6 pontos para prestar a atenção nas eleições do Chile neste domingo

Marcia Carmo - De Buenos Aires para a BBC Brasil

  • Claudio Reyes/AFP

    O candidato à Presidência do Chile Sebastián Piñera discursa em evento de campanha em Santiago, na última sexta (17)

    O candidato à Presidência do Chile Sebastián Piñera discursa em evento de campanha em Santiago, na última sexta (17)

Neste domingo, os chilenos votaram em primeiro turno para escolher o sucessor da presidente socialista Michelle Bachelet. A disputa envolveu oito candidatos, entre eles um ex-presidente e um jornalista.

Ao final da noite deste domingo, resultados preliminares apontavam um segundo turno entre o ex-presidente Sebastián Piñera, da ala conservadora, e o jornalista e senador Alejandro Guillier, de centro-esquerda, próximo a Bachelet.

Caso o conservador vença no segundo pleito, uma cena de 2010 pode se repetir: naquele ano, Bachelet passou a faixa para Sebastián Piñera. Quatro anos depois, em 2014, foi Piñera quem "devolveu" a faixa para Bachelet.

Este ano, Piñera é candidato novamente, por uma coalizão conservadora. De acordo com os dados do Serviço Eleitoral, com 81,84% das urnas contadas na noite deste domingo, Piñera tinha cerca de 36% dos votos, enquanto Guillier atingiu 22%.

"Piñera tem chances de ganhar porque a esquerda nunca esteve tão dividida", afirma Marta Lagos, diretora da ONG Latinobarómetro. Pela primeira vez, a frente de centro-esquerda disputará a cadeira do Palácio presidencial de La Moneda com mais de um candidato.

Além disso, a desaceleração da economia chilena "influencia" o voto em Piñera e "complica" as chances de Guillier, segundo Guillermo Holzmann. professor de Ciências Políticas da Universidade de Valparaíso.

"A percepção é de que a economia está estancada e que, com Piñera, voltaria a crescer", diz Holzmann. O Chile cresce menos de 2% ao ano, afetado pelo desempenho da China.

O segundo turno está previsto para 17 de dezembro. O eleito só será empossado em março de 2018.

Veja 6 pontos para prestar atenção nas eleições no Chile neste domingo:

1 - Qual é o legado de Bachelet?

O governo de Michelle Bachelet implementou medidas importantes, como reformas educativa e tributária e a descriminalização do aborto em casos de estupro ou de risco para a mãe.

"As medidas implementadas por Bachelet significam uma mudança cultural para os chilenos", opina Marta Lagos, da ONG Latinobarómetro.

Já o analista Guillermo Holzmann acredita que a herança de Bachelet tem pontos negativos: "A reforma tributária, por exemplo, gerou uma série de distorções, e elas deverão ser revistas pelo próximo governo".

Lagos e Holzmann observam que Bachelet teve falhas que acabaram abrindo caminho para a possível eleição de Piñera, seu opositor.

Além disso, um caso de corrupção que envolveu um filho de Bachelet reduziu seu apoio popular.

A presidente costuma ser mais elogiada no exterior do que no seu país. Conta com cerca de 40% de popularidade - longe dos cerca de 80% de apoio registrados ao concluir seu mandato anterior, em 2010.

A expectativa é de que, ao deixar o governo, volte a ter um posto nas Nações Unidas, onde foi diretora da ONU Mulheres.

2 - Sebastián Piñera vai retornar?

Empresário milionário, com doutorado em economia na Universidade Harvard, nos EUA, Piñera governou o Chile entre 2010 e 2014. Seus opositores o acusaram de conflito de interesses em diferentes ocasiões, o que ele nega.

"Em termos de conflito de interesse, Piñera sempre nos surpreende", disse o deputado do Partido Comunista (PC), Daniel Núñez. Segundo ele, o ex-presidente teria criado uma lei de pesca após suas empresas terem investido no setor.

A acusação de conflito de interesses contra Piñera também apareceu na campanha política deste ano. Seus aliados dizem que as denúncias "são fantasmas sem embasamento".

