Apesar de crise no Brasil, procura por vistos é alta no Haiti

  • Minustah

    Desabrigados do Haiti foram concentrados em escolas para receber ajuda humanitária

    Desabrigados do Haiti foram concentrados em escolas para receber ajuda humanitária

Apesar da crise econômica e da alta nos índices de desemprego verificada no último ano, a demanda por vistos brasileiros está alta no Haiti, segundo disse à BBC Brasil o embaixador brasileiro em Porto Príncipe, Fernando Vidal.

Um dos motivos é o momento de incertezas vivido pelo país, que acompanha a conclusão de um turbulento processo eleitoral que se arrasta por mais de um ano e está apreensivo diante da possível retirada das tropas da ONU em abril do ano que vem.

A votação ocorreu no dia 20 de novembro, e nesta semana resultados preliminares apontaram a eleição de Jovenel Moise, com 55% dos votos. Mas partidários de outros candidatos saíram às ruas para protestar contra suposta fraude eleitoral e tentam reverter o resultado na Justiça.

A tensão pode continuar alta até que o resultado definitivo seja confirmado, o que está previsto para ocorrer no fim deste mês.

"A nossa embaixada tem capacidade de dar dois mil vistos por mês para haitianos. Arrisco dizer que, se pudéssemos dar cinco mil, haveria candidatos", afirmou Vidal.

"A fila não tem diminuído."

Segundo dados da Polícia Federal, o número de haitianos que entraram legalmente no Brasil aumentou gradualmente de 481 em 2011 para 14.535 no ano passado. Ainda não há dados disponíveis sobre 2016.

Mas ao mesmo tempo em que a demanda por vistos permanece alta no Haiti, já vem sendo identificada uma tendência de saída do Brasil de haitianos que haviam se estabelecido no país após o mega terremoto de 2010.

Desde o ano passado, muitos começaram a se mudar para os EUA e para o Chile em busca de trabalhos melhores, segundo o padre Paulo Parisi, um dos coordenadores da Missão Paz, entidade da Igreja Católica que oferece abrigo e intermedia propostas de empregos para imigrantes em São Paulo.

Parte da explicação para a tendência seria a crise econômica e o desemprego no Brasil.

Para o embaixador Vidal, a principal explicação é a desvalorização do real. Isso porque um dos objetivos mais comuns dos imigrantes é enviar dinheiro para ajudar no orçamento de familiares que ainda estão no Haiti.

Plano B

Mas então por que ainda há tanta demanda por vistos brasileiros em Porto Príncipe?

Vidal diz que, apesar da crise econômica, alguns setores da economia brasileira continuam empregando - principalmente na agricultura e na criação de aves.

Mas podem haver mais explicações.

"A emissão dos vistos não quer dizer que todos esses haitianos vieram para o Brasil", disse Parisi.

Segundo ele, parte dos haitianos que procuram a embaixada brasileira atrás de um visto podem estar atrás de um "plano B" - no caso de situação política no país se deteriorar muito nos próximos meses.

O objetivo desse grupo pode ser ter em mãos a documentação necessária para deixar o Haiti imediatamente, se isso for necessário. Ou ainda, vir para o Brasil assim que a situação econômica melhorar por aqui.

"Acho que muitos vão esperar e ver como fica a situação no Brasil e no Haiti", afirmou o embaixador. "Esses imigrantes têm grande flexibilidade, eles estão sempre prontos para se mudar rapidamente."

Outra explicação possível é que parte da demanda por vistos brasileiros seja de parentes de haitianos que já se estabeleceram no Brasil e vêm reencontrar seus familiares - e possivelmente se estabelecer por aqui. Estima-se que até 90 mil haitianos vivam no país atualmente.

Visto humanitário

O fluxo de imigrantes haitianos para o Brasil aumentou após o terremoto que deixou cerca de 300 mil mortos no Haiti em 2010.

Depois que muitos imigrantes se aventuraram pelas fronteiras brasileiras nas mãos de traficantes de pessoas, o governo brasileiro resolveu facilitar esse tipo de imigração com a emissão de vistos humanitários.

Com eles, os haitianos podiam entrar no Brasil e tirar carteiras de trabalho. Segundo analistas, essa abertura, o discurso "amigável" do governo brasileiro e a preparação para a Copa de 2014 e para a Olimpíada de 2016 fizeram do Brasil o "destino da moda" entre os haitianos.

Os Estados Unidos também chegaram a facilitar a imigração haitiana devido à catástrofe natural, mas desde setembro deste ano alteraram essa política.

Segundo Parisi, representantes do consulado americano estão divulgando mensagens destinadas a tentar convencer haitianos a não deixar o Brasil em direção aos Estados Unidos.

