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Por que o bilionário George Soros é odiado pela direita radical

George Soros, o investidor húngaro bilionário - Getty Images
George Soros, o investidor húngaro bilionário Imagem: Getty Images

Mike Rudin - Da BBC News

15/09/2019 11h49

Em uma calma tarde de segunda-feira em outubro do ano passado, no interior do Estado americano de Nova York, um grande envelope bege foi postado na caixa de correio da mansão do filantropo e multibilionário judeu George Soros.

O envelope parecia suspeito. A polícia foi chamada, e rapidamente o FBI entrou em cena.

Dentro da carta havia uma foto de Soros riscada com um X em vermelho. Junto a ela estava um cano plástico de 15cm, um pequeno relógio, uma bateria, fios e pó negro.

Mais de uma dezena de envelopes semelhantes foram enviados a casas de democratas proeminentes como Barack Obama e Hillary Clinton. Nenhum dos dispositivos explodiu.

O FBI relacionou as bombas a uma van branca coberta de adesivos pró-Donald Trump e anti-Partido Democrata, estacionada em um supermercado na Flórida.

Rapidamente, a imprensa de direita alegou se tratar de uma operação "falsa" que almejava atrapalhar Trump e a campanha republicana, poucas semanas antes da eleição legislativa nos EUA.

"Notícias falsas e bombas falsas. Quem poderia se beneficiar de tantas falsidades?", tuitou Lou Dobbs, apresentador da Fox News. "Republicanos simplesmente não fazem esse tipo de coisa", afirmou o radialista conservador Rush Limbaugh.

Em pouco tempo, a internet estava inundada de alegações de que as bombas haviam sido plantadas pelo próprio Soros.

Trump condenou os "atos desprezíveis", mas quando uma pessoa presente em uma recepção da Casa Branca gritou "Soros! Prendam-no", o presidente deu risada.

Até que foi preso um homem de 56 anos, chamado Cesar Sayoc e morador da Flórida.

As teorias da conspiração da época diziam que Sayoc não era um republicano. Mas Luigi Marra, um ex-colega de trabalho dele, disse à BBC News que Sayoc entregava pizzas usando sua van repleta de adesivos pró-Trump e discutia com clientes que tivessem faixas democratas penduradas em suas casas.

"Tudo para ele era uma teoria da conspiração, tudo", conta Marra. "George Soros estava por trás de tudo, estava comprando o Partido Democrata, era o epicentro de tudo o que estava de errado nos EUA."

Nas redes sociais, no dia em que a bomba foi descoberta na casa do bilionário, Sayoc repostou um meme que dizia "o mundo está acordando para os horrores de George Soros".

Meme contra Soros que circula na internet; bilionario virou tema de diversas teorias da conspiracao - BBC
Meme contra Soros que circula na internet; bilionario virou tema de diversas teorias da conspiracao
Imagem: BBC

Sayoc mais tarde admitiria culpa de 65 acusações, incluindo intenção de matar ou ferir com explosivos, e foi sentenciado a 20 anos de prisão.

Mas como George Soros acabou se tornando, na visão da direita radical, no cérebro por trás de uma conspiração global?

Especulador agressivo

No Reino Unido, o bilionário é conhecido como "o homem que quebrou o Banco Central em 1992". Junto a outros especuladores financeiros, ele pegou libras emprestadas e as vendeu, ajudando a dinamitar o preço da moeda nos mercados e forçando o governo britânico a abandonar um sistema monetário europeu cuja finalidade era evitar grandes flutuações cambiais.

Com a especulação agressiva, Soros lucrou US$ 1 bilhão.

Acredita-se que o migrante húngaro, que sobreviveu ao Holocausto e fugiu dos regimes comunistas do Leste Europeu, tenha feito fortuna de US$ 44 bilhões com especulações financeiras semelhantes.

Parte dessa fortuna - US$ 32 bilhões - foi usada para financiar milhares de projetos de educação, saúde, direitos humanos e valores democráticos liberais ao redor do mundo.

Criada em 1979, sua fundação Open Society hoje opera em mais de 120 países (Brasil incluído). Mas sua filantropia em favor de causas liberais e democráticas fez dele o bicho-papão da direita.

As primeiras teorias conspiratórias sobre Soros remetem ao início dos anos 1990, mas ganharam força mesmo depois que ele condenou a Guerra do Iraque, em 2003, e começou a doar milhões de dólares para o Partido Democrata dos EUA. Desde então, comentaristas e políticos de direita atacam Soros com crescente fúria e acidez, e muitas vezes atendo-se pouco aos fatos concretos.

Depois da eleição de Donald Trump, em 2016, os ataques a Soros alcançaram um novo - e perigoso - nível.

Em agosto de 2017, passados oito meses desde a eleição, neonazistas realizaram uma procissão em Charlottesville, no Estado da Virgínia. Confrontos com manifestantes do outro lado terminaram em tragédia quando um supremacista branco avançou com seu carro contra uma multidão e matou Heather Heyer, 32 anos.

