigiu uma mensagem ao chefe da diplomacia, Mike Pompeo, pedindo-lhe para impedir o acesso aos Estados Unidos a todas as pessoas que viajam com o presidente turco e que tinham participado do "ataque a cidadãos americanos que se manifestavam pacificamente".

"O uso da violência por parte do regime de Erdogan em qualquer lugar é desumano e inaceitável", escreveu.

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