Israel envia migrantes africanos indesejados a outros países, aponta investigação da BBC

Kathy Harcombe

Da BBC News, em Israel

  • BBC

    Campo de Holot, no deserto de Negev, para onde Israel envia refugiados indesejados

    Campo de Holot, no deserto de Negev, para onde Israel envia refugiados indesejados

Há quase um ano, Israel tem oferecido a imigrantes africanos dinheiro e a chance de ir morar em um terceiro país considerado seguro. Mas dois homens entrevistados pela BBC afirmam que foram abandonados pelas autoridades israelenses assim que desceram do avião.

Um deles rapidamente se tornou vítima de tráfico humano; o segundo teve de se virar por conta própria sem documentos.

Adam tinha 18 anos quando foi a Israel, em 2011, fugindo do genocídio em Darfur, no Sudão. Ele havia passado anos em um campo de refugiados no país africano quando resolveu atravessar o Egito e a perigosa península do Sinai para chegar a Israel.

Mas o país --que aprovou menos de 1% dos pedidos de refúgio que recebeu desde que assinou a Convenção da ONU sobre refugiados, há seis décadas-- não ofereceu refúgio a nenhuma pessoa vinda do Sudão.

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Adam tinha 18 anos quando foi a Israel, em 2011, fugindo do genocídio em Darfur, no Sudão

O pedido de Adam foi negado em outubro de 2015 e, quando ele tentou renovar a permissão temporária para permanecer no país, acabou sendo levado ao isolado campo de Holot, no deserto de Negev.

O sudanês não ficou surpreso, já que a maioria dos sudaneses e eritreus em Israel sabem que cedo ou tarde serão enviados a Holot.

O governo israelense chama Holot de um "centro de estadia aberto", mas o local é gerenciado pelo serviço prisional do país e as regras são severas, incluindo um toque de recolher à noite que, se for desrespeitado, pode resultar em prisão.

A reportagem da BBC conversou com Adam e um grupo de amigos do lado de fora dos portões do campo. Eles passavam a maior parte do dia jogando cartas ou sinuca, ou comendo e cozinhando em restaurantes improvisados.

Eles se revezavam para fazer a viagem de uma hora de ônibus até a cidade mais próxima, Beersheva, para comprar comida e complementar as refeições servidas em Holot.

A maioria dos homens tem entre 20 e 30 anos. Alguns já trabalharam como professores, ou eram ativistas ou estudantes quando moravam em seus países.

"Estamos desperdiçando nossa juventude aqui. Se alguém vive em Holot, não tem futuro... Você encontra muitas pessoas que ficam loucas aqui", disse Adam.

Desde a visita da BBC a Holot, os restaurantes improvisados e as áreas de jogos foram demolidas por ordem do governo. O que deixou os moradores do campo com ainda menos opções para passar o tempo.

Adam ficará no campo por 12 meses. Então é provável que ele tenha estas escolhas: voltar para o Sudão; ficar em Israel, porém preso por tempo indefinido; aceitar o envio para um terceiro país.

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O governo israelense chama Holot de um "centro de estadia aberto", mas o local é gerenciado pelo serviço prisional do país e as regras são severas

Tráfico

O governo israelense tem acordo com dois países na África para enviar os migrantes que não quer.

Às pessoas que escolhem a "partida voluntária para um outro país", Israel promete documentação na chegada, com status legalizado no país, e US$ 3,5 mil (quase R$ 14 mil), entregues ainda no portão de embarque do aeroporto de Tel Aviv.

O governo israelense se recusa a divulgar o nome dos dois países africanos com que tem acordo, mas os migrantes que conversaram com a BBC dizem ter sido enviados para Ruanda e Uganda.

Um deles é Tesfay, eritreu enviado para Ruanda em março de 2015 --segundo ele, sem documentos migratórios, casa ou emprego, como lhe fora prometido em Israel. Ele se transformou em vítima de tráfico de pessoas.

Tesfay afirmou que um documento de viagem e um visto de entrada em Ruanda, ambos emitidos em Israel, foram confiscados na chegada ao aeroporto de Kigali.

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Tesfay é um eritreu enviado para Ruanda pelo governo israelense sem qualquer respaldo

Junto com outros nove eritreus, ele diz que foi levado para uma pensão. Ouviu que não deveria sair da casa, porque seria perigoso fazê-lo sem documentos. Então, dois dias depois de chegar, soube que teria de ir embora.

