Cada vez mais recluso, Berlusconi completa 80 anos

Por Lucas Rizzi ROMA, 29 SET (ANSA) - Cada vez mais recluso e afastado da política, o ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi completa 80 anos de vida nesta quinta-feira (29), ainda envolvido em uma série de processos judiciais e buscando um sucessor para liderar a centro-direita no país.   

Desde 2013, quando o então "Cavaliere" foi condenado em última instância por fraude fiscal e cassado pelo Senado, os italianos vêm se acostumando a viver sem seu protagonismo na política e a vê-lo como uma figura do passado.   

Em entrevista nesta semana à revista "Chi", o próprio ex-premier admitiu que olha com incerteza para o futuro, mas que a decisão mais importante que tomou foi passar mais tempo com seus cinco filhos e 10 netos. "Dedicarei mais tempo às pessoas a quem quero o bem, como fiz neste verão", disse.   

O último verão europeu foi especialmente difícil para Berlusconi. Ele passou quase um mês internado por conta de uma cirurgia cardíaca, se afastando dos inflamados debates sobre a retirada da candidatura de Roma para sediar os Jogos Olímpicos de 2024 e o referendo constitucional que pode definir o destino do atual chefe de governo, Matteo Renzi.   

"Berlusconi não é um homem do passado, eu esperaria para defini-lo assim, ele tem mais vidas que um gato. Na minha opinião, passará para a história por aquilo que não fez, mais do que por aquilo que fez", afirmou o primeiro-ministro, antes de criticar a "cultura do ódio" contra o rival.   

Renzi, aliás, representa a melhor chance que Berlusconi tem para sair de cena com certa dignidade. Se sua reforma constitucional for rejeitada no referendo de dezembro, o premier ficará enfraquecido, o que pode levar seu adversário a propor a criação de um grande centro moderado para barrar o avanço de siglas radicais e populistas, como a Liga Norte e o Movimento 5 Estrelas.   

"Seu partido, o Força Itália, ainda tem 12% ou 13% dos votos, e esse patrimônio pode se tornar indispensável para formar um futuro governo se Renzi perder o referendo e se a nova lei eleitoral for cancelada. Do contrário, nas próximas eleições o papel de Berlusconi será muito marginal", explica Roberto D'Alimonte, professor de sistema político italiano na Libera Università Internazionale degli Studi Sociali (Luiss) Guido Carli.   

Brasil - Em tempos de Lava Jato, é curioso lembrar que um dos efeitos imediatos de sua irmã italiana, a Operação Mãos Limpas, é justamente a ascensão de Berlusconi. Se aproveitando de um império televisivo e do sucesso como dono do Milan, clube do qual se desfez recentemente, ele surfou no descrédito dos partidos tradicionais, destruídos pelas investigações do promotor Antonio Di Pietro, e fez sua descida a campo.   

Sem nenhuma experiência em cargos públicos, se candidatou a primeiro-ministro em 1994, ganhou e logo tratou de aprovar leis que dificultaram a punição a corruptos. "A Operação Mãos Limpas abriu o caminho para Berlusconi porque contribuiu para o colapso da Democracia Cristã e do Partido Socialista, e Berlusconi preencheu esse vazio político", acrescenta D'Alimonte.   

Seu primeiro governo durou pouco, de 1994 a 1995, mas ele voltaria ao poder ainda duas vezes, entre 2001 e 2006 e entre 2008 e 2011. Nesse meio-tempo, personalizou a política italiana de uma forma nunca antes vista e se envolveu em escândalo atrás de escândalo.   

No mais grave deles, foi acusado de fazer sexo com uma garota de programa marroquina menor de idade, "Ruby Rubacuori", ou "Ruby Rouba Corações". O relacionamento com a jovem levou a público as noitadas promovidas nas mansões do ex-primeiro-ministro, conhecidas como "bunga bunga", e o colocou no banco dos réus por prostituição de menores e abuso de poder.   

Alegando não saber a idade das meninas que iam à sua casa, ele foi absolvido pela Corte de Cassação de Roma, mas promotores o acusaram de ter comprado o silêncio delas com gordas mesadas e abriram um processo por corrupção do sistema judiciário e falso testemunho.   

Além disso, foi condenado em primeira instância a três anos de reclusão por ter subornado senadores para derrubar o governo de esquerda de Romano Prodi em 2008, embora a própria acusação tenha reconhecido recentemente que o delito prescreveu.   

Porém o que determinou o fim da vida política de Berlusconi foi uma condenação em último grau, em 2013, por fraude fiscal, que teve como efeito a cassação de seu mandato de senador. A sentença também o fez cumprir pena de um ano de serviços sociais em um asilo de Milão.   

"Mas já havia um esgotamento do modelo Berlusconi. A sentença chegou quando já havia começado sua parábola descendente", diz D'Alimonte. Como herança da vida pública de Berlusconi, ficam a bipolarização do sistema partidário na Itália - cada vez mais ameaçada pela ascensão de legendas populistas - e uma inédita espetacularização da política.   

Durante os 20 anos em que ele esteve no centro das atenções, o poder foi um palco para seu show. (ANSA)
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