As mulheres que construíram sua própria cidade para viver em paz na Colômbia

Natalio Cosoy - BBC Mundo

  • Liga de Mujeres Desplazadas

    25.mai.2016 - Mulheres tiveram de abandonar seus locais de origem devido à violência, se organizaram e buscaram fundos para erguer moradias em subúrbio da cidade colombiana de Turbaco

    25.mai.2016 - Mulheres tiveram de abandonar seus locais de origem devido à violência, se organizaram e buscaram fundos para erguer moradias em subúrbio da cidade colombiana de Turbaco

As casas de tijolo cinza têm um ou dois andares. São 98: algumas por pintar, outras já coloridas - muitas vermelhas, amarelas ou azuis, as cores da bandeira da Colômbia.

Foram construídas por mulheres - um grupo particular de mulheres -, com suas próprias mãos, há cerca de dez anos.

Elas pertencem à Liga de Mulheres Deslocadas (LMD), uma organização de vítimas que nasceu há cinco anos.

Todas tiveram de deixar seus vilarejos de origem por causa da violência, do conflito de mais de 50 anos que castiga a Colômbia. O confronto entre guerrilhas de esquerda, paramilitares de direita e forças do Estado deixou mais de 220 mil mortos e mais de 6 milhões de deslocados, segundo dados oficiais.

As casas de tijolo cinza foram erguidas ao longo de ruas estreitas com flores e árvores, em um subúrbio do município de Turbaco, cerca de 20 quilômetros ao sul da turística Cartagena.

Essas casas são o orgulho de suas donas, suas construtoras, as habitantes deste bairro, que leva o nome de Cidade das Mulheres.

"Nos capacitamos em autoconstrução, em dobrar ferro e nós mesmas trabalhamos nas nossas casas", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Everlides Almanza, de 59 anos. "Colocaram dificuldades, [disseram] que não éramos capazes, mas provamos que sim, éramos capazes e, essas casas foram feitas por nós."

Sobreviventes

A vida de Everlides, como a de todas as mulheres da LMD, foi marcada pela violência.

Perdeu o pai assassinado quando tinha nove anos. Pouco depois, mataram dois primos dela, e depois um sobrinho.

"Todas as mulheres da organização haviam sofrido de alguma forma um abuso sexual", afirma Patricia Guerrero, uma advogada que cresceu em Bogotá e mais tarde se mudou para Cartagena, onde conheceu algumas das primeiras mulheres que depois formaram a LMD.

"Muitas foram estupradas, outras inclusive haviam sofrido abusos e ficaram grávidas por causa dessas violações, outras nunca puderam voltar a ter filhos, outras nunca puderam voltar a ter relações sexuais harmoniosas nem agradáveis nem prazeirosas. A guerra acabou com a sexualidade das mulheres."

Liga de Mujeres Desplazadas

Uma transformação impressionante

Quando Patricia conheceu as primeiras delas, há cerca de 16 anos, elas viviam em condições de extrema pobreza em bairros miseráveis em Cartagena, onde haviam chegado deslocadas, em muitos casos com suas famílias.

Ajudou-as a se organizarem, encontrou um lote de terra para que fizessem suas casas, sua cidade, e buscou, fora da Colômbia, os fundos para edificá-las; conseguiu dinheiro do Congresso dos EUA, do programa de ajuda exterior dos EUA, USAID e de cooperação espanhola.

Mas estabelecer sua própria comunidade não foi fácil.

Elas receberam ameaças, o centro comunitário que ergueram foi incendiado (e depois reconstruído), colocaram cadáveres nas terras que elas cultivavam para intimidá-las e o companheiro de uma delas foi assassinado enquanto cuidava da fábrica de tijolos cinzas com que levantaram as paredes das casas.

No entanto, ter suas próprias casas, construídas com suas próprias mãos, foi para elas uma bênção.

A casa de Celestina Mosquera Andrade está pintada por fora com um rosa brilhante e por dentro, um verde brilhante. Parece uma celebração da mudança de vida que ter este espaço implicou.

Enquanto almoça, ela me conta: "Foi uma mudança, uma transformação impressionante porque, imagine, vivíamos em uma casa de barro, com plástico, que inundava cada vez que chegava o inverno (época de chuvas), ficava com água por aqui (mostra acima dos joelhos), perdíamos as coisas; veja que mudança há, que diferença."

Feminicídio

Everlides Almanza está vestida de preto - cor do luto, diz. "Os grupos armados entravam nos lugares onde os camponeses trabalhavam, violavam as mulheres, amarravam os homens."

"Quando ouvia algum ruído, fugia para o monte com minha menina, minha única filha mulher - tinha cinco meninos e uma menina - e eu sempre cuidava da minha filha."

Por causa do perigo, Everlines abandonou sua terra natal, no norte do país, e foi para Cartagena.

E ainda que a mudança para a Cidade das Mulheres tenha significado se estabelecer em um lugar mais acolhedor e seguro, ela passou por outra tragédia.

Em 2011, sua única filha foi assassinada no município de Turbaco. Não foi pelo conflito armado, mas resultado de outra forma de violência que é comum no país - um feminicídio.

Ela foi estuprada e brutalmente assassinada por seu ex-companheiro, que depois se suicidou.

"Ela deixou três meninos, que ficam comigo", disse Everlides.

Novas gerações

Uma dessas crianças é a neta Nayelis Paola González Berrío, de 14 anos.

A menina cresceu em um ambiente em que se valorizam e promovem os direitos das mulheres.

"Acho que é mais fácil, porque a gente não teve de passar por tudo que elas passaram", reflete a menina. "É muito diferente e agradeço a elas por ofereceremos uma vida melhor e uma vida digna."

Nayelis segue os passos de sua avó. É a coordenadora do grupo de jovens da LMD. A ideia é que essas novas gerações continuem o trabalho iniciado por suas mães e avós.

Algo crucial é que os meninos que crescem na Cidade das Mulheres também desenvolvem uma perspectiva do mundo mais equilibrada, acostumados a ver suas mães, suas avós, como chefes de família.

Um exemplo é o de Jésus David Reales, de 23 anos.

"Respeito elas por sua coragem, por sua valentia", disse, sobre as fundadoras da LMD.

"São capazes de construir, de fazer muitas coisas, não tem por que simplesmente ficar em casa, devem estar envolvidas em tudo, em todos os aspectos do país, do mundo."

Política

De fato, esse é o plano da organização.

"O que a gente quer é avançar e ter poder político, é a única maneira para as coisas se transformarem para as mulheres", disse Patricia Guerrero.

O projeto é um grande sonho para Ana Luz Ortega Vázquez, da LMD.

"Já não somos vítimas do deslocamento forçado, mas sim podemos ser as mulheres que vão mudar esse momento, mulheres políticas, para emergir, para chegar a um conselho ou, por que não, ocupar postos na prefeitura."

Ou até mais, dizem algumas. Se não forem elas, serão suas filhas ou netas.

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