Como 'feitiço' de Trump em disputa econômica com a China pode virar contra 'feiticeiro'

  • Saul Loeb/ AFP

Ao anunciar na segunda-feira a retirada dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP), o presidente Donald Trump celebrou a ocasião como um símbolo de sua estratégia de fazer frente ao poderio econômico da China na região da Ásia-Pacífico (que engloba também a Oceania).

Mas a ação de Trump, que desfez sete anos de árduas negociações de seu antecessor, Barack Obama, poderá acabar servindo justamente como uma ferramenta para consolidar a presença de Pequim na área.

Obama fez tudo para que a China fosse excluída do tratado, que engloba outros 11 países transpacíficos, entre eles três latino-americanos - México, Peru e Chile.

Os outros integrantes são: Japão, Malásia, Vietnã, Cingapura, Brunei, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Washington buscava assim aumentar sua presença em uma das zonas econômicas mais dinâmicas do mundo, e ao mesmo tempo impedir que a China preenchesse um "vazio regional".

Por isso, a retirada americana, por força do decreto presidencial assinado por Trump, parece abrir uma brecha para que a China faça justamente o que Obama temia.

'TPP menos um'

Apesar de alguns especialistas considerarem que a saída dos EUA significa o fim do TPP, já que o maior incentivo para os outros participantes era o acesso facilitado ao mercado, alguns países sinalizaram que querem seguir adiante com o processo.

Austrália e a Nova Zelândia já anunciaram seu desejo de criar uma espécie de "TPP menos 1".

O ministro australiano do Comércio, Steve Ciobo, disse acreditar que o tratado não deve ser abandonado e, durante o Fórum Econômico de Davos, na semana passada, teve várias reuniões com países integrantes do TPP.

"Conversamos com Canadá, México, Japão, Nova Zelândia, Cingapura e Malásia", disse o ministro à rede de TV australiana ABC.

"Sei que houve conversas anteriores com Chile e Peru, então há vários países interessados em ver se podemos fazer funcionar o 'TPP 12 menos 1'", acrescentou.

Ciobo deixou a porta aberta para a China ao dizer que a "arquitetura" do acordo permite o ingresso de outros países.

"A Indonésia manifestou interesse e há margem para a China se formos capazes de reformular o acordo".

O premiê neozelandês, Bill English, disse ter esperanças de manter o acordo vivo e seu ministro do Comércio, Todd Clay, disse à mídia local que se reunirá nos próximos meses com colegas dos outros países do TPP para buscar "a fórmula para seguir adiante".

A entrada da China já tem há alguns meses um defensor declarado: o presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, que criticava o acordo por excluir Pequim, o principal parceiro comercial do país sul-americano.

Na terça-feira, Kuczynski propôs um acordo alternativo para a inclusão dos chineses e que se estendesse também a um outro gigante asiático, a Índia.

"Assim, teríamos as melhores partes do TPP e nos desfaríamos das piores", disse ele.

Esperança japonesa

Mas qualquer possibilidade de manter vivo o acordo depende do Japão, dono da terceira maior economia do mundo e a primeira do TPP após a saída dos EUA.

Até agora, o primeiro-ministro do país, Shinzo Abe, se limitou a expressar a esperança de persuadir o novo governo americano a rever a sua decisão.

"Creio que o presidente Trump entende a importância do comércio livre e justo. Gostaria de continuar buscando sua compreensão sobre a importância estratégica e econômica do TPP", disse Abe na segunda-feira, em um pronunciamento no parlamento japonês.

O ministro das Finanças do país, Taro Aso, disse na terça-feira que Abe viajará aos EUA para se reunir com Trump.

Uma mudança de posição de Washington é considerada fundamental pelo Canadá, para quem o TPP não pode seguir sem os EUA.

"Este acordo foi feito de forma que só pode entrar em vigor se ratificado pelos EUA", disse a ministra das Relações Exteriores, Chrystia Freeland.

O Canadá, no entanto, não parece disposto a apenas esperar por Trump. Esta semana, o premiê, Justin Trudeau, disse que investirá na negociação de acordos bilaterais com Japão e China, ressaltando que em fevereiro serão realizadas as primeiras conversas com Pequim.

Trudeau evitou responder a perguntas sobre a participação canadense em uma versão do TPP sem os EUA.

Mas o que diz a China?

Na teoria, a China foi favorecida pelo anúncio de Trump, mas o governo da segunda maior economia do mundo ainda não se manifestou sobre a possibilidade de aderir ao TPP.

Na terça-feira, em uma entrevista coletiva em Pequim, uma porta-voz do governo evitou respostas mais diretas sobre o assunto, dizendo apenas que a China defende "rotas comerciais mais abertas na região do Pacífico" e "soluções que beneficiem a todos".

"Acreditamos na cooperação regional e estamos abertos a acordos econômicos regionais transparentes. As economias da Ásia-Pacífico são diferentes. Estamos prontos para trabalhar com todas as partes para darmos ímpeto à economia global e da região".

Pequim tem feito lobby por uma área livre de comércio na região e, durante o Fórum Econômico de Davos, o presidente Xi Jinping defendeu a ideia e criticou medidas protecionistas, em um discurso interpretado como uma alfinetada em Trump e sua filosofia de "América em primeiro lugar".

Mas as palavras de Xi Jinping foram vistas também como um sinal de que a China se vê diante de uma oportunidade de exercer um papel mais significativo no comércio mundial, aproveitando a possível brecha aberta pelos EUA.

O destino do TPP, porém, ainda parece muito incerto.

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