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Por que a remota Groenlândia interessa tanto aos EUA e à China

Os verões ficaram mais longos na Dinamarca graças à mudança climática - Getty Images
Os verões ficaram mais longos na Dinamarca graças à mudança climática Imagem: Getty Images

22/08/2019 08h01Atualizada em 22/08/2019 15h23

A compra da remota ilha da Groenlândia proposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode soar estranha. Afinal, trata-se do território menos povoado da Terra, com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados - mais ou menos um quarto da área do Brasil - e apenas 57 mil habitantes.

Na terça-feira (20/08), Trump decidiu suspender uma viagem no começo de setembro à Dinamarca (a quem a Groenlândia pertence) devido à falta de interesse da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, em discutir a proposta. A Groenlândia é a maior ilha do mundo (a Austrália não é considerada uma ilha, e sim um continente).

Não é a primeira vez, no entanto, que os Estados Unidos tentam comprar a Groenlândia. Tecnicamente, o local é um território autônomo pertencente à Dinamarca - país responsável por bancar 60% do orçamento anual do governo e pela política externa e de defesa da ilha.

A ideia surgiu nos EUA durante a década de 1860, pelo então presidente Andrew Johnson. Um relatório do Departamento de Estado dos EUA, de 1867, sugere que a localização estratégica e a abundância de recursos tornavam a ilha uma aquisição importante.

Jonathan Marcus, analista de assuntos diplomáticos da BBC, diz que "basta olhar no mapa para ver como Rússia e Alasca (que pertence aos EUA) estão perto da Groenlândia."

"A Groenlândia é um território importante do ponto de vista da defesa dos EUA. Eles têm lá uma importante base (militar) com sistemas de rastreamento espacial e de detecção de lançamentos de mísseis", diz Marcus.

"A zona é importante estrategicamente e, conforme avança o degelo (na região ártica), e as rotas marítimas se abrem, o local se torna cada vez mais crucial para os países que estão fisicamente próximos dele e também para a China", diz.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o território tornou-se um ponto-chave para evitar um hipotético ataque soviético. A Groenlândia está no meio do caminho entre os EUA e a Rússia.

Em 1946, o presidente americano Harry Truman ofereceu à Dinamarca US$ 100 milhões em ouro pela Groenlândia, mas a Dinamarca rejeitou a oferta.

A recusa dinamarquesa, no entanto, não impediu que os dois países assinassem um tratado de defesa em 1951. Paralelamente à criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o tratado permitiu aos Estados Unidos construir uma base aérea em Thule, a menos de 1.600 km do Pólo Norte, na costa noroeste da ilha.

A base, em operação até hoje, é a única instalação militar dentro do Círculo Polar Ártico. É também o porto e a base aérea mais setentrional (mais ao norte) dos EUA, o que faz dela uma peça-chave em um eventual conflito na região.

O local também abriga o 12º Esquadrão de Alerta Espacial dos EUA, um grupo de oficiais e combatentes da Força Aérea americana responsável pela defesa antimísseis e espacial do país. Para isso, contam com um enorme sistema de radares, segundo o site Defensenews.

A base na Groenlândia é "ideal para rastrear mísseis balísticos intercontinentais e satélites em órbita terrestre baixa", segundo a publicação.

Mudança climática e recursos naturais

Os Estados Unidos têm interesse em reforçar sua presença no Ártico para, entre outras coisas, fazer frente à crescente presença russa na região - tanto militar quanto civil.

Isto "tornaria mais difícil para a Rússia selar seu controle do Mar do Norte e aliar-se com a China para monopolizar a rota", diz o colunista da agência de notícias Bloomberg, Leonid Bershidsky.

A rota é a via marítima mais ativa do Ártico, e passa por águas territoriais russas. Vai desde o mar de Barents, perto da fronteira da Rússia com a Noruega, até o Estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca.

As embarcações que trafegam por esta rota precisam de autorização da Rússia, explica uma reportagem da revista britânica The Economist.

