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'Talebã americano' é libertado: o que acontece quando um traidor da pátria deixa a prisão?

Tara McKelvey - Da BBC News

23/05/2019 14h45

John Walker Lindh foi preso durante a invasão do Afeganistão pelos EUA e se declarou culpado de ajudar extremistas. Após ficar 17 anos encarcerado, ele sairá em liberdade condicional e voltará a viver em uma sociedade que fez pouco para se preparar para sua chegada.

O que acontece quando um traidor da pátria deixa a prisão?

John Walker Lindh, hoje com 38 anos, conhecido como "Talebã americano", e outras centenas de pessoas foram presas por terrorismo, traição e outros crimes nos EUA.

Sua soltura foi anunciada na quinta-feira, 23, após 17 anos encarcerado.

Lindh foi capturado pelas forças americanas durante a invasão do Afeganistão, meses após os ataques terroristas do 11 de Setembro. Ele se declarou culpado em 2002 de colaborar o Talebã e foi condenado a 20 anos de prisão.

Naquela época, Lindh foi considerado um traidor. Nesta semana, porém, ele sairá da prisão em liberdade condicional. Não poderá entrar na internet sem uma permissão especial nem viajar livremente.

Lindh se tornou cidadão irlandês enquanto estava preso - sua avó nasceu no país - e poderá se mudar para a Irlanda quando as restrições a viagens forem suspensas.

Após sua libertação da prisão, ele descobrirá um mundo que mudou drasticamente desde seu encarceramento. Terá de reaprender a lidar com a vida cotidiana e voltará a viver em uma sociedade que fez pouco para se preparar para sua chegada.

Muitos especialistas, incluindo Steven Aftergood, da Federação Americana de Cientistas, especializado em segurança nacional, dizem que os Estados Unidos deveriam fazer mais para reintegrar pessoas como ele.

"No sistema judicial, dizemos: 'Você, criminoso, não é como nós'. Mas há também a responsabilidade dizer no final 'Há um lugar para você em nosso mundo'."

Em má companhia

Lindh não é o único a voltar a viver em sociedade após um longo encarceramento por crimes que ameaçam a segurança nacional.

Mais de 300 pessoas nos Estados Unidos foram condenadas por acusações relacionadas a terrorismo jihadista desde 2001, segundo a New America Foundation, um centro de estudos sediado em Washington.

Além disso, dezenas de indivíduos estão atrás das grades por tentativas de assassinato, venda de segredos ao governo chinês e outros crimes que ameaçam a segurança nacional.

Alguns foram condenados à prisão perpétua, sem direito a liberdade condicional. No entanto, um número significativo já foi libertado ou será em algum momento.

Quando Lindh sair da prisão, ele vai se juntar a um elenco de ex-presidiários infames. Em 2016, John Hinckley Jr. deixou uma clínica psiquiátrica onde ficou preso por décadas após tentar matar o ex-presidente americano Ronald Reagan (1911-2004). Hinckley, hoje com 63 anos, foi morar com sua mãe em na cidade de Williamsburg, no Estado da Virgínia.

Faysal Galab, ex-membro de um grupo de extremistas conhecido como Lackwanna Six, declarou-se culpado de uma acusação relacionada a terrorismo e foi condenado a sete anos de prisão. Em 2008, foi libertado de uma cadeia no Estado de Indiana e se mudou para um centro de reabilitação na cidade de Detroit.

'Pagou sua dívida com a sociedade'

Cada um destes casos é único, mas, coletivamente, levantam uma questão fundamental: os indivíduos que cometem crimes graves, sejam de terrorismo ou contra a segurança nacional, serão bem recebidos de volta à sociedade após sua punição? Como devem ser acolhidos ou, pelo menos, reintegrados?

Legalmente falando, o assunto é simples. Indivíduos que cumpriram seu tempo de prisão podem retomar suas vidas novamente.

"Alguém que pagou suas dívidas tem o direito de seguir em frente", diz John Sifton, diretor de defesa da Human Rights Watch, organização de defesa dos direitos humanos.

No entanto, a forma como esses indivíduos retomam suas vidas varia, assim como as restrições impostas a eles. O governo americano não possui um programa oficial ou um conjunto de procedimentos para ajudá-los a encontrar seu caminho no mundo.

Duas décadas atrás, o adolescente Lindh começou uma jornada muito diferente, deixando sua família católica no Estado da Califórnia para estudar árabe no Iêmen. Ele seguiu para o Paquistão, depois foi para o Afeganistão, antes de ser levado de volta aos Estados Unidos para ser julgado.

Pronto para reintegração?

Desde sua condenação, o único vislumbre que tivemos de Lindh foi em 2012, quando ele testemunhou em um tribunal, vestindo um uniforme de prisão e uma touca branca, como parte de um processo que questionava a proibição de orações em grupo.

"Acredito que fazer isso é obrigatório", disse ele. "Se você é obrigado a orar em congregação e não o faz, isso é pecado. Não há riscos à segurança ao nos permitir orar em grupo. É um absurdo."

O governo dos Estados Unidos alegou, no entanto, que ele havia feito um sermão radical em árabe. E vazaram documentos secretos, publicados pela revista Foreign Policy em 2017, que alegavam que Lindh conseguiu "escrever e traduzir textos extremistas virulentos".

Alguns senadores americanos questionaram se está sendo feito o suficiente para ajudar equipes prisionais e de liberdade condicional a reconhecerem os sinais de radicalização violenta e reincidência.

Uma carta de um republicano e um democrata para o diretor do Bureau Federal de Prisões, a agência do governo americano responsável pelo sistema carcerário, observou que outros 108 presos condenados por crimes de terrorismo nos Estados Unidos devem ser libertados nos próximos anos.

"Poucas informações foram disponibilizadas ao público sobre quem são estes infratores e sobre quando e onde eles serão libertados, se representam uma ameaça pública contínua, e o que as agências federais estão fazendo para mitigar essa ameaça enquanto estiverem sob custódia federal", afirmaram.

O presidente americano, Donald Trump, defendeu que Lindh deveria cumprir sua sentença completa, em vez de ser libertado três anos antes do prazo oficial.

Após sua captura no Afeganistão, Lindh foi mantido em uma prisão onde Johnny Micheal Spann, um oficial da CIA, a agência americana de inteligência, conduziu interrogatórios - e onde foi morto em uma rebelião. Seu pai, Johnny Spann, disse aos repórteres que não acha que Lindh deveria sair em liberdade condicional.

Ainda assim, alguns especialistas em combate ao terrorismo dizem que o sistema funciona bem. Daniel Byman, do Brookings Institution, um centro de estudos em ciências sociais baseado em Washington, diz que indivíduos que cometem crimes de terrorismo e são libertados são vigiados de perto: "Há muito monitoramento".

Outros afirmam simplesmente que ele cumpriu seu tempo atrás das grades. Jesslyn Radack, uma advogada que trabalhava para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos quando Lindh foi capturado no Afeganistão, avalia que sua sentença era excessivamente severa. "Espero que ele consiga recomeçar sua vida."


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