Um cartaz no quadro de avisos da Missão Paz - muito frequentada por haitianos no centro de São Paulo - alerta sobre os perigos da viagem clandestina aos EUA e diz que imigrantes sem documentação serão presos na fronteira.

Crise no Haiti

O Haiti está passando por um período de tensão elevada devido a catástrofes naturais, violência e crise política.

Há cerca de um ano, autoridades locais iniciaram o ciclo eleitoral que elegeria um substituto para Michel Martelly - o segundo presidente eleito democraticamente desde a insurreição que resultou na instituição de uma missão de paz da ONU liderada militarmente pelo Brasil desde 2004.

A ONU planejava concluir esse ciclo eleitoral no início de 2016 e retirar suas forças militares do Haiti em outubro deste mesmo ano. Porém, logo após o primeiro turno da eleição presidencial em outubro de 2015, surgiram rumores sobre suposta fraude eleitoral que deflagraram ondas de violência.

O segundo turno, que ocorreria em dezembro de 2015, foi adiado para janeiro de 2016. Mas, dias antes da nova data prevista, grupos armados ligados a políticos começaram a se enfrentar nas ruas e a incendiar locais de votação.

Tropas da ONU interviram, mas o governo haitiano decidiu cancelar a votação - Martelly deixou o poder e um governo provisório foi instituído.

O primeiro turno foi então remarcado para outubro de 2016, mas um novo adiamento foi necessário devido à passagem do furacão Matthew - que devastou o sul do país.

A votação só foi concretizada no último dia 20 de novembro. Desde a divulgação, na terça-feira, da notícia da eleição de Moise, ao menos três candidatos derrotados começaram a promover manifestações de rua quase diariamente.

Apenas cerca de 25% dos eleitores aptos foram às urnas e opositores de Moise dizem que, mesmo nesse universo reduzido de eleitores que votaram, muitos votos foram descartados por problemas de identificação.

As tropas da ONU não foram acionadas para intervir nas manifestações, mas o batalhão brasileiro está fazendo um esquema especial de patrulhamento na capital para evitar que as manifestações se tornem violentas ou se transformem em revolta generalizada.

O clima de tensão deve continuar até que Moise tome posse, em fevereiro de 2017.

O novo plano das Nações Unidas é manter suas tropas no país ao menos até o fim do presente ciclo eleitoral, que se encerrará com a posse.

Com a comunidade internacional exercendo pressão pelo fim da missão militar da ONU no Haiti - para que recursos sejam realocados possivelmente em missões na África - há uma chance considerável de que as tropas internacionais deixem o país em abril de 2017, segundo fontes diplomáticas e militares ouvidas pela reportagem.

O Brasil mantém cerca de 850 militares atuando sob a bandeira da ONU no país.

Ajuda humanitária

A decisão final sobre a saída das tropas só deve ser tomada no ano que vem e será influenciada pela transição de poder do governo provisório para o presidente eleito.

Enquanto o futuro político do Haiti permanece cheio de incertezas, a maior parte do sul do país ainda está em estado de emergência devido à passagem do furacão Matthew em outubro.

Segundo a agência da ONU que coordena o fornecimento de ajuda humanitária, 1,4 milhão de pessoas precisam de algum tipo de assistência e mais de 800 mil dependem de fornecimento emergencial de comida.

O Brasil participa das operações de socorro principalmente com militares que fazem a escolta de comboios de comida para regiões mais afetadas.

Além disso, o país já enviou tendas e está mandando agora cerca de 20 toneladas de arroz e um navio carregado com roupas e kits de higiene arrecadados por organizações beneficentes, segundo o embaixador Vidal.

"O sul do Haiti é essencialmente agrícola: 60% da população trabalha na agricultura e eles perderam seus trabalhos. Muitos podem morrer de fome se não receberem ajuda", disse.

Desde a passagem do furacão no início de outubro, o Programa Mundial de Alimentos e a comunidade internacional doaram em conjunto mais de 6 mil toneladas de alimentos para cerca de 630 mil pessoas. Cerca de 730 mil foram vacinadas contra a cólera.

As organizações humanitárias também estão enviando sementes para agricultura e iniciaram programas de remuneração de cidadãos que se engajam em frentes de trabalho.

Mas apesar dos esforços internacionais, o trabalho de reconstrução ainda está muito longe do fim - e pode levar anos para que as comunidades isoladas nas montanhas do sul do Haiti se recuperem economicamente.

Nesse cenário emergencial gerado pela catástrofe natural e com um futuro político ainda indefinido, mais haitianos devem continuar procurando diariamente embaixadas como as do Brasil, dos Estados Unidos e da vizinha República Dominicana em busca de um futuro com um pouco mais de segurança.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos