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"Se pararmos, não comemos", dizem em uma Venezuela em quarentena

Da AFP, em Caracas

23/03/2020 13h38

"Se pararmos, não comemos", diz Alexis em Caracas em quarentena.

Trancar-se para se proteger do novo coronavírus é muito caro para os bolsos vazios de muitos venezuelanos.

Ficar em casa é um "luxo" que Alexis Torres, pai de duas meninas de 10 e 14 anos, não pode fazer com a economia da Venezuela devastada pela hiperinflação e seis anos consecutivos de recessão.

"Não posso me dar ao luxo de parar porque, se pararmos, estamos fritos", disse o motorista de táxi de 35 anos à AFP enquanto espera por clientes em um canto de Caracas, cidade que completa uma semana semiparalisada pela quarentena ordenada pelo governo de Nicolás Maduro.

Yenny Amaya, por sua vez, vive de faxinas e não possui os 300.000 bolívares - cerca de quatro dólares - que cobra por dia.

"As pessoas me dizem: Yenny, não venha", conta à AFP de seu quarto que aluga em Casalta, uma área popular no oeste da cidade.

"Para mim é horrível. Não recebo salário (...), temos que cuidar de nós mesmos, mas o governo precisa pensar nas pessoas que são diaristas. Como é que se faz", lamenta a mulher de 46 anos.

As atividades educacionais e trabalhistas estão suspensas em toda a Venezuela, exceto em setores básicos como alimentos, saúde ou telecomunicações.

As autoridades disseram ter confirmado 77 casos de Covid-19, sem mortes, em um país com sistemas de saúde, eletricidade e água altamente deficientes.

Comida "casa por casa"

A viabilidade da quarentena dependerá do sucesso dos planos estatais de apoiar a população, enfatiza Henkel García, diretor da consultoria financeira Econometric.

No entanto, ele adverte: "uma política de ajuda da magnitude necessária requer recursos e não eles não existem".

Maduro lançou um plano especial para entregar comida "casa por casa" para sete milhões de famílias neste país de 30 milhões de habitantes.

Além disso, sem esclarecer como obteria fundos, o presidente socialista apresentou medidas de compensação no domingo.

Ele anunciou que o Estado pagará folhas de pagamento de pequenas e médias empresas por seis meses e ordenou a supressão dos pagamentos de aluguel e compromissos de crédito pelo mesmo período. Também concederá "bônus especiais".

Para o economista García, com medidas como a suspensão do pagamento de aluguéis e créditos, Maduro "está colocando o custo do plano sobre setor privado".

Yenny e Alexis, enquanto isso, se viram como podem.

A falta de transporte pode ser um obstáculo para Yenny, caso ela seja chamada para algum "bico". O metrô de Caracas, que mobiliza 2,5 milhões de pessoas diariamente, só admite como passageiros aqueles que realizam tarefas consideradas essenciais.

Alexis, com sua moto, viu a clientela diminuída, mas aguarda com uma máscara que cobre seu rosto.

"Eu tenho que sair para a guerra, sem medo, sem nada", diz.

Maduro pede compreensão. "Não há outra solução. Tenhamos consciência", afirmou.

"A questão é: como sustentar pessoas e empresas desempregadas na economia em terapia intensiva?", indaga Luis Vicente León, presidente da Datanálisis.

Financiamento

A falta de liquidez do governo, com os preços do petróleo em queda, a produção em queda livre e as sanções dos Estados Unidos, é uma ameaça.

A passagem do tempo pode desencadear tensões, estima García, "porque muitos não têm como comer".

Portanto, ele enfatiza, é vital que Maduro encontre financiamento. "Sem ajuda financeira internacional, acho muito difícil aliviar" a situação, ressalta.

E a própria crise política do país dificulta a obtenção de ajuda.

Na semana passada, Maduro pediu ao Fundo Monetário Internacional US$ 5 bilhões para combater o coronavírus. A entidade rejeitou o pedido de não se ter "clareza" sobre o "reconhecimento" do governante, cujo mandato, segundo vários países, decorre de eleições fraudulentas.

Cinquenta governos, liderados pelos Estados Unidos, reconhecem o chefe parlamentar da oposição Juan Guaidó como presidente encarregado da Venezuela; no entanto, é Maduro quem mantém o controle territorial, policial e militar e administra as finanças públicas.

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