De Lenín Moreno a Odebrecht, 5 temas para ficar de olho na eleição do Equador

  • Gary Granja/Reuters

    Processo eleitoral vai pôr fim a sequência de três mandatos de Rafael Correa

    Processo eleitoral vai pôr fim a sequência de três mandatos de Rafael Correa

Quase treze milhões de eleitores equatorianos vão às urnas neste domingo para eleger o sucessor do presidente Rafael Correa, que está há dez anos no poder - são três mandatos consecutivos.

Oito políticos disputarão a cadeira do Palácio Carondelet, em Quito. Lenín Moreno, ex-vice-presidente e nome apoiado por Correa, aparece à frente nas pesquisas - caso haja segundo turno, o pleito final será em abril.

Mas mesmo que o candidato governista vença, haverá uma mudança importante nos rumos da política no país, avaliam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

"Essa eleição marca o fim da era Correa e, seja quem for o eleito, a situação será diferente daqui pra frente", afirmou o cientista político equatoriano Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

Segundo ele, como o atual presidente é "um líder forte", haverá uma espécie de "vazio de poder", independentemente de quem vença a disputa.

Guillermo Holzmann, o professor de ciências políticas da Universidade de Valparaíso, no Chile, concorda. Na sua opinião, Correa teve suas controvérsias, mas, diferentemente de seus antecessores, conseguiu terminar seus mandatos, o que fez o Equador viver "dez anos de estabilidade e governabilidade política".

A BBC Brasil explica a seguir cinco pontos para prestar atenção na eleição - incluindo denúncias envolvendo a empreiteira brasileira Odebrecht.

STR/Xinhua
Correa governa o país h? uma década - e pode eleger sucessor

1. Rafael Correa e Lenín Moreno

Líder polêmico, Correa foi aliado do venezuelano Hugo Chávez e dos argentinos Néstor e Cristina Kirchner. Mas apesar de ser definido como "bolivariano", a exemplo do ex-líder venezuelano e seu sucessor, Nicolás Maduro, ele não reproduziu no Equador políticas adotadas por esses governos e adotou medidas próprias tanto na economia como na educação.

Mas os analistas apontam semelhanças em alguns aspectos: o presidente também teve conflitos com imprensa, oposição e empresários e governou o país durante uma alta do preço das commodities, período de bonança que chegou ao fim nos últimos anos.

Aos 53 anos, Correa tem hoje cerca de 40% de popularidade e conclui seu governo em meio a uma queda no preço do petróleo, o que fez a situação econômica do país mudar.

Nesses dez anos no poder, iniciados em janeiro de 2007, ele modificou a Constituição para poder ser reeleito e alterar questões específicas, como na área da educação. No período, a pobreza caiu de cerca de 37% para 23% e o crescimento econômico foi permanente, embora dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) apontem para uma retração tanto no ano passado como na previsão deste ano.

Apesar da época de bonança do petróleo, não estimulou o setor privado a investir no país. Segundo os críticos, seu modelo econômico foi baseado no gasto público, sem uma política para a iniciativa privada.

Na avaliação do cientista político Pachano, porém, um personagem como Correa "só aparece a cada cinquenta anos". E mesmo que seu candidato, Lenín Moreno, seja eleito, não conseguirá fazer o mesmo governo - mesmo porque o ambiente será outro.

"Muitas medidas dele, como em educação, saúde e infraestrutura, foram possíveis graças à alta do petróleo. Agora é diferente", disse ele, lembrando que o presidente também controlou os três poderes.

Para Guillermo Holzmann, Correa governa "com uma mescla de ideologia, pragmatismo político e realidade social", mas também clientelismo.

2. Possível 2º turno

REUTERS/Guillermo Granja
Lenín Moreno, candidato de Correa, aparece à frente nas pesquisas

Pesquisas de opinião indicam que o candidato de Correa, Lenín Moreno, está à frente, mas não se descarta a realização de um segundo turno.

Além dele, os outros candidatos que teriam chances de suceder Correa são os opositores Guillermo Lasso, da Alianza Creo-Suma, e Cynthia Viteri, do Partido Social Cristiano (PSC).

Nos vídeos de campanha, Moreno diz que o Equador "tirou milhões de pessoas da pobreza" e destaca os avanços em áreas como a educação. Sua mensagem é de que "o processo de mudança precisa continuar".

3. Desafios do futuro presidente

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam a economia e a educação são os dois desafios principais.

Simón Pachano destaca que o novo líder precisará buscar alternativas para reduzir a dependência do petróleo e gerar emprego. Além disso, permitir que a imprensa volte a ser livre no país também deveria estar entre as metas, disse.

Crítico do presidente, o articulista Hernán Pérez Loose, do jornal equatoriano El Universo, afirma que governar depois "do fim da ditadura de Correa" será desafiador. Segundo ele, a próxima administração será de transição para a retomada da normalidade na política e na economia.

O Equador tem cerca de 16 milhões de habitantes, dos quais 7% se definem como indígenas - por isso, manter as iniciativas de Correa na educação, como a criação de um Enem local, também estariam entre as medidas a serem adotadas no próximo governo.

"Enquanto no Equador mais gente entrou para universidades, aqui na Argentina mais alunos deixaram as universidades", disse o especialista argentino Alieto Guadagni, que publicou livro recente sobre a educação na região.

Apesar desse avanço, Pachano ressalva que as universidades criadas por Correa não tiveram autonomia.

4. Odebrecht

As denúncias envolvendo a Odebrecht e setores do governo de Correa foram um dos temas da campanha, principalmente nos últimos dias.

"Com o Caso Odebrecht, acho que algumas pessoas, principalmente das áreas urbanas, decidiram não votar no governo porque aparecem nomes como o do vice-presidente (Jorge Glas) e há denúncias de outros casos de corrupção", disse o professor da Flacso.

Na quarta-feira, horas antes do encerramento da campanha, Correa disse que as acusações envolvendo a empreiteira são "distorções de campanha" e que seu governo teve "tolerância zero com a corrupção".

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou em dezembro de 2016 que a Odebrecht pagou entre 2007 e 2016, cerca de US$ 33 milhões (R$ 102 milhões) a autoridades do Equador.

No governo de Correa, a empreiteira chegou a ser expulsa do país, acusada de irregularidades em obras uma hidrelétrica. Mas retornou dois anos mais tarde, em 2010.

Na campanha, o caso Odebrecht gerou ainda um bate-boca entre Correa e opositores, que o acusaram de não revelar os nomes dos acusados.

"Nem o Brasil e nem os Estados Unidos me passaram estes nomes e vocês sabem isso", respondeu o presidente no Twitter.

Consultada anteriormente pela BBC Brasil sobre investigações na América Latina, a Odebrecht informou que "não se manifesta sobre o tema, mas reafirma seu compromisso de colaborar com a Justiça, tanto no Brasil quanto no exterior".

5. Consulta popular

Além de escolher o novo presidente, os equatorianos responderão ainda a uma consulta popular promovida por Correa.

A intenção é saber se a população concorda em proibir que políticos eleitos e funcionários públicos assumam cargos caso tenham dinheiro em paraísos fiscais.

Com pouca campanha nas ruas sobre o assunto, algumas pesquisas sugerem empate entre o "sim" e o "não".

Simón Pachano diz esperar que a proibição vença. "Seria mais natural que a população apoie a repatriação do dinheiro e de investimentos em paraísos fiscais".

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