A direita logo passou a dizer que a violência havia sido orquestrada e financiada por Soros, em uma tentativa de prejudicar a reputação de Trump. Essa teoria, divulgada pelo radialista de direita Alex Jones, alegava que um homem chamado Brennan Gilmore, que havia filmado o carro avançando contra a multidão, recebera US$ 320 mil e fazia parte de uma tentativa de derrubar o presidente dos EUA.

As provas disso, porém, são frágeis.

Soros de fato doou US$ 500 mil à campanha política de Tom Perriello - candidato democrata na Virgínia, para o qual Gilmore trabalhara -, mas não há nenhuma evidência de que a Open Society tenha tenha orientado ou financiado um contraprotesto em Charlottesville. Gilmore, que nunca recebeu dinheiro diretamente de Soros, está processando Alex Jones e outros por difamação.

'Caravana de imigrantes'

Desde então, os ataques contra Soros se intensificaram. Um ano atrás, milhares de migrantes deixaram Honduras rumo aos EUA, um mês antes das eleições legislativas que ameaçavam diminuir o controle republicano no Congresso.

Imediatamente, a chamada "caravana de imigrantes" foi atribuída a Soros. A emissora Fox News repetidamente afirmou que Soros defende fronteiras abertas e imigração irrestrita.

"É um esforço organizado. E alguém está por trás dele, alguém está pagando por parte disso, e seria típico de George Soros se envolver nisso", alegou à BBC Jack Kingston, um ex-deputado republicano.

De sua parte, Trump retuitou um vídeo que alegava que dinheiro estava sendo distribuído a pessoas em Honduras para "invadir a fronteira dos EUA", sugerindo que o dinheiro viria de Soros.

Perguntado a respeito, Trump afirmou que "não ficaria surpreso (se Soros financiasse a caravana). Muitas pessoas dizem que sim".

Cindy Jerezano, que viajou com a caravana desde sua casa em Honduras até os EUA, disse à BBC nunca ter recebido oferta de dinheiro e que decidiu por conta própria viajar os 4.800 km até San Diego.

Ela foi amparada, ao chegar aos EUA, por uma associação católica da Diocese de San Diego. Nadine Toppozada, diretora de serviços migratórios da associação, explicou que os advogados da instituição entrevistaram extensivamente os migrantes, mas nunca ouviram nenhuma menção a Soros. Tampouco encontraram qualquer evidência do envolvimento do bilionário.

E mais, o vídeo retuitado por Trump se provou falso: em poucas horas, jornalistas descobriram que as imagens não haviam sido feitas em Honduras, mas sim na vizinha Guatemala.

A caravana foi gravada durante toda sua jornada. Associações locais eram vistas ajudando os migrantes. Mas não houve nenhuma evidência de financiamento de Soros.

'Genocídio branco'

Em 27 de outubro de 2018, onze dias após emergir a primeira teoria da conspiração sobre a caravana, e cinco dias depois de a bomba ser entregue à casa de Soros, um homem branco armado com um fuzil e três revólveres entrou em uma sinagoga em Pittsburgh. Ele assassinou 11 judeus.

Foi o pior ato de violência antissemita na história dos EUA - e foi levado a cabo por um homem obcecado por George Soros.

Os posts nas redes sociais do atirador, Robert Bowers, revelavam que ele acreditava em uma obscura teoria da conspiração antissemita chamada "genocídio branco", da qual Soros seria o criador.

A teoria alega que pessoas brancas estão sendo substituídas por imigrantes e serão, em última instância, eliminadas. Isso está ligado aos cantos de neonazistas, "judeus não nos substituirão", enquanto marchavam por Chalottesville.

Joel Finkelstein, diretor da Network Contagion Research Institute, grupo dedicado a expor discursos de ódio na internet, descobriu um post em que Bowers se refere a Soros como "o judeu que financia o genocídio branco e controla a imprensa" e alegava que o bilionário patrocinava o controle de armas e fronteiras abertas.

Finkelstein, que recebeu financiamento da Open Society para investigar o que acredita ser uma ameaça crescente, concluiu que supremacistas brancos como Bowers veem Soros como o cérebro judeu controlando tudo. "Esses agentes violentos justificam sua violência apontando o dedo a Soros como forma suprema do mal", diz.

A vilanização de Soros se espalhou para além dos EUA, na Armênia, Austrália, Honduras, Filipinas, Rússia e outros países.

O premiê turco Recep Tayyip Erdogan acusou o bilionário de estar no centro de uma conspiração judaica para "dividir" e "partir" a Turquia e outras nações.

Na Itália, o ex-vice-premiê Matteo Salvini acusou-o de querer encher o país de migrantes porque "ele gosta de escravos".

O líder do Partido do Brexit britânico, Nigel Farage, acusou Soros de "ativamente estimular pessoas (...) a inundar a Europa" e "em muitas formas ele é o maior perigo ao mundo ocidental".

