'Vou me trancar em casa e ver o que acontece': as pessoas que decidiram enfrentar o furacão Irma

Patricia Sulbarán Lovera - Da BBC Mundo em Miami

  • BBC

    O professor Nicolas Remy vai ver a passagem do furacão Irma de dentro de seu apartamento

    O professor Nicolas Remy vai ver a passagem do furacão Irma de dentro de seu apartamento

"Veja como são lindas as formas que o vento forte faz na água", diz Nicolas Remy, apontando uma paisagem que em poucas horas poderia se tornar catastrófica. Da sua varanda no 12º andar, o professor de francês contempla uma imponente paisagem azul: a Baía de Biscayne, em Miami Beach, uma das cidades da Flórida evacuadas por causa do furacão Irma - o mais forte da última década.

Mas Remy não se assusta, e decidiu não sair do apartamento onde mora.

O furacão deixou um rastro de destruição por onde passou: no Caribe, ao menos 25 pessoas morreram. Cidades costeiras de Cuba, e ilhas como Barbuda e St. Martin, foram devastadas por tempestades e ventania.

Neste domingo, o Irma chegou à Flórida com ventos de mais de até 209 km por hora - três pessoas morreram. Mais de 1,4 milhão de casas estão sem eletricidade. Algumas partes de Miami, como o distrito financeiro, já estão debaixo d'água. Mais de seis milhões de pessoas evacuaram a Estado americano por receio da destruição que o furacão poderia trazer. Autoridades locais imploraram para que as pessoas saíssem do caminho.

Apesar disso, na tarde de sábado, Remy estava bebendo vinho francês junto a seu amigo Nadim Zeghoudi, também francês. Os dois decidiram assistir à passagem do furacão dentro de casa, um local potencialmente perigoso. "Não estou ansioso por nada, temos uma ótima vista do que vai passar", disse.

Zeghoudi sorri para o amigo e se senta no sofá, como se fosse uma tarde de sábado comum. Ele diz que vive no bairro de Coral Gables, que não está cercado pelo mar e é considerado mais seguro pelas autoridades. Por isso, decidiu acompanhar o amigo.

"Acredito no destino e não estou preocupado. Nunca vi um furacão e não sei o que pode acontecer", diz, colocando uma sandália. Os dois amigos afirmam que as janelas do prédio são de alto impacto, o que ajudaria a conter a força da chuva e do vento. Eles também criticam os meios de comunicação, por serem "alarmantes demais".

O governador da Flórida, Rick Scott, não concorda com essa avaliação. Ele tem insistido que o perímetro do Irma é maior que todo o Estado e que ele tem alto potencial destrutivo.

Scott ordenou a evacuação de mais de seis milhões de pessoas em ambos os lados da península, o que representa cerca de 30% da população da Flórida. "Está na hora de sair", disse em discurso reproduzido por vários canais de TV e de rádio.

'Pelo cachorro'

Diana Ami ainda não havia acompanhado as notícias sobre o furacão no sábado. Ela conversa com a BBC Mundo enquanto tira fotos com o tablet de uma rua deserta no bairro de South Beach, bairro turístico de Miami. "O que eu vi é que o furacão está a caminho do oeste. Então, eu acho que tive muita sorte desta vez", diz ela.

Ela pensou em viajar para Búffalo, no Estado de Nova York, onde tem parentes. Mas, antes da ameaça do Irma, um casal de vizinhos lhe pediu para cuidar de um cachorro. "Eu não podia deixar o cachorro sozinho. É uma grande responsabilidade que tenho com ele".

Ami, que é venezuelana e vive desde os 16 anos nos Estados Unidos, sabia que o furacão passaria por toda a Flórida, mas acredita que ele não vai afetar seu bairro. "Já tomei a decisão. Vou ficar trancada em casa e ver o que acontece", disse.

Enquanto Ami conversava com a BBC Mundo, as cidades de Miami e Miami Beach anunciavam um toque de recolher na noite de sábado.

Quase um suicídio

Há pessoas que correram o risco de ficar em uma das áreas mais vulneráveis, apesar de terem sido ordenadas pelas autoridades a sair há três dias. Eles são moradores de Flórida Keys, um arquipélago mais ao sul da Flórida e ao norte de Cuba, que já foi atingida pelo Irma neste sábado.

Um funcionário do governo alertou que permanecer ali seria "quase como um suicídio".

Essas ilhas têm cerca de 70 mil moradores. Alguns deles preferiram não sair. "Eu nasci e cresci aqui, prefiro ficar. Conheço os lugares onde as pessoas vão ficar protegidas", disse Liz Pérez ao jornal "The Miami Herald".

Outros habitantes disseram que não tinham para onde ir nem dinheiro suficiente para deixar as ilhas em direção ao continente. No entanto, já no sábado à tarde, alguns moradores começaram a questionar a decisão de ficar em virtude da altura das ondas na costa.

Foi o caso de Lena LaTorre, que se mudou para um abrigo em Key West, outra cidade da Flórida. "Eu não queria correr o risco. Eu deveria ter ido mais cedo", disse ele ao "Miami Herald".

Como último recurso, o condado que administra as ilhas abriu quatro abrigos para receber pessoas afetadas pelo Irma.

Roman Gastesi, funcionário da prefeitura, advertiu que não haveria serviço de emergência durante a passagem do furacão. "Quando a tempestade começar, não adianta ligar para a emergência, porque ninguém vai atender", disse.

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