O prefeito socialista que ajudou a impulsionar a extrema-direita na Áustria

  • Márcia Bizotto/BBC Brasil

    O socialista Gerhard Zapfl, que governa Nickelsdorf há 20 anos, começou a criticar onda de imigrantes

    O socialista Gerhard Zapfl, que governa Nickelsdorf há 20 anos, começou a criticar onda de imigrantes

Com uma população de 1,8 mil habitantes e uma economia instável baseada na agricultura, Nickelsdorf não tem o perfil de uma cidade decisiva para as eleições presidenciais que a Áustria realiza neste domingo.

No entanto, o que aconteceu entre os campos de milho e girassol dessa localidade na fronteira com a Hungria, a 70 quilômetros ao sudeste de Viena, influenciou em grande parte a ascensão da extrema-direita no país, governado desde o fim da Segunda Guerra Mundial por uma coalizão de socialistas e conservadores.

'Invasão'

No fim de agosto de 2015, a Europa inteira acompanhou com assombro a descoberta de 71 imigrantes mortos dentro de um caminhão frigorífico em uma estrada próxima a Nickelsdorf.

Ante a comoção causada pelo episódio, o governo austríaco decidiu abrir as fronteiras e facilitar o trânsito de milhares de imigrantes que se encontravam bloqueados na Hungria e pretendiam chegar à Alemanha.

Em seis semanas, mais de 300 mil imigrantes clandestinos tomaram as ruas arborizadas de Nickelsdorf, mudando a rotina de uma população em boa parte anciã e de origem germânica.

Todo o país se voltou para ouvir as queixas de Gerhard Zapfl, de 56 anos, popular prefeito socialista que governa Nickelsdorf há 20 anos.

"Todo mundo ajudou esses refugiados. Traziam roupas, comida, chá. Eu ajudei cada uma dessas 300 mil pessoas. Mas a gente logo viu que a situação era insustentável. (Os imigrantes) jogavam lixo nas ruas, brigavam entre si, e as pessoas (residentes locais) começaram a ficar com medo", afirma à BBC Brasil.

Segundo o prefeito, a segurança na cidade "não era mais a mesma".

"Queríamos que essas pessoas fossem embora, mas o governo federal (comandado pelo partido socialista) não fazia nada, sequer atendia minhas ligações", conta.

Márcia Bizotto/BBC Brasil
Norbert Hofer, candidato da extrema-direita, recebeu 64,9% dos votos em Nickelsdorf no segundo turno das eleições, anulado pela Corte Constitucional

Boicote

Enquanto os imigrantes continuavam a atravessar a fronteira - no total, 700 mil passaram pela Áustria em 2015 -, Zapfl dava inúmeras entrevistas aos principais meios de comunicação nacionais e internacionais expondo argumentos que coincidem com os da extrema-direita.

"Não é possível integrar todo mundo. Isso pode destruir nosso sistema social, aumentar o desemprego, piorar a segurança. Tem que haver um limite para a imigração, e é isso que o FPÖ (Partido da Liberdade, de extrema-direita) defende com força", diz, ainda mais convencido da posição que manifestou na época.

Sentindo-se abandonado pelo governo federal e por seu próprio partido, Zapfl publicou nos principais jornais do país uma carta aberta ao então chanceler, Werner Faymann, e à ministra do Interior, Johanna Mikl-Leitner.

No documento, publicado a seis meses das eleições presidenciais, o prefeito pedia que Viena tomasse "com urgência medidas adequadas para resolver a situação e não colocar em risco a paz social na Áustria".

"Essas milhares de pessoas que estão vivendo nos limites da nossa cidade estão se tornando um problema sério", afirmava.

Zapfl admite que a iniciativa contribuiu em grande parte para a derrocada do Partido Socialista logo no primeiro turno das eleições presidenciais - e não esconde sua satisfação.

"Não falo contra nenhum partido. Falo pelo povo daqui. Foi ele que me elegeu pelos últimos 20 anos. Temos que cuidar do nosso povo primeiro. Nem mais, nem menos."

Futuro

No segundo turno celebrado em maio e anulado pela Corte Constitucional, o candidato Norbert Hofer, da extrema-direita, recebeu 64,9% dos votos em Nickelsdorf. Bem mais que sua média nacional, de 49,6%.

"Todo mundo em Nickelsdorf está preocupado com o que pode acontecer se a situação (migratória) se repetir. Se não se faz nada a respeito, o resultado será uma guerra civil", afirma Zapfl.

Depois da crise de 2015, o governo austríaco reinstaurou controles na fronteira com a Hungria e preparou planos para levantar uma cerca entre os dois países.

Em setembro, concluiu a construção de um centro capaz de acolher e cadastrar entre 4 e 5 mil imigrantes ao dia em Nickelsdorf.

Para o prefeito da cidade, porém, as medidas chegaram tarde demais e com a única intenção de limitar o desgaste do governo.

"Começaram a construir em junho, depois que todos os imigrantes já tinham ido embora. Um investimento de 1,1 milhão de euros para fins eleitorais", afirma.

Zapfl acredita que "o melhor para a Áustria é que a extrema-direita ganhe, e que o partido socialista se alie à ela".

A aliança entre as duas formações, teoricamente opostas, já é realidade no governo da região de Burgenland, à qual pertence Nickelsdorf. E, segundo o prefeito, funciona bem ali.

"Há duas possibilidades para controlar o FPÖ. Uma é lutar contra ele, a outra é trabalhar com ele. Quando você boicota algo, isso só tende a crescer. Por isso, o melhor a fazer é trabalhar com FPÖ. Se estamos associados, podemos aproveitar o que ele tem de bom e barrar os extremos."

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