Ataques na Hungria

Mas um país e um governo foram além para atacar Soros. Em seu país de origem, a Hungria, onde ele patrocinou merendas escolares, projetos de direitos humanos e uma universidade, o premiê Viktor Orban afirmou que o bilionário tem um plano secreto de encher o país de imigrantes e destruir a nação.

Leonard Benardo, vice-presidente da Open Society, rebate que "essa alegação é falsa".

"Nem o George Soros nem a Open Society são propositores de fronteiras abertas", disse.

O governo húngaro patrocinou uma campanha de marketing pedindo que os eleitores não deixassem Soros "rir por último" e criou o que chama de leis "Parem Soros", criminalizando a ajuda a imigrantes irregulares e cobrando impostos de organizações que "promovam a migração".

"Há muito dinheiro entrando no império de Soros, bilhões de dólares nas últimas décadas", disse à BBC Zoltan Kovacs, porta-voz do governo Orban. "É muito dinheiro, e ninguém pode ser ingênuo em acreditar que esse dinheiro não tem peso nem intenções."

Como diz Michael Ignatieff, presidente e reitor da Universidade Central Europeia, financiada por Soros, "o governo Orban decidiu transformar Soros em inimigo público número um".

Mas como isso aconteceu?

Mentor do bode expiatório

As respostas estão no Estado de Nova York.

Em 2013, quando o líder húngaro buscava estratégias para se reeleger, entrou em contato com um lendário consultor político, Arthur Finkelstein (nenhum parentesco com Joel), que trabalhava em um pequeno escritório em Irvington, a apenas 30 km da mansão de Soros.

Arthur Finkelstein, que morreu em 2017, trabalhou para Donald Trump, George Bush pai, Ronald Reagan e Richard Nixon e é conhecido por fazer a palavra "liberal" soar como palavrão na política americana.

Finkelstein criou um estilo de fazer política chamado "Finkel Think", diz Hannes Grassegger, repórter do periódico suíço Das Magazin e autor de reportagens sobre o assunto.

"Arthur Finkelstein sempre dizia, 'você não faz oposição ao Talebã, faz a Osama Bin Laden'. É uma questão de personalização, de escolher o inimigo perfeito e ir com tudo contra essa pessoa, de modo que o povo fique com medo do seu oponente. E nunca fale sobre as propostas de seu próprio candidato, elas não importam nada."

Finkelstein percebeu que o melhor jeito de reeleger Orban era encontrando um novo inimigo. Ele sugeriu Soros como a escolha perfeita, diz Grassegger. "A direita já o odiava por ser judeu, e a esquerda o odiava por ser um capitalista."

A ironia da história é que Arthur Finkelstein era, como Soros, judeu. "Esse senhor judeu criou (a ideia) do monstro judeu", diz Grassegger.

O governo húngaro nega que tenha necessitado que alguém "inventasse" Soros como inimigo. Em comunicado, diz que "George Soros inventou a si mesmo como ator político há ao menos duas décadas. Sua rede de instituições exerce uma grande quantidade de poder sem ter um mandato que venha do povo".

Mas Orban parece ter ido além de colocar em prática os conselhos de Finkelstein. Em um discurso poucas semanas antes das eleições gerais húngaras de 2018, o político reviveu antigos estereótipos antissemitas.

"Estamos combatendo um inimigo que é diferente de nós. Não aberto, mas escondido. Não direto, mas ardiloso. Não honesto, mas sem princípios. Não nacional, mas internacional. Não acredita em trabalho, mas especula com dinheiro. Não tem pátria própria, mas acredita que tem o mundo inteiro", afirmou.

Viktor Orban venceu com ampla margem. Depois da eleição, seu combate às organizações financiadas por Soros se intensificaram. Em maio deste ano, a Open Society fechou seu escritório na Hungria.

Michael Ignatieff tem tentado manter a Universidade Central Europeia aberta em Budapeste e alega que está circulando uma perigosa propaganda em torno do tema, em um país onde mais de 500 mil judeus húngaros foram exterminados pelos nazistas em apenas dois meses de 1944.

Ignatieff argumenta que a campanha anti-Soros "é uma reprise de todos os temas recorrentes do ódio antissemita dos anos 1930. (...) É tudo uma fantasia completa. Essa é a política do século 21 - se você não tem um inimigo, invente um o mais rápido que puder, faça-o parecer o mais poderoso possível, e bingo: você mobiliza a sua base e vence uma eleição".

A professora Deborah Lipstadt, que venceu uma famosa briga judicial para expor negacionistas do Holocausto em cortes do Reino Unido, também se diz preocupada.

"Fico aterrorizada que esse tipo de retórica, que costumávamos ouvir em bares e cantos obscuros, está sendo usado por políticos, líderes de países, o (ex)vice-premiê da Itália, o premiê da Hungria. É chocante o fato de esse tipo de linguagem estar sendo falado."

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