"Não nos esqueçam, não queremos morrer": irmãos de 11 e 12 anos descrevem a vida na cidade sitiada de Aleppo

Wissam e Zane são dois irmãos, de 12 e 11 anos, que moram em Aleppo, na Síria.

Em entrevista à BBC, as crianças descreveram o cotidiano na cidade, uma das mais castigadas pelo conflito entre tropas rebeldes e do governo do presidente Bashar al-Assad.

Há um mês eles não vão à escola devido aos ataques aéreos.

"Em um dia normal nós brincamos, desenhamos e lemos. Tentamos preencher o tempo livre", contou Zane.

"Mas quando o bombardeio começa, temos que fugir para um corredor fora desta sala, para nos abrigar", acrescentou o irmão.

Zane explica que, apesar de toda a dificuldade, não quer sair de Aleppo.

"Todos os que dizem que devemos ir embora estão errados. Vamos ficar aqui, no nosso país."

Wissam pediu, emocionado, que as pessoas não se esqueçam dos moradores da cidade.

"Nós estamos aqui. Por favor, não nos esqueçam. Estamos morrendo todos os dias. Queremos viver, não queremos morrer."

"Estamos aqui. Não nos esqueçam", completou Zane.

Aviões e Facebook

Segundo maior centro urbano do país, Aleppo é hoje um dos principais campos de batalha da guerra civil que assola a Síria. Foi destruída pelo conflito e abandonada por milhões de moradores.

Segundo o Unicef, braço da ONU para a infância, cerca de 100 mil crianças vivem em áreas sob controle rebelde em Aleppo.

Em relatório publicado em março, o órgão estimou que cerca de 3,7 milhões de crianças - uma em cada três no país - não conhecem outra realidade além do conflito que já dura cinco anos.

"Eu ouço os sons das aeronaves há tanto tempo que agora consigo dizer quais são. Eu sei quando são helicópteros, bombardeiros ou caças", explicou Wissam.

"Para ajudar, estou olhando várias fotos de aviões no Facebook."

"Mas lembro de uma vez quando não tive tempo de olhar antes de um avião jogar algumas bombas. Tivemos que nos jogar no chão e ficar de bruços até acabar", contou o menino.

Aleppo costumava ser o centro comercial e industrial da Síria, mas acabou sendo dividida em duas partes desde 2012.

Em uma entrevista para o jornal russo Komsomolskaya Pravda, o presidente sírio Bashar al-Assad afirmou que uma vitória das forças do governo em Aleppo seria um "trampolim" para a retomada do resto do país.

Assad explicou que não há escolha a não ser "continuar limpando a área" e forçar os rebeldes a fugir para a Turquia.

Nas últimas semanas, a Síria e a aliada Rússia intensificaram os bombardeios no leste do país, área dominada por rebeldes e que abrange Aleppo.

Pelo menos 250 mil pessoas já morreram no conflito na Síria desde o início da guerra, em março de 2011.

O Observatório Sírio para Direitos Humanos, um grupo de monitoramento da guerra síria com base na Inglaterra, estima que esse número possa chegar a pelo menos 430 mil.

Mais de 4,8 milhões de pessoas já fugiram do país e cerca de 6,5 milhões já foram deslocadas dentro do país, segundo a ONU.

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