"Você vai para Uganda. Mas, antes, você precisa pagar US$ 150 (cerca de R$ 595). Então, da fronteira até Kampala (capital de Uganda), você precisa pagar de novo", disse a ele um homem que se apresentou como John.

Amontoados em um micro-ônibus, eles viajaram por seis horas para a fronteira de Uganda e, chegando lá, tiveram que sair do veículo.

"Quando cruzamos a fronteira foi quando entendi que estávamos sendo traficados. Fomos à pé, em silêncio. Estávamos sendo traficados de um país para outro", disse Tesfay.

Eles pagaram mais US$ 150 para continuar a viagem até Kampala.

Mas, ao chegar, tendo entrado no país como imigrantes ilegais, eles foram presos.

Com o dinheiro que não lhe foi confiscado, ele pagou a fiança. Tesfay foi avisado que provavelmente seria deportado para a Eritreia - o país de regime autoritário e repressivo do qual ele havia fugido.

Tesfay então pagou outro traficante para ir para o Quênia, onde hoje tenta obter refúgio.

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Pensão em Ruanda para onde Tesfay, refugiado eritreu, foi enviado por Israel

Sem confirmações

Ruanda não confirma qualquer acordo para receber os migrantes que Israel não quer. O governo de Uganda também negou a existência desse tipo de acerto e disse à BBC que está investigando como migrantes que alegam ter vindo de Israel estão entrando no país.

A BBC conversou com um homem de Darfur que contou ter ido de Israel a Uganda com outros sete homens em 2014. Por motivos de segurança, ele pediu para não ser identificado.

"Não recebi nada do que me foi prometido. Nenhum documento, nenhum passaporte, nenhuma assistência, nada. (Israel) só quer levar as pessoas e largá-las", disse.

Em outubro, segundo autoridades migratórias de Israel, 3 mil solicitantes de refúgio no país deixaram Israel para morar em um terceiro país. Mas, segundo a BBC apurou, apenas sete pessoas foram registradas no Alto Comissariado para Refugiados da ONU em Ruanda e apenas oito se registraram em Uganda.

Sem deportações

Há cerca de 45 mil eritreus e sudaneses em Israel, e o governo não poderia deportá-los sem violar a Convenção da ONU para Refugiados, que o país assinou em 1954.

De acordo com a convenção, ninguém pode ser obrigado a voltar para um país onde teme, de forma justificada, algum tipo de perseguição.

Mas se Israel os trata como refugiados pelo menos neste aspecto, qual a razão para recusar os pedidos de refúgio?

O porta-voz do Ministério do Exterior israelense, Emmanuel Nahshon, disse que os migrantes ameaçam a segurança e a identidade do Estado judeu.

"É óbvio que é uma situação complexa. E há esse elemento de migrantes que querem ficar aqui --sem dúvida por este ser um país rico e próspero--, então isso pode se transformar em um desafio à nossa identidade em Israel", afirmou.

"Não se trata apenas de 45 ou 50 mil pessoas que já estão aqui em Israel, mas do potencial. Porque essas pessoas dizem para os amigos e famílias em seus países: 'Aqui é muito bom. Venha para cá'."

Nahshon acrescenta que "fronteiras abertas, pelas quais os migrantes podem passar, também são fronteiras abertas pelas quais as organizações terroristas podem penetrar no território israelense e cometer atos de terror".

Críticos alegam que o país está violando a Convenção da ONU para Refugiados.

Para o advogado Anat Ben-Dor, os migrantes acabam "estigmatizados", tratados como infiltrados e têm seus pedidos de refúgio julgados por um sistema que os rejeita indiscriminadamente.

Sigal Rozen, do grupo de defesa dos direitos humanos israelense Hotline for Refugees and Migrants, afirmou que o fato de Israel não garantir a segurança dos migrantes em Ruanda e Uganda significa que eles são obrigados a se arriscar em outros lugares.

"Alguns deles vão para o Sudão do Sul, outros para o Quênia, para a Etiópia e muitos acabam na Europa depois de seguir a rota pela Líbia e Itália. Infelizmente muitos outros morrem no caminho."

Rozen afirma que há uma piada entre os migrantes de que o "presente" de despedida do governo israelense, de US$ 3,5 mil, é o dinheiro para chegar à Europa.

O governo de Israel insiste que está agindo de acordo com as leis internacionais e sendo justo com os migrantes.

Tesfay, que tenta asilo no Quênia, discorda. "Não é o que eles prometeram. Não tenho segurança, não tenho proteção nenhuma."

O risco é de que Adam e os demais moradores de Holot passem pela mesma experiência quando chegarem de volta à África.

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