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Bashar al-Assad, da Síria, o grande sobrevivente da Primavera Árabe

31.out.2019 - O presidente da Síria, Bashar al-Assad durante entrevista em Damasco - Sana/AFP
31.out.2019 - O presidente da Síria, Bashar al-Assad durante entrevista em Damasco Imagem: Sana/AFP

23/11/2020 14h38

Ben Ali, Mubarak e também Khadafi. No início de 2011, quando a onda de revoluções árabes varreu a região e os autocratas caíram como peças de dominó, os dias de Bashar al-Assad no comando do país também pareciam estar contados.

Mas dez anos depois - e após perder o controle de grande parte do território sírio por algum tempo - Assad permanece no poder. Contra todas as probabilidades, mesmo com o isolamento internacional e pagando o alto preço de uma guerra civil devastadora.

Parecia improvável em março de 2011, quando protestos pró-democracia começaram na Síria, que este oftalmologista formado no Reino Unido, pertencente à minoria alauita, pudesse ter a capacidade de permanecer no poder.

Mas a resistência de Assad, que nos anos 2000 substituiu seu pai, Hafez - governante da Síria por três décadas - combinou-se com fatores que trabalharam a seu favor.

O controle dos serviços de segurança, desentendimento com o Ocidente e o apoio da Rússia e do Irã salvaram-no da derrota, segundo analistas.

"Anos depois de todos terem pedido a ele para sair e pensavam que seria deposto, essas mesmas pessoas querem se reconciliar com ele", afirma o veterano político libanês, Karim Pakradouni.

"Assad sabe como jogar a longo prazo", acrescenta este político, que frequentemente atua como mediador entre o regime de Damasco e diversos partidos libaneses.

"Sem concessões"

Como começou? Manifestações por dignidade, liberdade e democracia em um dos países mais fechados da região, perto do que ocorria em outros lugares.

Tudo isso em meados de março de 2011, dois meses após o início da chamada "Primavera Árabe", que tirou do poder o tunisiano Zine el Abidine Ben Ali e o egípcio Hosni Mubarak.

Assad não hesitou e optou por reprimir violentamente os protestos, o que provocou uma militarização da contestação que gradualmente se transformou em uma guerra complexa envolvendo rebeldes, extremistas e potências regionais e internacionais.

Ao longo de dez anos, mais de 380.000 pessoas morreram, muitas delas civis, e mais da metade da população do país - que chegava a 20 milhões antes da guerra - foi deslocada ou forçada a se exilar. Além disso, dezenas de milhares de cidadãos foram presos.

A grande maioria dos sírios sobrevive hoje em meio à miséria, castigados pelo colapso econômico justificado pelo governo como sendo culpa das sanções ocidentais.

Intocável, Assad reina entre as ruínas. Hoje suas forças controlam cerca de 70% do país depois de uma impressionante sequência de vitórias, alcançadas com o apoio russo.

"Ele nunca se enfraqueceu. Ele se manteve firme sem fazer concessões", lembra Pakradouni.

Exército leal

Apesar de dezenas de milhares de deserções, o exército sírio desempenhou um papel fundamental em sua sobrevivência. "É o que fez de Assad uma exceção na chamada Primavera Árabe", ressalta o político libanês.

Na Tunísia e no Egito, o exército abandonou Zine El Abidine Ben Ali e Mubarak e, na Líbia, os principais militares deram as costas a Muamar Khadafi.

O analista Thomas Pierret assegura que "o comando do exército sírio permaneceu leal porque durante anos foi preenchido com aliados próximos a Assad e aos alauitas".

Membros dessa minoria religiosa próxima ao xiismo representavam "mais de 80% dos oficiais em 2011 e ocuparam praticamente todos os cargos de influência", disse este pesquisador do Instituto de Pesquisa e Estudos sobre o Mundo Árabe e Muçulmano.

Outro pesquisador sírio que pediu anonimato garante que a "determinação e o rigor" de Assad também foram decisivos.

"Ele conseguiu concentrar todas as decisões em suas mãos", ressalta sob anonimato.

Assad brincou com a complexa estrutura social síria: divisões entre árabes e curdos e divergências religiosas entre sunitas, seu clã alauita e outras minorias.

"Ele se aproveitou do medo do caos das pessoas e também do medo de seu próprio ambiente (alauita) para sua própria sobrevivência" caso fosse retirado do poder, acrescenta o pesquisador sírio baseado em Damasco.

E, quando os islâmicos e os jihadistas foram ganhando força, Assad se apresentou como um protetor das minorias, especialmente dos cristãos.

Uma oposição fragmentada

Mas Assad também se beneficiou da ausência de uma oposição política efetiva, acrescenta o pesquisador.

Esse ponto foi fundamental quando ele se tornou um pária aos olhos de grande parte da comunidade internacional, que impôs sanções contra seu governo.

Em 2012, mais de 100 países reconheceram a "Coalizão Nacional das Forças Revolucionárias e de Oposição" como a única representante do povo sírio. Porém, apesar dos esforços internacionais, a oposição no exílio e os rebeldes na Síria não conseguiram formar uma frente única.

No terreno, os grupos armados se dividiram à medida que o conflito progredia e Assad foi capaz de explorar a ascensão de grupos jihadistas.

Ele também aproveitou as dúvidas dos países ocidentais sobre uma ação militar neste conflito, receosos após o fiasco da intervenção na Líbia.

Em 2013, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, renunciou no último minuto a lançar uma operação militar, após um ataque com armas químicas contra duas áreas da periferia de Damasco controladas por rebeldes, que foi atribuído às forças de Assad e deixou mais de 1.400 mortos.

De acordo com Obama, tomar a decisão contrária significaria cruzar "a linha vermelha".

No entanto, isso enfraqueceu enormemente os rebeldes, que precisavam de proteção aérea para lidar com o bombardeio incessante da aviação síria e russa.

Com o passar dos anos, Assad teve certeza de que nenhum avião americano bombardearia Damasco.

O decisivo apoio russo

Um ano depois, uma coalizão liderada pelos americanos foi criada para apoiar combatentes, principalmente curdos, que lutavam contra o grupo extremista Estado Islâmico, cujos crimes, de uma violência incomum, assustaram a opinião pública internacional.

Mas em 2015, a Rússia começou a intervir no conflito sírio para apoiar Assad, tornando-se um aliado decisivo.

A Rússia "aproveitou uma oportunidade histórica para recuperar seu status de superpotência perdida, preenchendo a lacuna estratégica deixada pela relativa falta de envolvimento de Obama", acrescentou Pierret.

E as potências ocidentais, que antes pediam a saída de Assad, agora buscam uma solução política para o conflito antes das eleições presidenciais marcadas para o verão de 2021.

"O regime sírio não pode se reintegrar ao sistema internacional, mas também não pode ficar de fora", explica o pesquisador de Damasco.

"Essa equação impossível corre o risco de nos colocar em uma situação muito confusa", aponta.

Segundo o pesquisador, enquanto isso, os sírios continuarão pagando o preço.

Por sua vez, Assad, de 55 anos, já está em sua terceira década no poder e não há dúvidas de que chegará ao quarto mandato em 2021.

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