Piñera prometeu reativar a economia e reduzir o tamanho do Estado, buscando atrair investimentos internacionais.

"Quando chegou à Presidência pela primeira vez, Piñera governou com tecnocratas. Agora, tende a ser mais político", considera Holzmann. Analistas econômicos observam que o mercado vê com bons olhos a eleição de Piñera.

No fechamento da campanha, na quinta-feira à noite, Piñera disse que esta campanha "não foi fácil, porque faltaram projetos por parte dos vários candidatos e houve clima de ódio" contra ele e sua família.

3 - Eleitores chilenos estão apáticos

A desconfiança nas instituições contribui para que os eleitores chilenos estejam apáticos em relação ao pleito, segundo analistas.

No país, a percepção é de que "os políticos estão mais preocupados com suas próprias vidas e não com a do eleitor", avalia Holzmann.

A coordenadora de Governabilidade Democrática do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Marcela Ríos, disse à imprensa local que a apatia eleitoral também está vinculada ao "deficit de formação cidadã" e ao fato de que "muitos chilenos já não se sentem representados pelos partidos políticos".

Na tentativa de atrair mais eleitores, o governo anunciou que o transporte público será gratuito neste domingo.

4 - Economia do Chile está em baixa

O baixo preço do cobre, principal produto de exportação chileno, influenciou o desempenho da economia do país durante a atual gestão de Bachelet.

"No primeiro governo, Bachelet governou com alto preço do cobre. Na gestão atual, o preço caiu pela metade", afirma Lagos. "Agora, o cobre voltou a subir. Se continuar assim, ajudará a economia no próximo governo", completa Holzmann.

Analistas apontam ainda que o menor crescimento da China influenciou o atual ritmo da economia do Chile. A China é um dos principais sócios comerciais do país.

Segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), a economia chilena deve crescer apenas 1,4% este ano.

Na sexta-feira, a presidente Bachelet disse que a "economia está recuperando suas forças" graças a medidas tomadas pelo seu governo, como reformas econômicas. Falou ainda que seu sucessor "não terá desculpas para não manter os avanços da (atual) gestão".

5 - Quem é Guillier, o 'herdeiro de Bachelet'?

Guillier é conhecido no país por sua carreira no rádio e na TV. Ele teve programas em que questionava políticos e a gestão pública, como o Factor Guillier.

É visto como a continuidade de Bachelet. Na quinta-feira, no encerramento da sua campanha, seus seguidores gritavam "pelo amor a Bachelet, votaremos em Guillier".

Ao contrário do esperado no início de sua campanha, não conseguiu aglutinar o apoio da esquerda e da centro-esquerda. No entanto, contou com apoio de grande parte das legendas que respaldam o governo da presidente socialista. Exceto a histórica Democracia Cristiana (DC), que disputa a eleição com candidata própria.

O candidato apoia as iniciativas da presidente Bachelet e discorda de Piñera em relação a temas como a presença do Estado na economia e políticas voltadas para os índios mapuches.

"Quero dizer à direita que nossos povos originários não são terroristas e que vamos reconhecê-los constitucionalmente", disse Guillier.

6 - De apoiadores de Pinochet a seguidores de Allende

Entre os oito candidatos à Presidência, dois trouxeram à tona lembranças do golpe militar no Chile de 1973, que retirou Salvador Allende do poder, e da posterior ditadura liderada por Augusto Pinochet, que durou até 1990.

O candidato José Antonio Kast (também conhecido pela sigla JAK) foi definido como "neo pinochetista". Contrário ao aborto em qualquer circunstância, ao casamento entre as pessoas do mesmo sexo e à imigração, Kast disse que Pinochet votaria nele neste domingo, se estivesse vivo.

Já o candidato Eduardo Artés, do Partido Unión Patriótica (UPA), acha que o Chile estaria melhor se o ex-presidente socialista Salvador Allende, deposto e morto no golpe de 1973, tivesse recebido mais apoio popular. Professor aposentado do ensino básico, Artés se define como comunista e diz que está à frente de uma coalizão que inclui representantes dos "proletários e marxistas".

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