Por que a conversa de Donald Trump com a presidente do Taiwan já gerou um conflito diplomático?

  • Chiang Ying-ying/AP

    A presidente de Taiwan,Tsai Ing-wen, em evento em Taipé

    A presidente de Taiwan,Tsai Ing-wen, em evento em Taipé

Donald Trump ainda não assumiu seu posto na Casa Branca, mas uma ligação que fez - e outra que recebeu recentemente - pode já ser considerada seu primeiro conflito diplomático. E não foi um conflito qualquer - foi justamente com a China.

O presidente eleito dos Estados Unidos e a presidente do Taiwan, Tsai Ing-wen, conversaram por telefone pelo menos duas vezes neste ano - ele ligou para parabenizá-la pela vitória na eleição de janeiro, e a taiwanesa retribuiu a ligação agora, quando o republicano foi eleito presidente dos Estados Unidos. A atitude pode parecer corriqueira, mas quebra um protocolo da política externa americana mantido desde 1979, quando os dois países romperam relações formais.

A resposta não demorou a vir: o ministro das Relações Exteriores da China apresentou uma reclamação formal a Washington.

O governo chinês considera o Taiwan como uma província separatista e rejeita o contato entre sua líder e o presidente eleito dos Estados Unidos.

Segundo informações da agência de notícias estatal Xinhua, a China advertiu os Estados Unidos e disse que seria necessário administrar o tema do Taiwan de maneira "cautelosa e apropriada" para "evitar toda a perturbação desnecessária nas relações entre ela própria e os americanos".

Além disso, o ministro Wang Yi considerou que a ligação havia sido um "truque barato" do Taiwan. A equipe de Trump garante, no entanto, que a chamada da discórdia foi, na verdade, um cumprimento de Tsai Ing-wen para parabenizar o magnata por sua vitória nas eleições de novembro.

Segundo a explicação deles, os dois líderes enfatizaram os "estreitos laços econômicos, políticos e de segurança" entre os Estados Unidos e o Taiwan.

Qual é o problema?

A divisão entre a China e o Taiwan remonta a 1949, quando aconteceu a Revolução Chinesa e Mao Tse Tung assumiu o poder no país, com um governo socialista. O então líder chinês Chiang Kai-shek fugiu para o Taiwan e lá formou seu governo autônomo com o apoio dos Estados Unidos.

A ONU até reconhecia o Taiwan, mas a partir de 1971 passou a reconhecer somente a China como país. Atualmente, poucas nações reconhecem o governo do Taiwan - e os Estados Unidos não são um deles.

Foi em 1979 que o governo americano cortou relações com o Taiwan formalmente - mas continuou fornecendo armamento para a região.

A China tem diversos mísseis apontados para a região do Taiwan e já ameaçou usá-los se o país declarar oficialmente a independência.

'Uma China'

A equipe de Trump afirmou que o presidente eleito também havia parabenizado Tsai pela vitória na eleição de janeiro.

A política de 59 anos - que se tornou a primeira mulher presidente da ilha - conseguiu uma vitória esmagadora com o Partido Democrático Progressista (DPP, na sigla em inglês).

O partido tem lutado pela independência taiwanesa da China. Mas Washington cortou as relações diplomáticas formalmente com o Taiwan em 1979 e tem reforçado seu apoio à política de "uma só China".

Desde então, não se tem conhecimento de nenhum presidente eleito dos Estados Unidos que teria de tentado qualquer contato com algum líder taiwanês.

Mal-estar diplomático

Ned Price, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, disse que a conversa de Trump não representa nenhuma mudança na política americana no que diz respeito ao Taiwan e que o presidente eleito é "bem consciente" sobre a posição oficial de seu país diante da disputa por independência na região.

"Seguimos firmemente comprometidos com nossa política de 'uma só China'", disse na última sexta-feira.

O governo da presidente Tsai não aceita essa política que estabelece que o Taiwan é parte da China.

Carrie Gracie, editora da BBC na China, explicou: "A decisão do presidente eleito dos Estados Unidos de dar as costas a quatro décadas de protocolo do país e falar diretamente com um presidente do Taiwan vai surpreender todos os políticos em Pequim."

E acrescentou: "Desde que soubemos do resultado da eleição no mês passado, eles estão tentando entender quem está assessorando Donald Trump na Ásia e como será a política dele na China. Essa atitude vai gerar preocupação, alarmismo e raiva."

Trump, por sua vez, respondeu às críticas usando suas redes sociais. "É interessante ver como os Estados Unidos vendem milhões de dólares de equipamento militar ao Taiwan, mas não acham que eu deva aceitar uma ligação de parabéns (vinda do país)", escreveu o republicano pelo Twitter.

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