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Após 5 meses, Nunes não se acostumou a sentar na cadeira que foi de Covas

Ricardo Nunes começou há pouco a mudança para gabinete da prefeitura de São Paulo que era de Bruno Covas, morto em maio - 11.set.2020 - Reprodução/Facebook/ricardonunes.sp
Ricardo Nunes começou há pouco a mudança para gabinete da prefeitura de São Paulo que era de Bruno Covas, morto em maio Imagem: 11.set.2020 - Reprodução/Facebook/ricardonunes.sp

Pedro Venceslau

São Paulo

24/10/2021 17h54

Quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) se licenciou do cargo por 30 dias para se tratar do câncer no Hospital Sírio-Libanês, em 5 de maio, seus auxiliares eram unânimes em dizer que ele voltaria ao gabinete e terminaria o mandato. Amigos, aliados e auxiliares admitiam reservadamente que o neto de Mário Covas teria a vida abreviada por causa da doença, mas ninguém esperava que fosse em tão pouco tempo, no dia 16 daquele mês, aos 41 anos.

Cinco meses após a morte do tucano, o prefeito Ricardo Nunes (MDB), de 53 anos, ainda despacha no gabinete do vice, no 6.º andar do Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura. Somente agora, e aos poucos, Nunes iniciou a mudança para o escritório que estava sendo ocupado por Covas, no 5.º andar do prédio.

"Eu choro até hoje. Quando entrei na sala (dele), me veio a imagem legal das gargalhadas, mas também as vezes que ele não estava tão alegre. Estou usando mais o espaço da sala de reuniões para despachar", disse o emedebista ao Estadão.

A conversa com a reportagem começou nesta sala de reuniões - anexa ao gabinete -, que era usada por João Doria (PSDB), em sua breve passagem pelo cargo, para exibir fotos de sua carreira, comendas, homenagens e outras obras, como um quadro do pintor Romero Brito alusivo à cidade.

Quando assumiu a Prefeitura, Covas transformou o espaço e decorou o local com fotografias da cidade, além de algumas lembranças da carreira, como uma homenagem do Rotary Clube, que segue até hoje na estante. No gabinete do prefeito, a cama que Covas pediu para instalar ali durante a pandemia, quando se trancou na Prefeitura, não existe mais. Apenas as fotos de família foram retiradas e entregues a Tomaz Covas, seu filho.

Uma foto de Covas sorrindo ainda barbudo foi deixada na parede atrás da mesa, como uma espécie de homenagem. Também foi deixada na estante atrás da mesa a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que era um amuleto de Covas.

A ocupação do espaço físico da Prefeitura pelo chefe do Executivo é uma metáfora involuntária de um político em fase de transição. Apesar de ter sido alçado ao posto de destaque na política nacional e se tornado nome de peso do MDB paulista quando passou a comandar a maior cidade do País, Nunes ainda conserva rotina modesta de vereador. Segundo amigos, a ficha "ainda não caiu totalmente". O emedebista vive uma contradição entre o político paroquial e conservador da zona sul ligado à Igreja Católica e o gestor da metrópole de 12,3 milhões de habitantes e seus múltiplos e complexos problemas.

Assessores relatam que ficam aflitos nos compromissos porque Nunes faz questão de falar com todos os presentes em todas as solenidades antes de ir para o próximo compromisso.

Nesse breve período no poder, o prefeito se orgulha da boa relação com o Parlamento municipal, que o ajudou a aprovar projetos do Executivo, entre eles a polêmica reforma da Previdência, que prevê mudanças na contribuição do funcionalismo municipal.

Ao mesmo tempo, Nunes convive com uma nuvem que insiste em não se dissipar: as denúncias de que uma empresa da sua família recebeu dinheiro de creches conveniadas com a Prefeitura para prestação de serviços sem licitação, e suas empresas fizeram negócios com entidades investigadas.

"Não teve conflito de interesse. Existem momentos eleitorais e adversários inescrupulosos ocultos. Enfrentei muitos interesses como vereador. Ninguém que presta um serviço fica levantando se a empresa é investigada. Tenho conta em banco que é investigado. Não vou ter conta nesse banco? Essa ilação é tão louca...", disse o prefeito de São Paulo.

PICADINHO

Nunes recebeu a reportagem do Estadão há duas semanas. Estava disposto a mostrar um pouco do seu dia a dia. Almoçava picadinho com ovo frito e batatas quando a entrevista foi interrompida por um barulho vindo de uma caixa de som na calçada em frente à Prefeitura. Sindicalistas haviam se reunido no Viaduto do Chá para protestar contra a reforma da Previdência municipal. O prefeito sorriu e contabilizou o ato como parte de sua rotina.

"Em comparação ao Covas, o fato dele (Nunes) ter sido vereador ajuda na articulação de projetos do Executivo, mas vejo os vereadores da base mais tímidos na defesa do prefeito devido a esses casos mal explicados das creches", disse o vereador Fernando Holiday (Novo). Desde que assumiu, o emedebista aprovou 119 leis de interesse do Executivo na Câmara.

O PT critica Nunes, alegando que ele tentou barrar menções a termos de gênero do Plano Municipal de Educação quando era vereador.

"Ricardo Nunes dá sinais de proximidade com o Bolsonaro. Ele não faz críticas ao governo federal. Não se contrapõe", afirmou o presidente do PT paulistano, Laércio Ribeiro. "A Rede Municipal de Educação atende crianças de 0 a 14 anos. O Plano Municipal de Educação tinha que focar na qualidade do ensino, no aumento de investimentos, na valorização dos professores e não em questões ideológicas, como queria o PSOL. Esse tema foi tão desvirtuado, que para mostrar a incoerência de algumas falas o próprio PT votou a favor do meu relatório", rebateu Nunes.

O emedebista mantém na Prefeitura o grupo de tucanos que formava o núcleo duro de Bruno Covas e ainda hoje é uma corrente política forte no PSDB. Desde que assumiu, Nunes só promoveu três mudanças na gestão, todas com o apoio dos tucanos. Carlos Bezerra, do PSDB, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Social, Aline Torres, do MDB, a Secretaria de Cultura no lugar de Alê Youssef e o vereador Ricardo Teixeira (DEM) foi nomeado secretário de Mobilidade Urbana e Transporte.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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