Mas não é só a localização estratégica que faz da Groenlândia, com seus 56 mil habitantes, um território desejado pelas grandes potências.

A mudança climática e o consequente degelo do Ártico, que está acontecendo de forma acelerada na região, tornam mais fácil o acesso aos grandes recursos naturais da região.

Em junho passado, na contramão da busca global por combustíveis alternativos, as autoridades da Groenlândia detalharam o plano de tornar a região uma potência petroleira.

Os 10 pontos do plano propõem uma estratégia de cinco anos para iniciar a prospecção de petróleo no local. Estima-se que o Ártico, onde a Groenlândia está localizada, detenha 13% das reservas de petróleo a serem descobertas no mundo.

Além disso, já em 2013, o parlamento local suspendeu a proibição, que vigorava há 25 anos, para atividades de mineração de materiais radioativos como o urânio.

A ilha tem alguns dos maiores depósitos de "terras raras" do mundo, entre as quais destacam-se o neodímio, o praseodímio, o disprósio e o térbio, entre outras.

Além do urânio, também existem na ilha derivados de zinco.

O papel da China

As chamadas "terras raras" possuem propriedades comerciais únicas e são matérias-primas fundamentais para a produção de tecnologias de comunicação e energia, como turbinas eólicas, veículos elétricos e aparelhos celulares.

Patrik Andersson, Jesper Willaing Zeuthen e Per Kalvig, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Aalborg (na Dinamarca), argumentam em um artigo acadêmico que a China alcançou o monopólio de todos os segmentos das cadeias produtivas associados a esses elementos químicos.

Atualmente, a União Europeia importa 90% de suas terras raras da China.

Na Groenlândia, o país asiático está envolvido no Projeto Kvanefjeld, no sul da ilha. O objetivo é abrir uma mina de urânio e terras raras (como neodímio, disprósio e ítrio), em conjunto com uma empresa australiana.

Esta não é a única aposta da China para aumentar sua presença na Groenlândia.

No ano passado, uma empresa estatal chinesa se propôs a construir três novos aeroportos na ilha, o que levou o governo dinamarquês a fornecer metade do financiamento.

De acordo com o que Andersson, Willaing e Kalvig, a iniciativa do governo foi amplamente interpretada na Groenlândia e na Dinamarca como uma tentativa de afastar a influência chinesa e impedir que a potência asiática tivesse um aeroporto para suas aeronaves militares, bem como maior poder econômico sobre o governo local.

"A questão da mineração na Groenlândia e, principalmente, o investimento chinês nesse setor provocou debate sobre o papel do setor nas questões de segurança, bem como se os interesses econômicos chineses na Groenlândia podem afetar a discussão sobre a eventual independência da Groenlândia (da Dinamarca)", explica Marc Lanteigne, professor associado de Ciência Política na Universidade de Tromsø, no site The Diplomat.

Numa viagem à Groenlândia no fim do ano passado, o jornalista da BBC John Simpson percebeu que a opinião sobre a influência chinesa na ilha tendia a se dividir de acordo com a etnia.

Os dinamarqueses estavam mais preocupados, enquanto que os Inuits - que formam 80% da população local - viam a aproximação chinesa de forma positiva.

Embora a proposta de Trump tenha pouca (ou nenhuma) chance de sucesso, a movimentação "poderia pressionar a Dinamarca a se manter firme contra a expansão dos interesses chineses no território e dar mais espaço comercial e militar aos Estados Unidos", escreve Catherine Philp, correspondente diplomática do The Times.

A atitude do líder dos EUA também poderia, por outro lado, "danificar as relações entre dois aliados da Otan e afastar a Dinamarca e a Groenlândia".

De qualquer forma, é uma amostra da importância estratégica crescente desta ilha remota no Ártico.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informou o segundo parágrafo da matéria, a Groenlândia, e não a Dinamarca, é a maior ilha do mundo. A informação foi corrigida.

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